Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

28 de fevereiro de 2010

Trechos escolhidos por Lygia Fagundes Telles - Romance

TRECHO DE
As horas nuas


Agora ela dorme esparramada no chão, a boca entreaberta puxando um ronco de bebedeira. A camisola com a alça rasgada. Embolado aos pés da cama está o robe de chambre azul-claro adamascado, o espelho e uma escova de cabelo. Deve ter rolado para o chão atapetado e assim como caiu assim ficou. Implicava tanto com o meu ron-ron, Mas o Rahul é tão asmático, pobrezinho! O peito dele parece um vulcão que vai explodir. E não sabia que esse ron-ron era o motorzinho da alegria no tempo da alegria. Levezas de um gatinho sem lembranças que gostava de brincar com o raio de sol no tapete. Ou com o pingente da cortina até se cansar e dormir.

Subo na poltrona. O quarto está escuro mas vejo Rosa Ambrósio como se as venezianas estivessem abertas, são persianas. Essas tiras metálicas que se enrolam e desenrolam diferentes das venezianas verdes da minha vida de menino lá no casarão das três mulheres.

Minha irmã estrábica costumava abri-las com um movimento tão vigoroso que eu tinha a impressão de que ela se preparava para levantar vôo subitamente rejuvenescida: segurava nas duas argolas, ficava na ponta dos pés e dando um impulso para a frente, abria os braços e as folhas de par em par. Debruçava-se em seguida no parapeito da janela e prendia as venezianas com os bonequinhos verdes de ferro esmaltado que ficavam do lado de fora, um de cada lado feito sentinelas. Quando anoitecia, baixava os bonequinhos e puxava para dentro as venezianas que se fechavam como asas.

Tenho um nome de gente na minha condição de gato. Mas antes, quando eu era gente? Aquele é o menino da casa das venezianas verdes, alguém me apontou. Vou andando e olhando o carpete branco-azulado, será que ela vomitou? Há cinza de cigarro, peças de roupa, um copo tombado, manchado de vinho mas nenhum sinal de vômito. E o cheiro pairando no ar. Espantoso o laboratório que não descansa, o vinho perfumado acaba de descer e já começa a fermentação, tudo se transforma rapidamente na química humana. Para pior.

Ando na cama revolvida. Do alto dos travesseiros posso ver melhor o seu perfil. Que resiste como nas medalhas. Mas sem os banhos de sol, sem as massagens e duchas a pele se ressentiu, parece mais flácida. Baça. Cresce seu horror pela claridade, pela rua. Tanta violência lá fora!, respondeu à filha. E depois, sair com quem? Os amigos foram se afastando à medida que sua estrela começou a ficar cinzenta. Restou a Lili que chega de repente toda enfeitada e quer arrastá-la a um restaurante. A um cinema. Ao teatro, nem pensar, já avisou aos que ainda fazem convites, Nunca mais piso num teatro.
- Mãezinha querida, você disse que ia almoçar comigo e não foi, queixou-se Cordélia.
- Hoje não acordei brilhante. A Diú leu o horóscopo, tem aí uma conjuntura de astros que é um horror.

Cordélia foi apanhar o cinzeiro. Transita descalça pelos dois apartamentos com sua leve bata oriental e com a graça de quem acabou de sair do banho, é mais bonita de cara lavada. usa uns vestidinhos soltos, no estilo de uma túnica romana. Quando aparece assim - as coincidências! - lá das lonjuras me vem a imagem de uma jovem de túnica me olhando na alcova, minha mulher? Esqueça. Mãe e filha juntas. O diálogo breve. As visitas breves.

- Vinte e oito anos, Cordélia?
- Trinta, mãezinha, trinta.
- Aparenta dezoito, querida. Diminuo sempre a minha idade e a dos outros, essa mania de idade, hem?! Tirante o médico, alguém ousou algum dia perguntar à mamãe, Quantos anos, minha senhora? A gente agora dá um espirro e já vem a caneta, o microfone, o gravador. Sua idade? Enfim, os jogos já estão feitos, não importa mais.

Do livro As horas nuas (1989)

TRECHO DE
As meninas


- Desde ontem ela não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.
- Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e et cetera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade. Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinho pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo. Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.

Vou até a garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha se debate contra a vidraça e de repente seu zunido fica mais importante do que nossa fala. Mas de onde veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não ficava atrás.

- Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo. Me pergunto se você está em segurança.
- Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres romperam o vidro como aquele de que lhe falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito altar.

Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.

- Mas não estou na redoma, Lia. É neste ponto que você se engana como se enganou também quando disse que eu queria lhe apontar a porta. Deus sabe que meu desejo maior é protegê-la e guardá-las para sempre, como se isso fosse possível. Se não interfiro, se não me aproximo é porque não quero que pensem em vigilância, fiscalização. Vocês bateriam as asas mais depressa ainda.

Pronto, magoou-se. Essa minha mania de discurso, baiano com subversão pode dar noutra coisa?

