Filha de Persephone

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Brasília, DF, Brazil
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

30 de março de 2010

ESSE SILÊNCIO TODO ME ATORDOA...¨Cálice¨ - Chico Buarque


Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...


Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)

29 de março de 2010

SILÊNCIO - Arnaldo Antunes


antes de existir Computador existia a tevê
antes de existir tevê existia luz elétrica
antes de existir luz elétrica existia bicicleta
antes de existir bicicleta existia enciclopédia
antes de existir enciclopédia existia alfabeto
antes de existir alfabeto existia a voz
antes de existir a voz existia o silêncio
o silêncio
foi a primeira coisa que existiu
O silêncio que ninguém ouviu
astro pelo céu em movimento
e o som do gelo derretendo
o barulho do cabelo em crescimento
e a música do vento
e a matéria em decomposição
a barriga digerindo o pão
explosão de semente sobre o chão
diamante nascendo do carvão
homem pedra planta bicho flor
luz elétrica tevê computador
batedeira liquidificador
vamos ouvir esse silêncio meu amor
amplificado no amplificador
do estetoscópio do doutor
no lado esquerdo do peito esse tambor

CANOS SILENCIOSOS - Lobão


Onda na madrugada, silêncio na batida
Tá todo mundo se aplicando pra festa,
Pra chegar na festa bem aplicadinho
Movimento na esquina, todo mundo entra, todo mundo sai;
sexo, drops, rock'n roll, adrenalina;
diversões eletrônicas num poderoso hi-fi

Oh! E a noite tá no sangue de hoje
Deixa a noite rolar
Oh! E a noite tá no sangue de hoje
Deixa a noite rolar

Canos silenciosos, nervosa calmaria
Quando todo mundo pensava que ia se divertir pra cá
É bem aí, é bem aí que o pânico todo se inicia
Correria na esquina
Ninguém mais entra, ninguém mais sai
Homens, fardas, cassetetes, camburões
Abusando da lei com suas poderosas credenciais

28 de março de 2010

Ecos do Silêncio - ZEN

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No instante de um pensamento,
Minha mente turbulenta chegou a um descanso.

O interior e o exterior,
Os sentidos e seus objetos,
São completamente lúcidos.

Em uma volta completa,
Esmaguei a grande vacuidade.

As dez mil manifestações
Surgem e desaparecem
Sem qualquer razão.

— Han-shan

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Por que palavras?
Conto Zen


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Um monge aproximou-se de seu mestre — que se encontrava em meditação no pátio do templo à luz da Lua — com uma grande dúvida:

"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"

O velho sábio respondeu: "As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."

O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"

"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."

"Então," o monge perguntou, "por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"

"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."

O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

O SILÊNCIO de Chico Buarque


¨Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa

Ele pode esperar em silêncio

Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos

Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização

Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você ¨



¨ Dois Irmãos, quando vai alta a madrugada
E a teus pés vão-se encostar os instrumentos
Aprendi a respeitar tua plumada
E desconfiar do teu silêncio
Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
É assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos

É assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento ¨


27 de março de 2010

O silêncio dos Inocentes - filme ( Silêncio arrepiante)




O Silêncio dos Inocentes
(Silence of The Lambs, The, 1991)

» Direção: Jonathan Demme
» Roteiro: Thomas Harris (romance), Ted Tally (roteiro)
» Gênero: Policial/Suspense
» Origem: Estados Unidos
» Duração: 118 minutos
» Tipo: Longa-metragem

» Sinopse: Recém formada no FBI, Clarice Starling (Jodie Foster) se envolve no caso do desaparecimento de uma garota, seqüestrada por um psicopata. Para ajudá-la, então, ela procura outro psicopata. Um dos três vencedores das cinco principais categorias do Oscar na história (os outros dois foram Aconteceu Naquela Noite e Um Estranho no Ninho).

Cinco mulheres são brutalmente assassinadas em diferentes localidades dos Estados Unidos. Para chegar até o sanguinário assassino, uma jovem treinada pelo FBI entrevista o Dr. Hannibal Lecter, um brilhante psiquiatra, cuja mente está perigosamente voltada para o crime. Ao seguir as pistas apontadas por Lecter, a jovem se vê envolvida numa teia mortífera e surpreendente. Uma novela policial arrepiante...

26 de março de 2010

O Silêncio dos Amantes - Lygia Fagundes Telles

Estranho, sim. As pessoas ficam desconfiadas, ambíguas diante dos apaixonados. Aproximam-se deles, dizem coisas amáveis, mas guardam certa distância, não invadem o casulo imantado que envolve os amantes e que pode explodir como um terreno minado, muita cautela ao pisar nesse terreno. Com sua disciplina indisciplinada, os amantes são seres diferentes e o ser diferente é excluído porque vira desafio, ameaça.
Se o amor na sua doação absoluta os faz mais frágeis, ao mesmo tempo os protege como uma armadura. Os apaixonados voltaram ao Jardim do Paraíso, provaram da Árvore do Conhecimento e agora sabem

Lygia Fagundes Telles

trecho do O Silêncio dos Amantes - Lya Luft


A pedra da bruxa


Quando meu filho tão querido sumiu, quando se transformou, se matou, se jogou ou caiu da Pedra da Bruxa, se perdeu no mato – ou saiu voando e nunca mais voltou -, entendi que nossa cumplicidade só existia na minha imaginação. Essa foi a sua verdadeira morte: nossa relação tão especial era mentira. A boa vida familiar era falsa. Andávamos sobre uma camada fina de normalidade. Por baixo corriam rios de sombra que eu não queria ver. Ele, meu filho tão extraordinariamente amado, era irremediavelmente sozinho – eu, que me considerava a melhor das mães, de nada adiantei.

