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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

15 de janeiro de 2010

A poesia libertária de Nicolas Behr*



Os anos setenta ainda não são lá muito bem reconhecidos. Na sua primeira metade, o país sofre com a fortíssima rebordosa do AI-5, com o extermínio das guerrilhas pelo governo Médici e com a ilusão de prosperidade do que ficou conhecido como Milagre Econômico. A produção cultural independente havia sido varrida para fora da casa e as movimentações dos anos cinqüenta e sessenta sufocadas. A barra pesada se instalou e os artistas aos poucos recorreram às esferas micropolíticas para continuar produzindo: a liberação sexual, o feminismo, o crescimento do movimento negro, as primeiras organizações ecológicas, o desbunde e as drogas passaram a ser as novas formas de posicionamento sócio-político da juventude e dos artistas brasileiros diante do poder, que agora, sabia-se, não era localizado apenas na ditadura governamental, mas em toda forma de opressão que pudesse surgir. Talvez devido a isso poucos sejam os que lhe dedicam reflexões e pesquisas de cunho cultural e comportamental mais abrangentes. Na música, cantores e compositores como Fagner, Alceu Valença, Belchior e os mineiros (com a exceção de Milton Nascimento) ainda sofrem à sombra daqueles surgidos nos anos sessenta; no cinema, a falta de recursos financeiros e também a sombra do Cinema Novo levaram produtores e diretores a atuarem na marginalidade e a produzir um cinema de baixa qualidade técnica e de uma inventividade esquizofrênica (a Boca do Lixo); no teatro, é a hora da cooptação dos atores engajados para as telenovelas, que têm sua força e audiência estabelecidas e se tornam o fenômeno que conhecemos.

Já a poesia produzida nos anos setenta tem um estilo próprio, uma dicção marcada, formas e temas típicos e também sofre de enorme preconceito nos círculos propriamente literários, apesar de ter reconhecidamente uma presença bastante definidora do que foi o comportamento daquela geração. Essa poesia, no entanto, ainda está viva, mais presente e atuante do que nunca, como nos mostram as publicações nos últimos anos da poesia de Francisco Alvim e Chacal, bem como alguns livros e teses acadêmicas sobre a poesia desse período. Este ano vem juntar-se a esses dois poetas a antologia Laranja Seleta: poesia escolhida (1977-2007), pela editora Língua Geral, do mato-grossense, radicado desde os dez anos em Brasília, Nicolas Behr.

Primeiro livro editado sem ser às suas próprias expensas, Laranja seleta é uma excelente apresentação da poesia de Behr e da poética da geração mimeógrafo. Poesia rápida, de comunicação direta, sem volteios, com a urgência de quem escreve no calor da hora, captando os sinais que o mundo emite a todo instante, dando à vida o mesmo estatuto da arte. Essa, não por acaso, talvez seja uma das características da geração que cresceu nos anos setenta: abandonar velhos padrões da intelectualidade modernista, ainda presa a modelos tradicionais de erudição e estética, e mergulhar de cabeça nas experiências do cotidiano que colocam no mesmo patamar a leitura de poetas da tradição com os produtos da indústria cultural. A precariedade no processo de confecção dos livros, geralmente mimeografados em escolas e gráficas barateiras, se refletia na escolha também por uma estética precária, do efêmero, do cotidiano, enfim, de uma estética pop. Muito diversa, no entanto, do que nas duas últimas décadas se convencionou considerar, aqui no Brasil pelo menos, como literatura pop – isto é, um texto contendo referências a outras linguagens ou ícones da cultura pop – a poesia dessa geração de fato se queria e era pop. No seu primeiro livro mimeografado – sintomaticamente intitulado Iogurte com farinha –, Behr vendeu 8.000 exemplares. O pop é simples, despretensioso, comunicável, cotidiano, de fácil e rápido consumo. Assim eram os mimeógrafos, investindo em esquemas também fora dos tradicionais para produzir, divulgar e vender seus livros em bares, festas, shows, passeatas, comícios, sindicatos, ruas, etc. Isso talvez signifique ser pop em um país como o Brasil. E não simplesmente repetir Andy Warhol e suas citações.