- Não sei explicar, Madre Alix, mas o que queria dizer é que embora resguardada a senhora luta a seu modo, respeito sua luta. Respeito até a luta dos que querem nos destruir, respeito sim senhora, eles estão na deles. Como estamos na nossa, enfraquecidos, traídos, divididos, não calcula como estamos divididos. Mas vamos agüentando. Um que fique tem que correr como um cão danado pra passar o facho ao seguinte que recebe e sai correndo até o próximo que nem estava na corrida, entende. De mão em mão. É demorado mas não estamos mais com tanta pressa.

- Facho, Lia? Você fala em facho, mas o que vejo é um levar ao outro violência, morte. Um rastro de sangue é o que vocês vão deixando por onde passam. Temos um Condutor Supremo e do Seu esquema transcendente a violência foi riscada. A espiritualidade...

Olha aí, vitória da espiritualidade. Arranco uma lasca da unha que vem com um fiapo de pele. O sangue brota. Chupo o dedo. Uma bala dum-dum no peito doeria menos.

Do livro As meninas (1973)

TRECHO DE
Verão no Aquário


- Por que dormi aqui? perguntou Marfa.
Abri os olhos. O passado desapareceu com a rapidez dos vermezinhos que espiavam e se recolhiam nos furos dos livros do sótão. Encolhi as pernas e apoiei o queixo nos joelhos. “Raíza, Raíza!” ele chamara. E embora sua face fosse uma rosa, senti o hálito de hortelã.

- Você bebeu demais, não podia voltar daquele jeito para o pensionato.

Ela sorriu. Espreguiçou-se.

- Não podia por quê? As freirinhas me adoram, compreende? É aquela velha história, atração do abismo... Tem uma que é masoquista, quando chego ela vem depressa ao meu quarto e fica me devorando com os olhos, sentindo em mim cheiro de homem. E me faz cada pergunta... Um dia quase desmaiou quando viu uma mancha roxa no meu pescoço.

- Não sei como você ainda não foi expulsa.
- Nunca, meu bem. Sou para elas uma espécie de penitência, compreende? As outras pensionistas são sonsas, quando passam a noite fora, entram de madrugada com chave falsa e chegam ainda em tempo de assistir à primeira missa. Eu não faço mistério. Pois é esta ovelha a mais amada. A vida inteira lidei com freiras, tenho um jeito todo especial para levá-las direitinho... Quando a Madre Luzia perde a paciência, caio em tamanha depressão que ela chega a recear que eu enlouqueça como meu pai. E me perdoa. É da maior conveniência ter, às vezes, um pai louco.
- Sonhei com meu pai.

Ela virou-se de bruços na cama. A cabeleira negra espalhou-se no travesseiro.

- Pois eu não tenho morto nenhum para sonhar. Nem me lembro das feições da minha mãe, sei que tinha cabelos também pretos e que era meio estrábica, como eu, só isso que sei. E se amanhã meu pai morrer, pensarei nele apenas como num homem que me dava medo quando eu era criança mas que agora não me provoca mais nada. Nada. Que me importam os mortos? Eu também vou morrer, compreende? E quero saber agora se alguém vai se lembrar de me pôr no sonho.

Acendi um cigarro. Minha mãe me velaria com uma expressão magoada. Mas distante. Não, não precisaria nem de chazinhos nem de amigas, as amigas que por sinal nunca teve. André chegaria em silêncio e ficaria ao lado dela, vigilante. Então ela descansaria no regaço as belas mãos serenas e ficaria me olhando. Apenas olhando. Meu perfil - vago como um fio de linha desenrolado no ar - meu perfil não conseguiria comovê-la. Nem minhas mãos falsamente compungidas. Nem meu corpo apaziguado. Ela me olharia como olhou para meu pai morto. E de tudo o que fui e de tudo que fiz conservaria apenas a lembrança do reflexo da chama da vela em meus cabelos. De tudo, ficaria apenas aquele efeito de luz no meu cabelo. E que um dia ela poderia aproveitar numa das suas personagens que morreu jovem.

- Ele veio me acordar, mas não falamos. Como os mortos são solitários! Meu Deus, como são solitários!

Marfa levantou-se e deu alguns passos arrastados em direção à porta. Vestia apenas o paletó do meu pijama. As pernas muito brancas vacilaram. Fez então meia-volta e desabou novamente na cama.

- Tenho nojo dos mortos, compreende? Por mais que se ame um morto, é preciso prender a respiração para beijá-lo.

Do livro Verão no aquário (1963)

TRECHO DE
Ciranda de pedra


Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.

- Abre, menina - ordenou Luciana do lado de fora.

Virgínia encostou-se à parede e pôs-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. “Se entrar aí nessa fresta, você morre!” - sussurrou soprando-a para o chão. “Eu te salvo, bobinha, não tenha medo”, disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. E esmagou a formiga.

- Virgínia, eu não estou brincando, menina. Abre logo, anda!
- Agora não posso.
- Não pode por quê?
- Estou fazendo uma coisa... - respondeu evasivamente. Pensava em Conrado a lhe explicar que os bichos são como gente, têm alma de gente e que matar um bichinho era o mesmo que matar uma pessoa: “Se você for má e começar a matar só por gosto, na outra vida você será bicho também, mas um desses bichos horríveis, cobra, rato, aranha...” Deitou-se no assoalho e começou a se espojar angustiosamente, avançando de rastros até o meio do quarto.
- Ou você abre ou conto para o seu tio. É isto que você quer, é isto?