Tive a ilusão de que comigo ele se abria, pelo menos me escutava – com aquele olhar distraído. Pensei que nossa ligação fosse excelente, ele sendo um menino difícil. Eu respeitava seu jeito diferente, desculpava suas impaciências, “mãe, não me abraça com tanta força, mãe pára de me tratar feito bebezinho, não me controla!” Tinha certeza de que em qualquer momento crucial de sua vida era a mim que iria recorrer. E não foi assim.

Ele não era um bebê tranqüilo. Não parecia contente no meu colo, só dormia quando eu o deixava sozinho no berço. Era uma criança quase sombria, comparado ao irmão mais velho, um menino forte e alegre. “Criança sombria nem existe”, diziam, “você se preocupa demais, cada bebê já nasce com uma personalidade!” Mas ele preferia contemplar as folhas no vento, os grãos de poeira no raio de sol que entrava pela janela, em lugar de brincar. Na escolinha não fazia amigos, batia nos outros e os mordia, ou era objeto de pancada. O pai não tinha a menor paciência, e se dedicava ao outro. Do mais novo, eu imaginava ser a melhor amiga.

Ele, porém, só queria ir embora. Não queria nada do que tínhamos para lhe dar. Dizia isso mesmo, sem maldade nem amargura. Quando criança queria aprender a voar feito passarinho “para ir bem longe daqui”. Crescendo, sonhava morar na montanha, armar uma tenda na Pedra da Bruxa, seu lugar preferido, e ser livre.

- Livre de quê, bobão? – perguntava bem humorado o irmão mais velho.

Aquele meu primeiro filho, perninhas bem firmadas no mundo, um sorriso aberto, gritava de alegria quando a gente o pegava no colo. Cresceu cheio de amigos e projetos, bom na escola, ativo nos esportes, companheiro do pai. Nunca me deu trabalho. Talvez, preocupada com seu irmão menor, eu o tenha deixado um pouco de lado, mas ele nunca parecia precisar de mim. Ao contrário, preocupava-se comigo:

- Mãe, deixa esse menino viver sua vida, é o jeitão dele! Não fique sempre em cima, não seja tão ansiosa – dizia, como se fosse mais maduro do que eu.

O mais moço, filho das minhas aflições, parecia não ter amigos. Na escola olhava de longe a algazarra dos outros. Não fazia questão alguma de ser como o resto da turma: ele não tinha uma turma. Mesmo bem pequeno, de vez em quando deitava na cama, até embaixo da mesa da sala, e chorava longo tempo, um pranto sem soluços, de cortar o coração.

O pai se aborrecia:

- Levanta daí, deixa de choramingar feito uma velha, vai jogar bola com seu irmão!

Eu pedia que tivesse paciência, era uma fase. Ia passar. Depois, com jeito, me aproximava:

- Filho, mas o que foi? Vem, conta pra sua mãe.

- Nada, mãe, eu só tenho vontade de chorar.

Uma das professoras chamou minha atenção para seus desenhos: enquanto o irmão plantava casas, árvores, bichos e carros em solo firme, os dele pairavam no ar, miúdos e perdidos na página branca. As pessoas, até a si mesmo, desenhava sem rosto.

- Sem rosto? O que significa isso? – perguntou o pai fechando a cara, e me arrependi de ter comentado.

Criança difícil faz terapia, aconselharam, e meu filho fez. Ia às sessões, já um meninão magro e bonito, mas a psicóloga também se queixou:

- Ele fica ali, quieto, me olhando com aquele ar de quem está pensando em outra coisa.

Depois de muita conversa com a psicóloga e comigo, por um breve tempo o pai tentou se aproximar, levar pra casa da montanha, nadar no rio, ou pescar. O menino ia, sorria debilmente, segurava a vara de pescar sem nenhum interesse, não emburrado ou malcriado, apenas, como em geral, ausente. E nunca aprendeu a nadar.

O pai acabou furioso:

- Esse menino é muito esquisito.

- Não diga isso, é nosso filho

- É nosso filho mas é esquisito. Nenhum outro rapaz é assim. Ele parece sempre à margem de tudo. Eu desisto.

Para surpresa nossa, algum tempo depois, o menino, que nunca pedia nada, não participava, na hora do café da manhã disse:

- Pai, domingo me leva no jogo?

- Ué, agora você se interessa por futebol? – o pai duvidava.

- Claro, meus colegas vão com os pais deles, você me leva?

O pai o encarou meio incrédulo, quem sabe participar de atividades mais masculinas dava um jeito naquele filho? Num impulso de seu coração paterno, decidiu não convidar o outro: entendeu que aquele poderia ser um momento só dos dois, o pai e o filho complicado. Comprei camiseta do clube, animei, expliquei, o menino saiu pela mão do pai, entrou no carro e acenou para mim, quase feliz. Na volta, fim de tarde, entraram em casa um pai carrancudo e um menino com rosto inchado de chorar.

