Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

9 de fevereiro de 2010

livro de poemas do carpinejar. “caixa de sapatos”.

"A noite urinava
nas paredes
do quarto.
_____
Desfiei um maço
de jasmim
na jarra
e esvaziei o hálito.
____
A vida amou a morte
mais do que havia para morrer.
____
Na beira da cama,
o sândalo dos pés
convidava-me
a renunciar às sandálias
e debulhar a palha noturna.
__
Apaguei os pensamentos
na espuma da pele.
____
Abandonar o paraíso,
a única forma
de não esquecê-lo"
_ _ _ _ _
“Só na velhice conheci o briode viver com vagar.
O rosto não tem mais residência, move-se a cada
sorvo das sombras.
_
Há mais terra debaixo da pele que a terra onde piso.
Atravessei o século e ainda não me percorri.
_
Qual a senha que transporto?
Serei contrabando de Deus, que vai quieto dentro,
receoso de se pronunciar?
-
Condiciono os amores a uma expectativa.
Mas é justamente ela que me impede de ser real.
__
Tornei-me o diário de uma viagem cancelada.
__Escapa o ponto da veia. Não disponho de mapaque me centralize,
guia que indique meu paradeiro.
Minha atualidade é ter fome,não evoluímos perante o alimento.
__Nivelamos a cura ao veneno,o tempo discrimina sua natureza.
O que chega atrasado ou adiantado, envenena.O que é pontual, cura.
__Nossas fachadas carecem de uma segunda mão.Os moradores ancestrais e os novosestão sobrepostos, misturados, na cor das paredes.
__Descender valerá o sacrifício se nos inventarmos.
__A feição cumpre um dever ou é minha maneirade concordar com a imperfeição?Será que a ambição não me permite ser o que sou?Ou realmente, distraído com o que levo,não leio os sinais, os mínimos indíciosde uma vida maior que a lealdade aos costumes?
__Não sei absorver a mensagem da troca de guardaentre a coruja e o melro. Muito menos traduziro que sente o cão quando percebe que a ave laceradanão tinha ossos a compensar o esforço.
__Será a fidelidade uma forma de trair?O amor afiança a fortuna no hálito,desterrado é pelo hábito.
__Como retomar o instante que consenti, não maisparticipando do mundopara que as coisas corressem a esmo?
__Ao conversar com minha filha, às vezes me dóia responsabilidade de conduzir sua inocência.Se ela soubesse o desaviso da encruzilhada,que aceitei uma trilha ao léu, entrei numa rua,no casamento, pela ideia de seguir o fluxo.
__Não me empurrem mais, não vou por onde não sei.Deixa-me pensar o corpo, deixa o corpo me pensar”.
_ _ _ _ _
“Atendi o pedido dos paisde não conversar com estranhose deixei de me escutar”.
_ _ _ _ _
“A morte me perturba,terei o sofrimentode não corrigi-laantes de ser publicada.
__Apagado em laje fria,quem trocará a minha roupa de cama?
__Acordarei impessoal,desprovido do alarme das pálpebras?
Até quando serei o que compreendo?”.
_ _ _ _ _
“Eu altereia ordem do teu ódio.
Fiz fretes de obras
_na estante.Mudava os títulosde endereço_em tua bibliotecae rastreava, ensandecido,aquele morto encadernado
_que ressuscitouquando havias enterradoa leitura,
_aquele coração insistente,deixando atrás uma covaaberta na coleção.
_Sou também um livroque levantoudos teus olhos deitados.
_Em tudo o que riscavas,queria um testamento.Assim recolhia os insetos
_de tua matança,o alfabeto abatidonas margens.
_Folheava os textos,contornando as pedrasde tuas anotações.
_Retraído,como um arquipélagonas fronteiras azuis.
_Desnorteado,como um cãoentre a velocidade
_e os carros.Descia o barranco úmidode tua letra,
_premeditandoos tropeços.Sublinhavas de caneta,
_visceral,impaciente com o orvalho,a fúria em devorar as idéias,
_cortar as linhas em estacas da cruz,marcá-las com a estada.Tua pontuação delgada,
_um oceanona fruta branca.Pretendias impressionar
_o futuro com a precocidade.A mãe remavaem tua devastação,
_percorria os parágrafos a lápis.O grafite dela, fino,uma agulha cerzindo
_a moldura marfim.Calma e cordata,sentava no meio-fio da tinta,
_descansando a fogueiradas folhas e grilos.Cheguei tarde
_para a ceia.Preparava o jantarcom as sobras do almoço.
__Lia o que lias,lia o que a mãe lia.Era o último a sair da luz”.
_ _ _ _ _
“O que o fogo já leu de cartas. É o derradeiro confidente.Recolhe os rascunhos, o que escondemos no fojo.Desfia os amantes, os desafetos, os crimes.
_A sina do fogo é soprar cinzas. Nossa sina é sobrar nas cinzas.Sou capaz de aniquilar um amorpara ver o que repousa em seu fundo.
_O mundo é alheio, nos portamos como visitas.Cresce a vergonha de minhas dúvidas.
__Experimento a agressividade nos pequenos gestos,espanco o cigarro até apagar. Meu bem-estaré estar de bem com toda a gentee isso é impossível.Nem em minha família fui unânime”.

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