Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

13 de setembro de 2009

QUEM TEM MEDO DE DOMINGO A NOITE ?


por Luisa Micheletti

" Hoje é domingo, pé de cachimbo.

Na verdade hoje foi domingo, porque domingo a noite não pode mais ser considerado domingo, muito menos fim de semana. Ou pode? Fim de domingo pode ser pior que segunda-feira se a gente bobear. Aguardamos o famoso sofrimento por antecedência, da nossa famosa ignorância que insiste em viver com a cabeça lá na frente, bem no futuro, bem longe da única coisa que exite que é o agora. Fim de domingo pode ser ruim porque a gente se preocupa. A gente se pré-ocupa. Trata logo de se ocupar de coisa que nem está acontecendo.

Por isso vou tentar fazer o contrário hoje. Não vou pensar em 12 horas para frente. Vou pensar em 12 horas para trás.

Acordei tarde, justamente porque é domingo. Sunday. No dia do sol, o dono compareceu como se fosse dia de festa. Amarelão, exibido e com os raios empinados, como se tivesse passado gel numa juba quente. Tratou de animar meia dúzia de vizinhos sedentos por um bronze na lage e por uma música bem alta que alardeou o quarteirão. Era o primeiro sinal que avisava: hoje é dia de o ser humano se lembrar de que é um animal que vive em bandos.

Dormi torta de novo! Esse travesseiro ainda acaba comigo. Opa, o travesseiro não é meu, é da minha mãe. Percebi que não amanheci em casa. A dona da casa foi se encontrar com o dono do dia em algum lugar.

Levantei e num rolê até a cozinha me lembrei de como apartamento de mãe tem cheiro de apartamento de mãe. Meio planta, meio produto de limpeza e meio alguma coisa impossível de descrever porque está gravado na memória desde os tempos do útero, quando ainda não existia linguagem. Era sensação de cobertor quente com migalha de panetone, antes de eu ter provado qualquer uma dessas coisas. Sentei na mesa. Duas torradas com geléia depois, desci e andei para casa.

Os seres humanos do bairro iam se aglomerando cada vez mais e mais rápido. Era possível perceber espaços desertos nas ruas entre esporádicas concentrações de carros estacionados, todos juntos. Era um silêncio intenso que rondava as casas e os prédios do caminho. “Tanto respeito em nome de que?”, pensei. Do céu azul royal que me descola violentamente as paredes dos pulmões de tantos suspiros que me arranca ao subir a ladeira? Devem existir muitas avós de seres humanos que cozinham massas imperdíveis e dignas de silêncio neste bairro. Imagino que hoje também seja dia de missa. Mas não era isso. Assim como os carros se aglomeravam e deixavam espaços em branco nas ruas, gritos simultâneos ressoavam nos espaços vazios entre as casas e os prédios. Há uma sincronia, pensei. Existe alguém regendo a orquestra. Alguém que chuta uma bola em algum lugar.

Minhas amigas estão juntas num parque. Elas se aglomeram num gramado, sentadas sobre um tecido e jogam conversa fora. Me aglomerei por alguns minutos para rir junto, até que elas resolveram ir embora para se aglomerar com as respectivas famílias em algum outro lugar.

Voltei para o apartamento com cheiro de torrada e comi um almoço. Imagino que esse era bem melhor do que aquele que eu comia pelo cordão umbilical. O que era aquilo? Sangue? Hoje é carne de panela com salada de erva-doce. Bem melhor.

Voltei para o apartamento com cheiro de gatos aglomerados e louças sujas aglomeradas. Eliminei a segunda parte e me aglomerei com a primeira parte. Fiquei ali por algumas horas, esperando o dono do dia se despedir. Desgastado, o anfitrião foi sumindo lentamente ao longe por trás do desenho das montanhas verdes. Antes de sumir completamente, fez um último alarde com vermelhos e laranjas. Quando finalmente cansou, foi apagando, apagando, e cedendo lugar `a pequenos pontinhos de luz que foram se aconchegando no céu, um a um, aglomerados. Fiquei esperando a dona de amanhã. Amanhã é Moonday. Mas me lembrei que hoje ela não vem. Está tão gamada no dono de domingo que ficou ofuscada pela juba com gel.

Espero que todos tenham uma ótima semana, vivendo um dia de cada vez, se possível ; ) "

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