- Nos primeiros gritos da torcida, no primeiro gol, começou a chorar feito uma menininha. Ficou assustado, imagine só. Passei vergonha – disse o pai, e foi se fechar no quarto.

Os dois irmãos davam-se bem, mas sem intimidade. Eu raramente os via juntos. Um parecia achar graça do outro. Ele chamava o maior de troglodita, naquele tom de afetuosa implicância que acontece entre irmãos; o mais velho o chamava de queridinho da mamãe, no mesmo tom sem maldade. Quando já era um adolescente alto, magro, um pouco desajeitado, naquela manhã fatal em nossa casa na montanha, ele chegou perto do pai quando este pegava a chave do carro, e, num esforço para vencer a barreira da timidez, pediu:

- Pai, a gente pode conversar um pouco?

O pai, desacostumado, espantou-se. Homem racional e direto, disse algo direto e racional:

- Filho, estou atrasado, preciso estar na cidade em uma hora. Na minha volta a gente fala, está bom? – E partiu sem nenhum remorso porque não imaginava o que estava por vir.

sobre o SILÊNCIO ... Clarice Lispector

"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso."

Clarice Lispector



SILÊNCIO

Clarice Lispector



É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.

É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.

A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.

Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.

Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.

O coração bate ao reconhecê-lo.

Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.

Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.

Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.

Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.

Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.

Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.



Clarice Lispector- "Onde estivestes de noite?"
7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994

22 de março de 2010

Um Tributo ao GLAUCO

BLOG UNIVERSO HQ

http://universohq.blogspot.com/2010/03/um-tributo-ao-glauco.html

(Post atualizado às 16 horas do dia 13 de março de 2010)

A notícia da morte do cartunista Glauco Villas-Boas e de seu filho Raoni derrubou todo mundo que ama quadrinhos neste País.Não dá pra imaginar não termos mais as tiras de Geraldão, Casal Neuras, Geraldinho, Doy Jorge, Zé do Apocalipse, Dona Marta, Nostravamus e tantos outros personagens impagáveis. Mas, pelo que conhecia do Glauco, o melhor jeito de lembrar dele é ler seus quadrinhos.Meu amigo DJ Carvalho, de Campinas, teve a ideia de prestar um tributo ao bom e velho Glauco e coloquei o Blog do Universo HQ à disposição. Assim, entre ontem e hoje, abrimos esse espaço para quem quisesse enviar sua homenagem ao cara que tantas vezes fez sorrir seus leitores.O resultado pode ser visto abaixo: mais de 300 homenagens, entre desenhos e textos. E todas se juntam às outras dezenas que foram publicadas em sites, blogs e jornais Brasil afora. Uma mostra do quanto Glauco era admirado.Nós estamos todos tristes e revoltados pela forma como perdemos o Glauco, mas, certamente, ele vai espocar a silibina no "andar de cima".Fique abaixo com as homenagens.

















19 de março de 2010

PERSONAGENS DE GLAUCO - Dona Marta

Histórico



Ela foi educada à maneira antiga e, tanto esperou seu homem, que acabou ficando para titia. Quando viu que não arrumaria namorado, passou para o ataque. Aliás, Dona Marta canta qualquer um. Pode ser o chefe, o boy do escritório, o entregador de pizza ou o salva-vidas. Mesmo não tendo o corpo em forma, ela se acha a mais gostosa do planeta. Dona Marta foi criada em 1981 junto com o Geraldão para o livro independente "Minorias do Glauco". A personagem é baseada em uma amiga do Glauco que, até hoje, não sabe que virou desenho

Coadjuvantes :

O chefe

Ele não consegue se impor, mesmo sendo seu superior na firma. Dona Marta deixa sempre o chefe em situações delicadas, com suas investidas sexuais

O sub-gerente

Ele é a vítima preferida da Dona Marta. Nenhum sub-gerente passou despercebido dela. Para agarrá-los, ela construiu até uma engenhoca: o pega sub-gerente

Os boys

Eles são a alegria da Dona Marta. A Dona Marta é a alegria dos boys. Todos já passaram pelas mãos dela. Quase todos. Existe o "The Flash", o boy mais rápido do escritório

18 de março de 2010

mais GERALDÃO

PERSONAGENS DE GLAUCO - Geraldão

Histórico
O principal personagem do Glauco é um consumidor inveterado de uns 30 anos, solteiro que mora com a mãe - com quem tem uma relação neurótica- e continua virgem até hoje. Geraldão bebe, fuma muito, vive atacando a geladeira e toma todos os remédios que vê pela frente. No começo, ele usava uma calça sem elástico. Hoje, passa o dia todo peladão. Geraldão foi criado para o livro independente "Minorias do Glauco", lançado em 1981. Até hoje esta tirinha é publicada na Folha de S.Paulo.

