Filha de Persephone

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Brasília, DF, Brazil
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

17 de janeiro de 2010

laranja seleta

laranja seleta
poesia escolhida (1977-2007)
Rio de Janeiro: língua real, 2007


“Há muitas entradas e saídas na poesia de Nicolas Behr. Como se trata de uma poesia em que a noção de movimento, de lugar de onde parte o autor em direção ao mundo, e de seu próprio caminhar é fundamental, essa idéia de situações em movimento, que se fecham e se abrem para o poeta, está muito presente.
A poesia de Nicolas, para mim, é a poesia do homem que se move, do homem em travessia, que sai de um ponto em direção a outro. Num certo sentido é uma poesia da geometria do caminhar, de um traçado que se torna aparente na luz do movimento.
Nesse ir e vir, a poesia de um homem que se pensa, que se busca e estabelece uma interlocução permanente e desesperada com o espaço imediato e contígûo- a cidade, no caso Brasília, a qual retrata, de modo intermitente, o real em sua pseudo-aparência ou verdade, espelho em que este homem procura o contorno de si. (...)” FRANCISCO ALVIM

“A poesia de Nicolas Behr parece espontânea e simples. Nem tanto. “Achados” depois de muito rebuscar, de muito caminhar... como os artefatos do Nicanor Parra que, ao perseguir o simples e o banal, é tão sofisticado...coloquial na aparência, mas cru e sarcástico no fundo, leve e breve mas nunca simplório nos melhores momentos.” ANTONIO MIRANDA

***

o menino que fui existe onde não estou

o menino que fui não sou eu,
é outro menino, mais antigo,
que veio antes de mim

o menino que fui
nenhum poeta imagina,
nenhuma palavra recria

o menino que fui não foi

***

o seio como parte da boca
o toque como parte do olhar
o respirar como parte do ar
o dançarino como parte da dança
a língua como parte do dente
o desejo como parte do gozo
o poema como parte do todo
a vagina como parte do pênis

e o teu espanto
como parte do medo

***

desço aos infernos
pelas escadas rolantes
da rodoviária de Brasília

meu corpo boiando
no óleo que ferve
um pedaço do teu coração
num pastel de carne

***

três da madrugada no eixão
sem ter prá onde ir
sem ter prá onde correr
gritar não vale
morrer não adianta

***

neguinho tá lá na dele
esperando ônibus
com a namorada

aí o cara vai lá
dá um tiro nela
assim na maior

pode?

***

***

ASSIM ERA O RESTAURANTE
DA MADRINHA, EM COCALZINHO DE GOIÁS

no restaurante da madrinha,
em cocalzinho de Goiás,
a melhor mesa para se almoçar
era a primeira à esquerda
de quem entrava pela rua
pois era maior e ficava perto da janela,
de onde se via o movimento,
ou a do canto direito,
perto do fogão a lenha,
de quem entrava pelos
fundos, onde tinha
um velho pé de mamão
que nasceu no pé do muro

no restaurante da madrinha,
em cocalzinho de Goiás,
tinha uma cancela na porta,
onde, todas as sextas-feiras,
ela colocava um ramo de arruda para chamar
os fregueses, espantar os maus espíritos
e as moscas

***


***

blasfemo e digo que mão de deus
escreve poemas ateus

deus, vem, corre, me limpa
desses pensamentos

chame adélia prado para me salvar

corto logo minha mão
põe fogo neste livro
joga uma pá de cal em mim

me crucifica

faz eu chorar o resto da vida

até eu secar

***

eu sei que errei
mas prometo
nunca mais
usar a palavra certa

***

Do livro:
Menino Diamantino
(2003):

A MISSA

em nome do pai, do filho e do espírito santo
depois da missa eu vou jogar bola e pescar
cantemos todos o canto de entrada – de pé
tenho vara, linha, chumbada e isca boa, minhoca
bendito seja deus que nos reuniu no amor de cristo
eu e inácio vamos pescar naquele trecho do rio, difícil
deus pai todo-poderoso tenha compaixão de nós
mamãe veio me visitar e fomos tomar guaraná
leitura da carta de são paulo apóstolo aos romanos
ela vem de novo mês que vem e vamos tomar
guaraná de novo, ela disse, ela prometeu
senhor, tende piedade de nós
não sei o que eu faço para aprender matemática
evangelho de jesus cristo segundo são lucas
é tempo de manga rosa na casa da dona alair
glória a deus nas alturas
só que lá na casa dela agora tem cachorro bravo
e paz na terra aos homens de boa vontade
irmã deolinda está na missa, bem ali na frente, linda
senhor deus, reis dos céus, deus pai todo-poderoso
só faltam três semanas pra gente sair de férias
nós vos damos graça por vossa imensa glória
meu irmão puxou minha orelha, sangrou, doeu
vós, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós
aquele cacho de banana que escondi na roça
dos padres deve estar bem maduro
vós, que estás à direita do pai, tende piedade de nós
vou lá sozinho, comer aquele cacho de banana sozinho
vinde a mim os que têm fome – glória a vós, senhor
não subo mais em pé de abacate, caí, quase morro
segura na mão de deus que ele te sustentará
que pena - vão derrubar o muro da casa do seu joão - ai não vai ter mais graça roubar manga lá
oh meu bom jesus que a todos conduz olhai as
crianças do nosso brasil
ah, mas ainda tem muitos outros quintais pra gente
roubar manga, não vai faltar manga nem quintal
o senhor esteja convosco. ele está no meio de nós
quando eu for na fazenda quero andar a cavalo
senhor eu não sou digno que entreis em minha morada
mas dizeis uma só palavra e serei salvo
que palavra será essa, meu deus? a palavra
cavalo serve? e se meu pai vendeu o cavalo?
cordeiro de deus, que tirais o pecado do mundo
será que tô com bicho-do-pé de novo?
no amor e na comunhão do espírito santo
estou arrependido de ter tocado fogo no sapo
abençoe-vos deus todo poderoso, pai, filho e espírito santo
aleluia! aleluia! aleluia!
a missa está no fim e eu não quero ser goleiro outra vez
ide em paz e o senhor vos acompanhe
amém! gol! amém! gol! amém! gol! amém! graças a deus!
pela primeira vez meu time ganhou do time dos anjos


Umbigo

2001

minha poesia é primeira linha
minha poesia não é de segunda mão
minha poesia às vezes é de terceira categoria
minha poesia vai começar. pode soltar os cintos
minha poesia. com a palavra, o poeta
minha poesia é de tirar o fôlego. é só parar de respirar
minha poesia a partir de agora vai fazer uso da palavra
minha poesia - você ainda não leu nada
minha poesia já foi vendida como cachaça pra doido
minha poesia é pra você jogar no chão, mas ainda não
minha poesia é pra você falar mal, mas só no final
minha poesia nunca mais tomou veneno para matar rato
minha poesia pode ser arnaldo, pode ser antunes,
pode ser geraldo, pode ser fagundes
minha poesia sente que tem alguém neste momento
atrás do poema com ujma faca
minha poesia come as cascas das feridas dos prisioneiros
no campo de concentração
minha poesia morde o poema até sair outro poema
minha poesia não é a grande poesia de manuel bandeira
mas é a certeza de que estou vivo
minha poesia sente tremeliques toda vez que ouve leninha e
as ministéricas
minha poesia vem do passado e por lá mesmo fica
minha poesia são meus olhos - molhe-os
minha poesia - cada dia uma linha e uma pequena dor
minha poesia e o poeta entram de mãos dadas no cemitério
para ler lápides e chorar um pouco - saudades dos seus

( ... )

Extraído do livro Umbigo (2001).

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