Os livrinhos mimeografados eram verdadeiras experimentações plásticas. E isso em um poeta brasiliense é algo que não pode ser ignorado, pois Brasília é um dos principais ícones da arquitetura e o urbanismo modernista no mundo. A poesia de Nicolas está impregnada e dialoga intensamente com a cidade. Poeta de Brasília sem cantá-la numa ode ou lamentá-la em elegias, Behr assume a voz do homem anônimo, do homem cotidiano, que trafega à pé pelas margens das largas avenidas do modernismo brasileiro: (“desço aos infernos / pelas escadas rolantes / da rodoviária de brasília // meu corpo boiando / no óleo que ferve / um pedaço do teu coração / num pastel de carne”). O poeta marginal, que não lê, mas encarna Dante, nitidamente troca a biblioteca pela rua. Isso, todavia, não implicou uma rejeição às propostas das gerações anteriores. Muito do que foi produzido pelo espírito das vanguardas modernistas foi assimilado nos anos setenta ao modo e da maneira que queriam aqueles poetas. A estética de vanguarda foi sua escola: dos ready-mades verbais oswaldianos, passando pelo poema-piada, pela paródia e pelo pastiche, pela espacialização e iconicidade verbal preconizada pelos concretistas, até o coloquialismo precioso de Bandeira, está tudo lá, como a biblioteca a que a geração acessou, sem, no entanto, repetir seu gesto intelectualista. Particularmente a poesia de Behr é filha de Brasília, que é filha dileta do pensamento de vanguarda: estética e política. Isso é perfeitamente destacável no poema abaixo: substantivação, linearidade (sintática e espacial), enquadramentos e esquematizações, objetividade, produção em série, etc.


SUPERQUADRAS

na entrada
um quebra-molas
e uma banca de jornal

blocos blocos blocos
blocos blocos blocos
blocos blocos blocos

ou então:

PLANO PILOTIS
duas asas partidas
dias pistas falsas
dois traços invisíveis

minhas plataforma política
é a plataforma
da rodoviária


Ambivalente como este país, Brasília encarna eficazmente o papel de símbolo da cultura nacional. Mais do que o Rio, mais do que Salvador, mais do que São Paulo, com Brasília, o elogio fácil cessa completamente e o país tem que se deparar com sua dupla face. Bela cidade, planejada, pensada, esquadrinhada para solucionar problemas, é imã de crimes e conchavos também planejados, pensados e esquadrinhados nas suas salas e gabinetes fechados, tendo do lado de fora dos seus prédios, das suas ruas, das suas largas avenidas e superquadras residenciais o vasto e contraditório país de onde vêem seus políticos. E Brasília sempre precisou de um escritor que lhe cantasse com a ambivalência que merece. Apesar de muito do que já se disse e cantou, do que já se filmou, do que já se xingou, a cidade encontra em Nicolas Behr algo desse espírito, que não lhe reverencia nem lhe rebaixa com estereótipos que retornariam e se colariam nele enquanto brasileiro.

Antologias podem estigmatizar escritores como apenas filiados a certos grupos, temas e/ou procedimentos literários, ou, então, podem mostrar as suas diversas facetas, revelando-o múltiplo, como sói acontecer com todo criador que se preze. Pois bem, Laranja seleta cumpre muito bem essa função. Há grupos de poemas de amor que, se por um lado, também possuem o tom fortemente irônico da sua poesia, por outro lado, é capaz de um poema de lirismo preciso, como o “Poema da boca”: “o rascunho do desejo / rabisca a boca inacabada // a língua, trêmula, sonha / com outra língua, impossível // e essa tua boca tão próxima / disponível // (...)”. Há também grupos de poema dedicados à infância, à meninice e à memória, como o quase hai-kai “Poema do sapo”: “a criança olha o sapo / a criança chega perto do sapo // o sapo fica parado / o sapo não pula // o sapo é de plástico”. Há também a série de poemas ecológicos, muitos observando e cantando as tortas árvores do cerrado do Planalto Central: “dentro de mim / vive uma árvore // árvore interior / que me põe de pé // árvore quase-corpo / quase-tronco / quase casca // quase-nada”. Todos esses tópicos da antologia são temas típicos de Nicolas Behr. Entretanto Behr é, sobretudo, um poeta libertário, o que talvez cause horror a certos leitores de poesia, demasiadamente assépticos, daqueles que gostam apenas de “certo tipo” de poesia. E esse libertarismo pode vir sob a forma de ironia, em um poema como “Nós que somos livres”, ou sob a forma de perplexidade, em um poema como “O horror, o horror”, em que escreve, definitivo:

como, depois de ler nos jornais a notícia
da morte do menino que foi torturado
com óleo quente para revelar o paradeiro
do pai, escrever um poema?

como se olhar no espelho?
como dividir com vocês todos
esse ar que respiramos?
como ficar indiferente e passar à próxima página?
como sair na rua e desejar bom-dia
aos que passam?

como continuar vivendo?


Longa vida, portanto, à poesia de Nicolas Behr. Apesar da demora dessa antologia, sua poesia marcou época e tem que ser melhor conhecida por todos os que se alimentam dos sonhos de liberdade que o Brasil ainda pode proporcionar.




Sandro Ornellas é poeta. Autor de "Simulações" (Salvador, Fundação Casa de Jorge Amado, 1998) e "Trabalhos do corpo" (Rio de Janeiro, Letra Capital, 2007). Escreve no http://simuladordevoo.blogspot.com

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