Coadjuvantes :

A Mãe

Ela não agüenta mais o filho, só que não o deixa arrumar uma namorada. É uma senhora aposentada que passa o dia arrumando tudo e, de vez em quando, espia o Geraldão tomando banho

Enceradeira com buzinão

O computador do Geraldão é velho e desatualizado. Funciona ora a manivela, ora a carvão, mas tem memória de elefante

Sônia Braga

Ela foi a primeira paixão do Geraldão. Mas não é a atriz e sim uma boneca inflável

Sharon Stone 1.8

Esta é a segunda boneca inflável do Geraldão. Ela tem mais recursos e desbancou a Sônia Braga, que foi aposentada

16 de março de 2010

PERSONAGENS DE GLAUCO - Netão

Histórico

Netão foi criado em maio de 2000 especialmente para o UOL. Este é o primeiro quadrinho criado por Glauco para a Internet. O nome do personagem tem origem na palavra Net. Segundo Glauco, Netão é o "Geraldão virtual". Com trinta e pouco anos e "internado" no apartamento em que vive com a mulher, Netão viaja pelo mundo através de seu velho computador, que funciona a manivela. O personagem tem compulsão por salas de bate-papo e, sem jamais tirar seu pijama, fica horas a fio em traições virtuais que balançam seu casamento.

Coadjuvantes :

A Mulher

Por conta das aventuras virtuais extraconjugais do marido, a mulher do Netão tem ódio da Internet

O Computador

O computador do Netão é velho e desatualizado. Funciona ora a manivela, ora a carvão, mas tem memória de elefante

O Técnico

O técnico é um carinha que saca de informática e tenta, em vão, "turbinar" o velho computador do Netão

15 de março de 2010

PERSONAGENS DE GLAUCO - Casal Neuras



Histórico O Casal Neuras, criado em 1984, é formado por uma mulher que não é mais submissa e por um homem com pose de liberal, mas que morre de ciúmes dela. O Neurinha é um cara que fez a revolução sexual e hoje se depara com a postura liberal das mulheres. Já a Neurinha desafia a repressão machista e faz o que dá na telha. Esses personagens foram baseados no primeiro casamento do Glauco e na vergonha de manifestar o ciúmes. Esta foi a forma encontrada pelo cartunista para exorcizar o fantasma do machismo.

Coadjuvantes
O Betão
Ele é o gostosão amigo do Casal Neuras. O Neurinha o vê como uma grande ameaça. A Neurinha, por outro lado, sabe muito bem disso e aproveita a situação
O Bichão do Ciúme
É o bicho de estimação do Neurinha. Ele se manifesta toda vez que o ciúme dele atinge níveis muito altos. Sem sucesso, o Neurinha vem tentando domar o bicho
A Magoazinha
É o bicho de estimação cor-de-rosa da Neurinha. Ele se manifesta toda vez que o Neurinha apronta alguma

13 de março de 2010

Bethânia por Jorge Nélio - ( Parte 2 )

Maria Bethania - ANOS 90



“Memória da Pele” marca sua volta a Polygram. Os 25 anos de carreira são comemorados em 1990 com uma superprodução e ilustres participações de Egberto Gismonti, Hermeto Paschoal, Nina Simone, e João Gilberto, entre outros em “Olho d’Água”, um disco variado com composições de Almir Sater “Tocando em Frente”, o reecontro com o passado em “Linda Flor” e o ponto culminante “Pronta Pra Cantar” , canção de louvor de Caetano Veloso para sua irmã,  que ela e Nina Simone juntas elevam à categoria de obra-prima.

Bethânia nunca escondeu sua admiração pelas músicas de Roberto Carlos, a quem carinhosamente chama de “Rei”, e gravou um álbum “As Canções que Você Fez pra Mim” dedicado à sua obra. São 11 músicas com interpretações personalíssimas que conquistaram o coração popular. Mais uma vez ela atinge uma vendagem superior a um milhão de unidades, desfrutando sua consagração perante a crítica, a classe cultural e o povo, sobretudo.



Quando o assunto é samba, Maria Bethânia nunca deixa de exaltar sua escola de samba “do coração”, a Estação Primeira de Mangueira. E foi em 1994 que ela, Caetano, Gal e Gil seriam homenageados com o enredo “Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu”, reunindo no desfile do Carnaval do Rio de Janeiro esses quatro baianos. Dezoito anos depois, em março desse mesmo ano, os Doces Bárbaros apresentariam-se juntos outra vez no Royal Albert Hall em Londres.

Aos 50 anos de idade e 31 anos de carreira, com sua voz plena, delicada e tratando cada canção cuidadosamente com carinho e respeito, Bethânia lançou “Âmbar”, em sua volta a EMI Odeon. Um disco onde ela resgatou os clássicos “Chão de Estrelas” de Silvio Caldas/Orestes Barbosa, e “Quando Eu Penso na Bahia” de Ary Barroso/Luiz Peixoto, este com a participação especialíssima de Chico Buarque, e gravou novos compositores como Adriana Calcanhoto, Chico Cesar, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes.
O sucesso da tournée resultou num novo álbum duplo gravado ao vivo no Palace (São Paulo) em dezembro de 1996. Em “Imitação da Vida”, Bethânia retoma sua fórmula consagrada texto-música, apresentando 28 canções “amarradas” por 11 poemas e textos de  Fernando Pessoa, seu poeta preferido, e volta a ser dirigida por Fauzi Arap.

Esse disco lhe rendeu convites para apresentações no conceituado Festival de Montreux (Suiça), no Coliseu dos Recreios (Lisboa), no Royal Alberto Hall em Londres, e ainda no Festival JVC quando ela realizou um sonho de menina, cantar no Carnegie Hall (Nova York), palco onde se apresentaram divas como Billie Holiday e Edith Piaf, a quem Maria Bethânia foi comparada pelo jornal The New York Times.