Virgínia imobilizou-se. Ser cobra machucava os cotovelos, melhor ser borboleta. Mas quem ia ser borboleta decerto era Otávia, que era linda. “E eu sou feia, e ruim, ruim, ruim!” - exclamou dando murros no chão. Ergueu a cabeça num desafio:

- Pode contar tudo, tio Daniel não me manda, quem manda em mim é meu pai, ouviu? Meu pai.

Luciana não respondeu e Virgínia levantou-se tomada de um súbito pavor. Falara alto demais. Teria a mãe ouvido? Pôs-se a enrolar no dedo uma ponta da franja. “Não, não ouviu e se ouviu não entendeu.” Abriu a porta e, assim que a empregada entrou, sondou-lhe a fisionomia. Tranqüilizou-se. “Só se zanga mesmo quando eu falo naquilo.” Riu baixinho.

- Onde está a outra? - perguntou Luciana erguendo do chão uma presilha.
- Perdi.
- Então você vai de fita.
- Não, de fita, não! Meu cabelo é liso demais, fica tão feio...
- Então vai sem nada - disse Luciana com indiferença. Dirigiu-se à cômoda, que tinha um tom rosa encardido, e puxou a gaveta. Estava emperrada. Puxou-a com mais força.
- Dá um pontapé que ela abre logo.
- É um bom sistema esse. Assim, quando se arrebentar tudo, você guarda sua roupa no chão. - Tirou da gaveta um par de meias brancas. - Quando estes móveis vieram de lá, ainda eram novos.
- Mentira - disse Virgínia em voz baixa. Falava com cuidado para que a mãe não ouvisse lá embaixo. - Bruna já me deu tudo assim mesmo. O pai deu mobília nova pra ela e então ela me deu estes. Tio Daniel disse uma vez que ia me dar uma mobília azul e não me deu nada.
- Ele tem mais em que gastar.
- É, mas ele disse que ia me dar uma mobília e não deu nada. Bruna disse que ele tem obrigação de dar tudo pra minha mãe e pra mim. E Bruna sabe.
- É pouco o que ele dá, não?
- Não quero saber, só sei que ele ia me dar uma mobília azul e não deu nada.

Luciana abriu o armário, tirou de dentro um vestido e afrouxou-lhe o laço da cintura. Seus movimentos não tinham a menor pressa. “Assim de costas parece branca”, concluiu Virgínia fixando o olhar enviesado nos cabelos da moça. Eram lustrosos e ligeiramente ondulados, presos na nuca por uma fivela. Na fivela estava pintada uma borboleta vermelha. Lembrou-se então da formiga e instintivamente olhou para as próprias mãos. As mãos de Conrado eram mãos de príncipe. Jamais aqueles dedos esmagariam qualquer coisa.

- Escute, Luciana, você acha mesmo que se a gente é ruim nesta vida, numa outra vida a gente nasce bicho? Tenho medo de nascer cobra.
- Você já é cobra - disse Luciana com brandura.
- E você é mulata - retorquiu Virgínia no mesmo tom. - E gosta dele, por isso faz tudo para parecer branca.
- Ele quem? Ele quem? - repetiu Luciana. Tinha uma expressão zombeteira e seu tom de voz era suave. Mas havia qualquer coisa de dilacerado sob aquela suavidade.
- Ninguém, eu estava brincando.

Deixou-se vestir passivamente. Adiantara-se muito, adiantara-se demais. “Agora ela sabe que eu sei.” Cravou em Luciana o olhar aflito. A fisionomia da moça continuava impassível. “Ela finge que não se importa mas está com vontade de me esganar.” Quando sentiu no pescoço seus dedos frios abotoando-lhe a gola, teve um arrepio misturado a uma estranha sensação de gozo. Viu-se morta, com a grinalda da sua primeira comunhão. Trazidas por Frau Herta, vestidas de preto, chegavam Bruna e Otávia debulhadas em pranto: “Nós te desprezamos tanto e agora você está morta!” Aos pés do caixão, quase desfalecido de tanto chorar, o pai lamentava-se: “Era a minha filhinha predileta, a caçula, a mais linda das três!...” Muito pálido dentro da roupa escura, Conrado apareceu com um ramo de lírios: ‘Ia me casar com ela quando crescesse.’ Alguém se aproximou de Frau Herta: ‘Mas, e onde está Daniel, por que não veio ao enterro?’ E Frau Herta em voz bem alta, para quem quisesse ouvir: “Ele fugiu com Luciana, fugiram os dois, a estas horas estão se divertindo juntos, rindo e cantando era uma vez duas ninfas que moravam num bosque...”

Grossas lágrimas correram dos olhos de Virgínia. Como ele tivera coragem de fugir deixando-a ali, morta? Tapou a boca para conter os soluços. E cantar a Balada das Duas Ninfas, justamente a balada que a mãe gostava tanto de ouvir!...

Do livro Ciranda de pedra (1954)

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