Filha de Persephone

Minha foto
Brasília, DF, Brazil
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

1 de fevereiro de 2010

mais sobre OS DIÁRIOS DE SUSAN SONTAG

Exatos quatro anos depois de sua morte, em 28 de dezembro de 2004, Susan Sontag tem publicado o primeiro volume de seus “escritos íntimos”. Perto do fim, ainda recusando-se a acreditar que, mesmo diante de todas as evidências, um terceiro e devastador câncer fosse vencê-la, ela disse ao filho, o escritor David Rieff: “Você sabe onde estão os diários”. O comentário lacônico foi interpretado por ele como a mais explícita manifestação possível de que poderia um dia publicá-los, pois sua mãe, apesar de intelectual combativa e, eventualmente, até mesmo falastrona, sempre tivesse mantido reservas sobre sua vida pessoal.
“Reborn” (“Renascida”), assim batizado a partir de uma anotação de Sontag, reúne escritos entre 1947 e 1963, ou seja, vai dos 14 aos 30 anos da ensaísta – e planejam-se mais dois volumes, ainda que nos últimos anos os diários tenham rareado. Foi editado por Rieff, que o fez não com os pudores que se poderia esperar de um filho (“a partir do momento em que decidi publicar os diários dela, não cogitei excluir nada”), mas como um interlocutor que manteve uma relação pouco convencional e muito conflituosa com a mãe, como ele mesmo deixou claro no doloroso depoimento, “Swimming in a sea of death”(“Nadando em um mar de morte”), um livro confuso e não muito bom lançado este ano que parece ser o que realmente é, ou seja, uma catarse daquelas.Nesta primeira fase da vida de Susan, que aos 16 anos deixa para trás a vida infeliz com mãe e padrasto para iniciar redescobrir o mundo em Berkeley, suas preocupações centrais são intelectuais e sexuais, não exatamente nesta ordem: na medida em que lê vorazmente, comenta e discute tudo que lhe cai na mão, lhe passa pelos olhos e ouvidos, tenta conciliar esta inquietação, digamos, “do espírito”, com os clamores do corpo, que lhe dá sinais intensos e confusos, pelo menos num primeiro momento.

“Eu pretendo fazer de tudo... desenvolver alguma forma de avaliar a experiência (...) Eu tenho que me envolver por inteiro... tudo importa! A única coisa a que renuncio é ao poder de renunciar, de recuar – a aceitação da uniformidade e do intelecto. Eu estou viva, eu sou bonita... de que mais preciso?”,

escreve ela em 1949, enquanto devorava livros e era iniciada sexualmente por Harriet Sohmers, identificada como “H.”, com quem manteve uma longa e conflituada relação. A jornalista H. e I. (a dramaturga Maria Irene Fornés) foram as mais constantes parceiras nestes anos decisivos e muito tateantes, já que ela termina por casar-se com Philip Rieff, um professor bem mais velho, sério e certinho que viria ser pai de David.Esta declaração de voracidade diante da vida é, para mim, um perfeito resumo do que seria a Susan Sontag adulta e consagrada. Seu apetite pela experiência, intelectual, sexual ou existencial é, além de raro, a marca que definiu sua aceitação e rejeição. Já nos diários, ela questiona duramente a conseqüência de uma vida acadêmica, que regra o pensamento por liturgias de linguagem e cargos. Sempre mais ligada ao modelo de intelectual europeu o que americano, a ela interessava mesmo ser a franco-atiradora intelectual que transformou-a numa celebridade midiática e, também, num alvo fácil para críticos. Afinal, para ela, interessava tudo o que tivesse a ver com arte e com pensamento.Nestes diários de juventude e amadurecimento já está, por inteiro, a escritora que escreveria ficção e dirigiria cinema; a diretora de teatro que foi encenar esperando Godot” em Sarajevo durante a guerra; intelectual desassombrada que, com o World Trade Center literalmente fumegando, publicou na “New Yorker”um artigo histórico, recusando a infantilização dos americanos diante da tragédia; a leitora apaixonada que ajudou a divulgar os escritores que descobria longe do auto-centramento da cultura americano: em 20 de dezembro de 1960, por exemplo, ela anota: “lendo “Memórias póstumas de Brás Cubas” (do romancista brasileiro Machado de Assis)” – que trinta anos mais tarde seria prefaciado por ela com o texto “Afterlives:Machado de Assis”. Enfim, ali está o retrato de quem, em 1958, escreveu:
Minha ambição - ou meu consolo – tem sido entender a vida”.

Com o figurino do artista romântico devidamente adaptado para o século das transformações radicais e das rupturas, Susan Sontag queria apagar limites entre vida e obra, pensamento e ação. Quando, finalmente se sente “renascida” para experimentar o mundo e a sexualidade, escreve:
“não chame sexo de sexo. Chame de investigação (não uma experiência, não uma demonstração de amor) no corpo de outra pessoa. Cada vez aprende-se uma nova coisa. Eu tenho que fazer o sexo cognitivo e a cognição sensual”.

Na década de 1970, a jovem inquieta que pensava na sensualidade do conhecimento, no prazer do intelecto, não por um acaso ficaria amiga de um de seus heróis intelectuais, Roland Barthes, que depois de libertar-se do cerimonialismo da vida intelectual francesa (mas jamais de sua relação conflituosa com a homossexualidade), defendia este saber com sabor, o conhecimento como um sensualismo. E foi ele, Barthes, que num texto publicado em 1979, um ano antes de morrer, falava sobre os equívocos e as fantasias que se costuma ter em torno de diários e escritos “íntimos”:
“a sinceridade não passa de um imaginário de segundo grau. Não, a justificação de um Diário íntimo (como obra) só poderia ser literária, no sentido absoluto, ainda que nostálgico da palavra”.

Em 1957, era assim que Susan via seus cadernos: “É superficial ver o diário como apenas um receptáculo para os pensamentos privados e secretos de alguém – como um confidente que é surdo, cego e analfabeto. No diário eu não apenas me expresso mais abertamente do que faria com qualquer pessoas; eu me invento. O Diário é um veículo para o meu senso de identidade. Ele me representa como emocional e espiritualmente independente. Alem do mais ele não apenas registra minha vida real e cotidiana; mais do que isso, em muitos casos oferece uma alternativa a ela”.Os diários reunidos em “Reborn” são, na verdade, um work in progress de como Susan Sontag virou Susan Sontag. É ocioso folheá-los em busca de “revelações” ou de formulações intelectuais “inéditas”. Mais do que o esboço de uma obra, trata-se do esboço de uma pessoa, pois para ela, como para Barthes, escrever é antes de mais nada “escrever-se”, tornar-se efetivamente quem se é.

Postado por: Paulo Roberto Pires 28/12/2008 - 13:57

Nenhum comentário:

quem visita Persephone

______________________________________________________________________________________

______________________________________________________________________________________

______________________________________________________________________________________

Link-me !

Link- Me

Link- Me

Persephone faz TRADUÇÕES !

Persephone faz TRADUÇÕES !
camposdejaque@gmail.com

Siga PERSEPHONE ! Follow ME !