No ano de 1998, ela receberia diversas homenagens pela contribuição de sua obra à língua portuguesa. No Brasil, dentre outras, a Medalha Grão Mestre da Bahia. No exterior foi condecorada com a Comenda da Ordem do Infante Dom Henrique, pelo Presidente da República de Portugal Jorge Sampaio.


Nesse mesmo ano, após uma minuciosa pesquisa em diversas áreas da música popular brasileira, Bethânia gravou seu novo disco “A Força que Nunca Seca” com um repertório que reflete e expressa a visão serena que ela tem sobre a dura realidade do Brasil.  Ela uniu clássicos como “Trenzinho Caipira” (Villa Lobos/Ferreira Gullar), “Luar do Sertão/Azulão” (Catulo da Paixão Cearense),  e “Romaria” (Renato Teixeira) à “É o Amor” (Zezé de Camargo), “Gema” (Caetano Veloso) e “As Flores do Jardim da Nossa Casa”  (Roberto e Erasmo Carlos) com ousadia e sutileza, como somente Maria Bethânia, cantora aprimorada no domínio de sua missão artística, é capaz de fazer.

O show oriundo desse disco se transformou em mais um álbum duplo “Diamante Verdadeiro”, lançado em 1999. O Brasil está às vésperas de completar 500 anos e Bethânia faz uma leitura teatral de “Navio Negreiro” de Castro Alves, no palco.

12 de março de 2010

Doces Bárbaros


DEPOIMENTO - Bethânia por Jorge Nélio ( parte 1 ) - As primeiras impressões e a descoberta da artista



JORGE NÉLIO Amante da vida e da arte, companheiro da Música popular Brasileira, e dos palcos... Fã de Bethânia.

Maria Bethania - ANOS 80

João Gilberto a convidou para participar, com Caetano Veloso e Gilberto Gil, da gravação de seu LP “Brasil” (1981). Nesse período, Bethânia decidiu fazer uma revisão em sua obra e, em 1982, gravaria um disco ao vivo “Nossos Momentos” , relembrando seu primeiro sucesso “Carcará”, homenageando Gonzaguinha, declamando Vinicius de Moraes e Clarice Lispector. Foi também em 1982 que ela fez três espetáculos no Coliseu dos Recreios em Lisboa, sendo condecorada com a Ordem dos Músicos de Portugal.

O ano de 1983 abriu um novo ciclo na carreira de Maria Bethânia. Com seu disco “Ciclo” ela se aproximaria da geografia Bahia-África-Portugal, e o resultado desse trabalho foge aos padrões dos anteriores. Algumas canções de seu show A Hora da Estrela (1984), inspirado na obra de Clarice Lispector, foram incluídas no novo álbum “A Beira e o Mar”.



SUCESSO DO ÁLBUM: DEZEMBROS ( 1986 ) " QUERO FICAR COM VOCÊ " FOI COMPOSTA POR: CAETANO VELOSO.

Entre 1985 e 1989, Bethânia lançou dois discos “Dezembros” e “Maria” pela BMG Ariola, concretizando seu projeto de não mais gravar anualmente.


Entrevista de Maria Bethania à Leda Nagle, no 'Jornal Hoje' da TV Globo em 1986, no lançamento do disco Dezembros.

11 de março de 2010

Maria Bethania - ANOS 70

“A Tua Presença” (1971) é o título de seu álbum de estréia na Philips. Nos cinco anos seguintes, apenas mais um LP teve faixas separadas. Foi “Drama” (1972). Os outros três, baseados nos shows “Rosa dos Ventos – O Show Encantado” (1971) , “Drama – Luz da Noite” (1973) e “Cena Muda” (1974), tinham uma sequência ininterrupta.


Maria Bethânia em especial nos anos 70, na Tv Bandeirantes, em que canta Trechos dos shows Drama 3° Ato e Rosa dos Ventos. Agradecimentos á comunidade Maria Bethânia Re(verso).

Ainda no ano de 1972, Bethânia participou ao lado de Nara Leão do filme Quando o Carnaval Chegar, que a aproximou oficialmente da obra de Chico Buarque de Hollanda, de quem se tornaria a maior intérprete, segundo ele próprio. Três anos mais tarde, os dois gravaram um disco juntos, oriundo do show de ambos no Canecão (Rio de Janeiro). Em 1976 outro espetáculo se transformou em LP, os célebres Doces Bárbaros, reunindo Maria Bethânia, seu irmão Caetano Veloso e, os também baianos, Gal Costa e Gilberto Gil. Nesse mesmo ano ela gravou o LP “Pássaro Proibido” . Em 1977, com “Pássaro da Manhã”, baseado num espetáculo que ficou seis meses em cartaz no Teatro da Praia (Rio de Janeiro), ela registrou, como jamais alguém o fez, um forte exemplo da justaposição texto-música, sua marca registrada e consagrada.

Bethânia em seu espetáculo Pássaro da Manhã cantando Gente, música composta por Caetano Veloso especialmente para ela.

Foi na década de 70 que se iniciou a carreira internacional de Bethânia. Ela fez espetáculos no Midem da França, no Festival Internacional de Música no Teatro Olímpico de Roma, dentre outros, e arrancou aplausos ao longo de suas apresentações em suas tournées pela Europa.

