Filha de Persephone

Minha foto
Brasília, DF, Brazil
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

27 de fevereiro de 2010

textos selecionados por Lygia Fagundes Telles - Contos

TRECHO DE
Rua Sabará, 400


Fui buscar um cinzeiro e sentei-me ao seu lado.

- Que coisa extraordinária, Paulo, eu estava pensando justamente no Bentinho. Como adivinhou?

- Ah, pela sua expressão, ele disse e sorriu com malícia. Há pouco você me olhou com aquela mesma cara interrogativa do Bentinho, acho que vou começar a te chamar de Kuko-Bentinho.

Achei uma certa graça (não muita) no novo apelido acoplado ao primeiro e até aí nenhuma novidade, eu estava mesmo do lado do Bentinho, ele teria se encarnado em mim?

Este conto está no livro Invenção e Memória (2000)

TRECHO DE
Dolly


No mármore do criado-mudo, um charuto que foi queimando sozinho até virar essa casca de cinza guardando a forma antiga. Minhas pernas ainda tremiam e meus olhos estavam inundados, mas a tontura tinha passado. Chego a estender a mão para tocá-la na despedida e nem completo o gesto, Bye, Dolly. Volto para a saleta e vejo a vitrola aberta, a agulha estatelada no meio do disco. Tropeço num cinzeiro e encontro a Maria Antonieta descabeçada debaixo da mesa. Quando a levantei, vi o sangue na minha luva.

Este conto está no livro A noite escura e mais eu (1995)

TRECHO DE
Você não acha que esfriou?


Pronto, querida, a Maria Callas, disse e beijou-a de leve no pescoço, na orelha, mas evitando a boca. Ela chegou a ter um leve desfalecimento, mas o que eu estou fazendo aqui?! Tarde demais para sair correndo, Um imprevisto! Sentiu-se no palco quando começaram as carícias no sofá e sem o menor fervor, mas podia haver fervor? As almofadas que ele teve o cuidado de ajeitar para deixá-la mais confortável, a penumbra atenuando o constrangimento. Que papel miserável, miserável, miserável. E pediu mais uísque. Com a consciência do sorriso alvar que esboçou, ainda quis ajudá-lo, ele tentava agora desabotoar-lhe o sutiã mas se atrapalhou no colchete e na impaciência, a quase irritação, que difícil, Kori! Propositadamente ela reteve as alças nas pontas dos dedos, retardava o instante de mostrar os seios que lembravam dois ovos fritos. Frios.

Este conto está no livro A noite escura e mais eu (1995)


TRECHO DE
Noturno amarelo


Quando me lembro dessa noite (e estou sempre lembrando) me vejo repartida em dois momentos: antes e depois. Antes, as pequenas palavras, os pequenos gestos, os pequenos amores culminando nesse Fernando, aventura medíocre de gozo breve e convivência comprida. Se ao menos ele não fizesse aquela voz para perguntar se por acaso alguém tinha levado a sua caneta. Se por acaso alguém tinha pensado em comprar um novo fio dental, por que este estava no fim. Não está, respondi, é que ele se enredou lá dentro, se a gente tirar esta plaqueta (tentei levantar a plaqueta) a gente vê que o rolo está inteiro mas enredado e quando o fio se enreda desse jeito, nunca mais!, melhor jogar fora e começar outro rolo. Não joguei. Anos e anos tentando desenredar o fio impossível, medo da solidão? Medo de me encontrar quando tão ardentemente me buscava?

Este conto está no livro Seminário dos ratos (1977)

TRECHO DE
As formigas


- E os ossos?

Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.

- Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada! Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta, senti que no quarto tinha algo mais, está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco eles estão... Estão se organizando.

Este conto está no livro Seminário dos ratos (1977)


TRECHO DE
As pérolas


A ociosidade, a miserável ociosidade daqueles interrogatórios. ‘Você está bem?’ O sorriso postiço. ‘Estou bem’. A insistência era necessária. ‘Bem mesmo?’ Oh Deus. ‘Bem mesmo.’ A pergunta exasperante: ‘Você quer alguma coisa?’ A resposta invariável: ‘Não quero nada.’

‘Não quero nada, isto é, quero viver. Apenas viver, minha querida, viver...’ Com um movimento brando, ele ajeitou a cabeça no espaldar da poltrona. Parecia simples, não? Apenas viver.

Este conto está no livro Antes do baile verde (1970)


TRECHO DE
A confissão de Leontina


Já contei esta história tantas vezes e ninguém quis me acreditar. Vou agora contar tudo especialmente pra senhora que se não pode ajudar pelo menos não fica me atormentando como fazem os outros. É que eu não sou mesmo essa uma que toda gente diz. O jornal me chama de assassina ladrona e tem um que até deu o meu retrato dizendo que eu era a Messalina da boca-do-lixo.
Perguntei pro seu Armando o que era Messalina e ele respondeu que essa foi uma mulher muito à-toa. E meus olhos que já não têm lágrimas de tanto que tenho chorado ainda choraram mais.

Este conto está no livro A estrutura da bolha de sabão (1978)

Nenhum comentário:

quem visita Persephone

______________________________________________________________________________________

______________________________________________________________________________________

______________________________________________________________________________________

Link-me !

Link- Me

Link- Me

Persephone faz TRADUÇÕES !

Persephone faz TRADUÇÕES !
camposdejaque@gmail.com

Siga PERSEPHONE ! Follow ME !