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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

25 de fevereiro de 2010

A primeira dama da Literatura, de Caio Fernando Abreu. Zero Hora, 6/1/96.

Depois de seis anos sem publicar, Lygia Fagundes Telles lança a coletânea de contos “A Noite Escura e Mais Eu”

“Ela ficou mas a gota de sangue que pingou na minha luva, a gota de sangue veio comigo” - assim começa a coletânea de nove contos inéditos A Noite Escura e Mais Eu, de Lygia Fagundes Telles, na primeira frase de Dolly. E termina, na última frase de Anão de Jardim, história que encerra o livro: “Seja feita a Vossa vontade e (...) então aceito também ser a estrela menor da grande cauda levantada no infinito no infinito deste céu de outu/bro”. Como dentro de um parêntese, todo o universo de Lygia concentra-se entre essas duas frases, o sangue inevitável das dores da condição humana e a talvez redentora aceitação não só do Divino, mas também da insignificância e humildade que essa condição impõe. A repetição da palavra “infinito” acentua a idéia de eterno retorno, e a referência ao “céu de outubro” remete à primavera e ao renascimento de tudo. Ou seja: o sangue pode ser transmutado, alquimicamente, em luz. Ou pelo menos em ótima literatura.

Sem publicar há seis anos, desde o excelente romance As Horas Nuas - uma espécie de turning point na obra da autora, como A Hora da Estrela na obra de Clarice Lispector - A Noite Escura e Mais Eu (belo título, de um poema de Cecília Meireles usado na epígrafe), entre todos os livros de contos de Lygia, talvez seja a sua obra-prima. Pela unidade, pela densidade, pela extraordinária dignidade que confere à língua portuguesa, mesmo quando trata de temas ou situações sórdidas, perversas, violentas. Ler Lygia Fagundes Telles, para quem é dado a esses requintes, traz o prazer da descoberta da beleza, sonoridade e expressividade da nossa língua. Não que seja uma estilista afetada, retórica e vazia, como às vezes costuma ser a “literatura feminina” (vide as Patrícia Bins da vida...), e isso por uma razão muito simples: Lygia é basicamente uma contadora de histórias, no melhor e mais vasto significado da expressão. Histórias encantatórias, como as de As Mil e Uma Noites, ou as das babás e tias de antigamente.

Acontece que estas histórias, como observou José Paulo Paes recentemente em O Estado de São Paulo, não se esgotam no enredo. Terminadas de ler pela primeira vez, deixam a vontade de reler uma segunda ou terceira, por suas inúmeras camadas de significados e pela carga de mistério sempre deixada no ar. Às vezes, todo um conflito revela-se numa frase aparentemente perdida no meio do texto, num detalhe. Assim é, por exemplo, em Dolly (que espécie de relação houve entre a narradora e a ousada Dolly do título?); na perfeição de Você não Acha que Esfriou? (por que tanta crueldade no comportamento de Kori com o amante?) ou na
ousadia do tema lésbico de Uma Branca Sombra Pálida (foi a mãe narradora da história ou a suposta amante Gina a propulsora do suicídio de Oriana?). Reler nem sempre é esclarecer, e esclarecer nem sempre é necessário. Afinal, um equívoco pode durar uma vida inteira - como no extraordinário Papoulas sobre Feltro Negro, em que admiração e respeito à sensibilidade do outro são confundidos com ódio e desprezo. Mas seria isso mesmo? No final, a velha professora Elzira evita de todas as maneiras o olhar da ex-aluna. A verdade é ambígua e escapa o tempo todo, parece dizer Lygia nas entrelinhas de tudo que escreve, centrado nesse conflito para sempre ir resolvido entre mucos, ódios, nojos da matéria orgânica desprezível e a possibilidade do espírito. Maior riqueza seria impossível num escritor, suspenso sobre o abismo do fio esticado das palavras, também elas ambíguas.

Com A Noite Escura e Mais Eu, Lygia Fagundes Telles encerra um ano farto para a literatura brasileira, ao lado do belíssimo Quase Memória, de Carlos Heitor Cony; de O Buraco na Parede, de Rubem Fonseca; de revelações surpreendentes, como Alberto Guzik no corajoso Risco de Vida ou a confirmação de talentos como Patricia Mello (O Matador) e Bernardo Carvalho (Onze). E continua a ser, como a elegeu há anos Hélio Pólvora, a imbatível Primeira Dama da Literatura Brasileira, embora ela mesma não se importe com tais epítetos. Importa-se, sim, com o texto e a capacidade deste ajudar a desvendar mais camadas do enigma atávico da condição humana.

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