Os anos 70 se encerrariam de um modo excepcional para Maria Bethânia. Além de gravar um LP ao vivo com Caetano Veloso, ela lançou um dos mais bem sucedidos discos de sua carreira “Álibi” (1978) sendo a primeira mulher no Brasil a atingir vendas superiores a um milhão de cópias. As canções deste LP passaram a ser uma referência em sua vida: “Diamante Verdadeiro” de Caetano Veloso, a inédita “Explode Coração” de Gonzaguinha, o clássico “Negue” e “Sonho Meu”, em duo com Gal Costa, tocam até hoje nas rádios do Brasil e não podem faltar no repertório de seus shows.

Em seus três discos seguintes “Mel”, “Talismã” que vendeu 700 mil cópias em apenas 15 dias, e “Alteza”, ela manteve as duas constantes de todos os anteriores, gravar Caetano Veloso e regravar clássicos de autores e cantores do passado.


Maria Bethânia e Gal Costa resgatando a parceiria selada por elas em 1978, no disco Álibi da Bethânia. Música de Dona Ivone Lara.

DOCES BÁRBAROS

Formado nos anos 70 , é o grupo de MPB composto por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. O grupo surgiu para comemorar os 10 anos de carreira solo dos seus componentes, que pretendiam além de realizar shows, gravar um disco ao vivo e registrar tudo em um documentário.

Como grupo, Doces Bárbaros pode ser descrito como uma típica banda hippie dos anos 70, mas sua característica marcante é a brasilidade e o regionalismo baiano, naturalidade de todos os integrantes.

O disco de 1976 é considerado por muitos uma obra-prima da música brasileira, mas, curiosamente, na época do lançamento, foi duramente criticado.

Idealizada por Maria Bethânia, a banda interpretou composições de Caetano e Gil, fora algumas canções de outros compositores como Fé cega, faca amolada de Milton Nascimento e o clássico popular Atiraste uma pedra, de Herivelto Martins.

Inicialmente o disco LP seria gravado em estúdio, mas por sugestão de Gal e Bethânia, foi o espetáculo que ficou registrado, sendo quatro daquelas canções gravadas pouco tempo antes no compacto duplo de estúdio, com as canções Esotérico, Chuckberry fields forever, São João Xangô Menino e O seu amor, todas gravações raras.

Na época da turnê, Gilberto Gil foi preso em Florianópolis por porte de drogas, fato que acabou sendo registrado no documentário Doces Bárbaros, dirigido por Jom Tob Azulay.

Depois disso já foi feito outro filme comemorativo, DVD, enredo da escola de samba GRES Estação Primeira de Mangueira em 1994 com a canção Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu (paráfrase da música Atrás do trio elétrico, lançada por Caetano em 1969), já comandaram trio elétrico no carnaval de Salvador, fizeram espetáculos na praia de Copacabana e uma apresentação para a Rainha da Inglaterra.



Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, interpretam a música "Fé cega, faca amolada", composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

DOCES BÁRBAROS por Caetano Veloso


A gente (eu, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa) nem sabe direito porque se juntou para fazer este 'show' em conjunto. Porque a gente já é há tanto tempo... O engraçado é que a gente agora virou os quatros sob um nome só: Doces Bárbaros.

Outro dia, conversando com Gilberto Gil, eu disse: "Acho que a gente agora é um grupo porque foi ficando cada vez mais parecidos uns com os outros, até fisicamente".

Quando eu era menino, e mesmo quando adolescente, eu e Maria Bethânia não éramos dois irmãos parecidos: até o contrário, éramos desses irmãos de tipos diferentes dentro de uma família de muitos irmãos.

E no entanto, hoje em dia, na contra-capa do 'long-play' de Gal e Caymmi, eu vi uma foto de Gal em que eu achei ela parecida comigo.

Quando eu e Maria Bethânia viemos para São Paulo em 1965 e que Bethânia foi fazer o espetáculo Opinião, Gilberto Gil já estava morando lá e Gal foi passar uns tempos conosco.

Gal tinha o cabelo curto e fisicamente era completamente diferente de Maria Bethânia. Mas as pessoas viam Gal na rua, apontavam o dedo para ela e diziam: "Olha lá a Maria Bethânia".

A gente ficava assustado porque achava que Gal e Maria Bethânia eram duas pessoas totalmente diferentes. Que as pessoas deviam achar uma parecida com a outra assim como a gente acha um japonês parecido com o outro.

Gil, por sua vez, era gordo, não tinha ângulo nenhum no corpo e comia muito, muitíssimo.

Depois, ele fez macrobiótica, emagreceu e foi ficando com o corpo muito parecido com o meu, que é muito parecido com o corpo de Bethânia.

Tempos mais tardes, quando apareceu o grupo Novos Baianos, a gente (eu, Gal, Gil e Bethânia) ainda não se achava parecido.

Mas quando eu voltei de Londres falava-se muito no "morro da Gal, nas dunas do barato" e constatei que Gal Costa tinha criado uma moda, um modo de ser, de vestir, de usar o cabelo.

Foi mais ou menos nesta época que 'O Pasquim' começou a reclamar como quem reclama contra a raça. Aliás, uma das canções mais lindas dos Novos Baianos dizia: "Saindo dos prédios para a praça, uma nova raça..."

Depois, todo mundo viu, na televisão, o Chico Anísio fazendo uma imitação do baiano e eu acho que ele fazia muito bem, de um modo bonito. De maneira que a gente, aos olhos dos outros, já era, sem saber, os Doces Bárbaros.

Mas não só a gente mesmo não se achava parecida ainda, como também estava mais do que nunca cada um individualizando tudo o que fazia. Talvez foi por isso mesmo que a gente tenha conseguido agora se tornar capaz de ser um grupo, resultado de nossas vivências comuns e separadas durante todos esses anos em que fazemos música.

De modo que Doces Bárbaros é uma coisa que se formou em nós, através de nós e até mesmo a despeito de nós. É uma nova raça.

As músicas que iremos tocar e cantar são todas nossas, com exceção de algumas de outros autores, como Caymmi, Milton Nascimento e Herivelto Martins. A partir do 'show', gravaremos um 'Long-play'. Gostaria também de mencionar todos os músicos que vão tocar com a gente. Na guitarra, Perinho Santana, no contrabaixo, Arnaldo Brandão, na bateria, Chiquinho Azevedo, no piano, Tomás, na percussão, Djalma Correia, na flauta e saxofone, Tuzé e Mauro.

Se eu fosse lembrar a nossa história, digo, a história de Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e eu, eu teria de falar no Teatro Vila Velha, de Salvador, em uma porção de coisas que todo mundo já sabe e talvez até em algumas que ninguém sabe.

Ia falar também em Roberto Santana, que me apresentou a Gilberto Gil, em Álvaro Guimarães, que faz cinema e teatro e, de uma certa forma, me levou a fazer música, em Maria Muniz, em mil outras gentes.

Mas se eu quiser mesmo contar ou resumir a história dos Doces Bárbaros, vou ter que falar talvez em outros planetas, em outras dimensões, em coisas que nem sei...

Mas para as pessoas que já nos vêem como um grupo há tanto tempo, ou seja, como um punhado de gente que tem características comuns, mesmo físicas, Doces Bárbaros não é senão o óbvio. Para nós, é a maior novidade. E é tudo igual.

Somos muito diferentes uns dos outros. Todo mundo sabe que fui eu que escolhi o nome de Maria Bethânia. Eu tinha quatro anos quando ela nasceu. Por isso, ela, necessariamente, aprendeu muito comigo. Mas ela é estruturalmente uma rebelde e terminou me ensinando as coisas fundamentais desta vida.

Gal, eu encontrei pronta. Uma vez, há tanto tempo que nem me lembro mais, ela cantou uma música qualquer e eu disse que ela era a maior cantora que já surgiu no Brasil.

Quando morava na Bahia, eu ouvia João Gilberto dia e noite e eu ouvia João Gilberto dia e noite. Quando nos vimos pela primeira vez, já eramos, musicalmente irmãos.

Hoje em dia, Gilberto Gil está refazendo a cabeça de todo mundo. Um dia, Rogério Duarte (que também teve grande importância nesta história toda) falou que Gil era o profeta e eu o apóstolo. Entre outras coisas, acho que a gente trabalhar em grupo está sendo maravilhoso, porque nós três vamos aprender e estamos aprendendo muito com Gil. Acho que ele é mesmo o mestre. Gilberto Gil faz e refaz a cabeça de todo mundo.

Vocês, que me lêem, já ouviram falar em 'supergroups'? Pois bem, Doces Bárbaros é um subgrupo. No sentido de um grupo étnico. Ha-ha-ha-ha!

E agora eu pergunto a mim mesmo: como será a nossa cara? Queremos ser Doces Bárbaros assim como o doce de jenipapo é um doce bárbaro! Gilberto Gil disse que ele é cocada-puxa e que eu sou 'amada', um doce que se faz na Bahia usando gengibre, farinha de mandioca e rapadura.

Para mim, Gal Costa é centro. O meio de tudo. A voz. A voz da qual nós (inclusive ela - todos os bárbaros doces) somos apenas vozes.

Mas que horda é esta que vem do planeta terra bahia, todos os santos? Está bom. Os ensaios estão bem calmos, nos divertimos e cantamos canções cantáveis. E, para finalizar, não há nada que eu possa dizer sobre qualquer um de nós que ajude a me dar, a te dar, a dar a todo mundo uma idéia do que seremos.

Caetano Veloso
Revista "Ele e Ela"
junho de 1976

10 de março de 2010

Maria Bethania - ANOS 60

"Pouco antes de eu completar quatro anos de idade, nasceu nossa irmã mais nova, para quem eu escolhera o nome de Maria Bethânia, por causa de uma bela valsa do compositor pernambucano Capiba, que começava com estas linhas majestosas e, à época, indecifráveis para mim: "Maria Bethânia, tu és para mim/ a senhora do engenho", e era grande sucesso na segunda metade da década de 40, na voz potente de Nelson Gonçalves. Naturalmente todos achavam graça no fato de eu saber cantar canções de gente grande, e mais ainda na minha determinação de nomear minha irmãzinha segundo uma dessas canções. Mas ninguém se sentia com coragem de realmente pôr esse nome "tão pesado" num bebê. Como havia várias outras sugestões (iam de Cristina a Gislaine), meu pai resolveu escrever todos os nomes em pedacinhos de papel que, depois de dobrados, ele jogou na copa de meu pequeno chapéu de explorador e me deu para tirar na sorte. Saiu o da minha escolha. Meu pai então pôs um ar resignado (que era uma ordem para que todos também se resignassem) e disse: "Pronto. Agora tem que ser Maria Bethânia" E saiu para registrar a recém-nascida com esse nome. Recentemente, ouvi de minhas irmãs mais velhas uma versão que diz que meu pai escrevera Maria Bethânia em todos os papéis. Não é de todo improvável. E, de fato, na expressão resignada de meu pai era visível - ainda hoje o é, na lembrança - um intrigante toque de humor. Mas, embora me encha ele orgulho o pensamento de que meu pai possa ter trapaceado para me agradar, eu sempre preferi crer na autenticidade do sorteio: essa intervenção do acaso parece conferir mais realidade a tudo o que veio a se passar desde então, pois ela faz crescerem ao mesmo tempo as magias (que nos dão a impressão de se excluírem mutuamente) do presságio e da unicidade absolutamente gratuita de cada acontecimento."
Caetano Veloso

Maria Bethânia Vianna Telles Veloso nasceu geminiana no dia 18 de junho de 1946, em Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo Baiano. Filha de Seu Zeca Veloso, o "Onça", funcionário dos Correios e Telégrafos e de Dona Canô, a força transformadora da terra no pequeno corpo de mulher, nasceu no sobrado na Rua Direita, em cima do local onde seu pai trabalhava. Desde criança, convivendo com os irmãos Rodrigo, Roberto, Caetano, Clara, Mabel, Nicinha e Irene, já demonstrava o que seria a sua marca definitiva - a força dramática, as atitudes apaixonadas, a determinação, a energia telúrica. Queria ser atriz, subir ao palco para representar. Respirava, incentivada pelo fértil ambiente de casa, a mágica atmosfera da arte, a sensibilidade das pequenas grandes coisas da vida, a descoberta da leitura do mundo em suas cores, gestos, palavras e sons.


Em 1960, com 14 anos incompletos, muda-se com o irmão Caetano para Salvador, capital do Estado da Bahia, para continuação dos estudos. Apesar de resistir às mudanças, de querer continuar vivendo em sua terra natal, por determinação dos pais, troca a tranqüila Santo Amaro pela Bahia, nome que os baianos do interior dão à cidade de Salvador. Talvez ainda não soubesse que na movimentada e criativa vida cultural de Salvador no início dos anos 60 fosse encontrar o primeiro palco de sua vida artística.

   " A primeira vez  que eu cheguei aqui em Salvador, se eu não me engano, cheguei de vapor, porque minha cidade, Santo Amaro, quando eu era menina, ainda era porto, o porto funcionava e nós íamos para a Bahia de vapor. Essa coisa de chamar Salvador de Bahia é bem do interior, bem típico daqui. Eu não consigo até hoje chamar Salvador assim com espontaneidade. Chamo Bahia, Eu vou à Bahia".

     " Eu agora tenho que praticar o que aprendi com minha mãe Canô. Creio que ninguém conseguiu ensinar melhor do que ela. Como uma árvore deu suas mudas e exige delas a mesma grandeza imponência e sabedoria. Nunca proibiu ou reclamou quando lhe tiraram os filhotes".

    "Nossa Senhora da Purificação é a minha santa, minha devoção, ela é o que tem de mais bonito para mim no mundo, em todo o mistério do mundo, em tudo que eu já ouvi de catecismo, de candomblé, tudo para mim".

    "O reflexo de maior beleza está em Nossa Senhora da Purificação, o que ela representa, a maternidade, a bondade, a simplicidade. "Maria de todas as horas" como minha irmã Mabel disse tão lindamente. Nasci nas mãos dela, vivo nas mãos dela e morrerei nas mãos dela. Minha Nossa Senhora é linda demais, mãe puríssima".
Maria Bethânia

A vida que parecia tão desinteressante em Salvador transforma-se rapidamente. Da imobilidade do olhar diante das calmas águas do Dique do Tororó, Bethânia, acompanhada pelo irmão Caetano, descobre o inquietante e fervilhante ambiente cultural da cidade - os trabalhos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, as mostras de artes plásticas, os grupos de cinema, os shows de música, as discussões intelectuais e o movimento estudantil. A Bahia, como todo o Brasil, vivia um poderoso momento de criatividade e de transformação cultural, ancorado em um debate aberto sobre as tendências contemporâneas em todos os campos.

Em 1963, Caetano é convidado pelo amigo Álvaro Guimarães para musicar a peça Boca de Ouro, de Nélson Rodrigues. Na abertura da montagem, Bethânia sobe ao palco para cantar pela primeira vez em público a canção Na Cadência do Samba de Ataulfo Alves. Neste mesmo ano, os irmãos conhecem Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e tantos outros que iriam marcar em definitivo a Música Popular Brasileira, influenciados pela Bossa Nova e, principalmente, por João Gilberto.
Em 1963, Caetano é convidado pelo amigo Álvaro Guimarães para musicar a peça Boca de Ouro, de Nélson Rodrigues. Na abertura da montagem, