Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

14 de agosto de 2009

Marly

MARLY DE OLIVEIRA
( 1935 - 2007 )

Nascida em Cachoeiro do Itapemirim- ES, fez seus primeiros estudos em Campos dos Goytacazes - RJ. Poeta e professora de língua e literatura italianas e de literatura hispano-americana. Publicou, entre outros, os livros: Cerco da Primavera (1957), Explicação de Narciso (1960), A Suave Pantera(1962), A Vida Natural e O Sangue na Veia (1967), Contato e Invocação de Orpheu (1975), O Mar de Permeio(1998) e Uma vez, sempre (2000).

"Na longa fala de sua importante obra, Marly vem tecendo e consagrando os seus próprios mitos fundamentais. Desde o primeiro livro de poemas, (...) ela trabalha e retrabalha uma só iluminação central, multiplicada e projetada sobre horizontes de significados que tanto mais se alargam quanto mais nítida, precisa e despojada se torna sua peculiar dicção. Por isso, o percurso de Marly, mágico e pendular, retoma sempre o princípio de tudo ('o erro nunca está no fim: / no início é que é preciso / ir desfazendo o escuro'), anula a aridez das lembranças e conflitos pessoais ('por mais que se ande, o caminho / leva sempre para trás'), até chegar à escrita revelada de uma poesia que submete o sofrimento da perda, a amargura do engano, a frieza da aridez ao 'império da esperança' e ao chamado do amor (...)." MÁRIO CHAMIE

“ A Poesia, no Brasil, de linhagem feminina já de algum tempo - com algumas grandes Poetas - se fizera poesia de linhagem poética, sem mais epítetos. Marly de Oliveira é dessa linhagem, quintessenciada.”. ANTÔNIO HOUAISS

Marly construiu sua poesia vivenciando as mais elevadas virtudes de persona: extrema simplicidade e singular humildade. A iluminar essas premissas, lancemos as luzes emanadas da indiscutível Clarice Lispector: “Trata-se de um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia (...) Basta, porém, ler Marly para admirá-la, respeitá-la e, o que é tão importante, amá-la”. DONALDO MELLO


O sangue na veia

XXV

Escrevo; logo, sinto, logo, vivo,

e tiro-lhe ao viver a indisciplina

que o espraiaria, que o dispersaria,

e dou-lhe a minha forma comedida,

a que tem o tamanho de um amor

que eu guardo, que não gasto, não disperso;

amor que se concentra em dura pérola,

não pétala, não isto que é um excesso,

pois que pode voar; o que me fica

de tudo o que acontece e não se altera,

de tudo o que acontece e me escraviza,

e do que escravizando me liberta.

Escrevo; logo, sou quem se domina,

e quem avança numa descoberta.

O sangue na veia

XXII

Eu caio em ti como uma bruta pedra

na água, no amor não me dissolvo, o amor

não me absolve, estou (quem nos governa,

quem nos arrasta à guerra ou ao repouso)

colada a quê, um copo sobre a mesa,

menos que o copo, o fundo desse copo,

e, não obstante, para sempre presa,

pois o que basta é tudo o que não posso,

pois o que basta é tudo o que me exige

uma violentação do que, por dentro,

é o meu mundo, essa coisa indefinível

e tão concreta, mas que não conheço,

e às vezes temo que me paralise.

Viver é submeter-se, eu me submeto.

O sangue na veia

XXIII

Avançar no viver já significa

coisa mais ampla, coisa que mais vale;

assim como o embrenhar-se numa selva

nos cobre de uma súbita humildade,

humildade que leva a sua grandeza

em si como no bojo de um navio,

e como se isso fosse exterior

e simples, como não se ter sentido,

no escuro de uma selva, do que é nosso:

por efeito de amor então me alargo,

consciente de mim, do que não posso,

e da fraqueza do meu desamparo.

Embora fique em mim, não me dissolva,

e tenha a minha raiva, a minha escolha.

O sangue na veia

XVIII

A força que há na luz, não sua ausência,

pode ser a origem mais secreta

do escuro em que afundamos de repente:

por excesso de luz, eis que estou cega,

por excesso de amor, eu não entendo

- o farfalhar macio, a crua seda -

­aquilo que nos move, e que ultrapassa

o limite de tudo o que sabemos.

Por excesso de dor eu me humanizo,

eu me faço pequena e tão real,

nos tornamos serenos, silenciosos,

tão reais e inocentes e macios,

que essa luz que não vemos é demais.

Mesmo ser é um excesso em que caímos.

ELEGIA

Teu rosto é o íntimo da hora

mais solitária e perdida,

que surge como o afastar-se

de ramos, brando, na noite.

Não choro tua partida.

Não choro tua viagem

imprevista e sem aviso.

Mas o ter chegado tarde

para o fechar-se da flor

noturna do teu sorriso.

O não saber que paisagens

enchem teus olhos de agora,

e este intervalo na vida,

esta tua larga, triste,

definitiva demora


Poemas transcritos do livro Contato (Marly de Oliveira) e do encarte do Cd Mãos Dadas ( seleção e interpretação de Lauro Moreira)


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