Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

25 de setembro de 2009

FICÇÃO de Hilda Hilst / CADERNO ROSA DE LORI LAMBY

Com O Caderno Rosa de Lori Lamby, a poeta, dramaturga e ficcionista Hilda Hilst não apenas nos confronta com a evidência embaraçosa da realidade sexual, mas nos faz transitar por esse desconhecido espaço com a naturalidade e humor que caracterizam os grandes autores...


Primeira história

O sapo Liu-Liu tinha muita pena de seu cu. Olhando só pro chão! Coitado! Coitado do cu do sapo Liu-Liu! Então ele pensou assim: Vou fazer de tudo pra que um rainho de Sol entre nele, coitadinho! Mas não sabia como fazer isso. Conversando um dia com a minhoca Léa, contou tudo pra ela. Mas Léa também não sabia nada de cu. Vivia procurando o seu e não achava.

- Tá bem, vá, então cê não tem esse problema, disse Liu-Liu.
- Mas não fica bravo, Liu-Liu, eu vou me informar. Vou saber
como você pode fazer pra que um rainho de sol entre no teu fiu-fiu.
- Que beleza, Léa! Fiu-fiu é um nome muito bonito e original!
- Não seja bobo, Liu, todo mundo sabe que cu se chama fiufiu.
- Ah, é? Pois eu não sabia.

Então Léa viajou pra encontrar a coruja Fofina que tinha fama de sabida. Fofina pensou pensou pensou, abriu velhos livros, consultou manuscritos, enquanto Léa dormia toda enrolada.

- Acorda, Léa! Achei! disse Fofina.
A minhoca Léa ficou toda retesada de susto.

- Relaxa, relaxa! disse Fofina.
- Olha, Léa, Liu-Liu tem que aprender uma lição lá na Índia – disse Fofina.
- Eu tenho medo de índio, disse a minhoca Léa.
- Não seja idiota, Índia é uma terra que fica longe daqui.
- Ah, então tá bom, disse Léa.
- Olha, Léa, lá na Índia eles se torcem tanto que engolem o próprio cu.
- Credo! E como é que o cu sai?

Bem, isso é outra história que eu tenho que estudar, mas o Liu- Liu tem que ficar com a cabeça pra baixo, e as pernas de trás pra cima. Assim
Fofina ficou vermelha como um peru e não consegiu mostrar o exercício pra minhoca Léa, mas Léa entendeu, e foi ventando contar tudo a Liu-Liu. demorou três dias, mas chegou. Foram meses muito difíceis para o sapo Liu-Liu, Mas toda a sapaiada ficou torcendo pra ele. E quando o primeiro rainho de sol entrou no fiu-fiu de Liu-Liu foi aquela choradeira de alegria. E o país do Cu-quente, onde mora o Liu, desde então é uma festa! Do dia ao poente!

Segunda História

Quando o cu do Liu-Liu olhou o céu pela primeira vez, ficou bobo. Era lindo! E ao mesmo tempo deu uma tristeza! Pensou assim: eu fiu-fiu, que não sou nada, sou apenas um cu, pensava que era Algo. E nos meus enrugados, até me pensava perfumado! E só agora é que eu vejo: quanta beleza! Eu nem sabia que existia borboleta! Fechou-se ensimesmado. E fechou-se tanto que o sapo Liu-Liu questionou: será que o sol me fez o cu fritado?

Terceira História

Era uma vez uma mosca chamada Muská. Ela se achava um bicho repelente. Cada vez que se olhava no espelho ela chorava. Um dia Muská encontrou a comadre Vertente. Vertente era cheia de cascata, linda lisa e lavada.

- É, comadre Vertente, como é que é ser assim como gente?
- Não me ofenda, Muská, gente é repelente!
- Cê acha?
- Cê pode até não achá, Muská: quem sai aos seus não degenera, Muská véia.

E muito encrespada deu-lhe uma bela lavada! (Tio Lalau: essa é pra pensar. “Funda e tênue”, como diz papi. E como nas fábulas di tio La Fonténe.)

Histórinha Escotérica Chilena (*)

Pau d’Alho era um rei muito feliz porque tinha duas cabeças. Dava tempo pra pensar duas vezes mais em seu povo. O povo sabia das qualidades raras do rei Pau d’Alho e adorava-o. Ele era rei da Alhanda. Mas um dia o mago da corte disse ao rei: a bruxa Ciá quer cortar as duas cabeças de Vossa Alteza. Todo o povo rezou rezou mas não adiantou. E o rei Pau d’Alho morreu com duas cabeças e tudo. Moral da história segundo um cara quente: “A perfeição é a morte”.

(*) Tio Lalau: os tios que vinham aqui em casa conversavam muito
sobre esse lugar chileno.

Lori Lamby

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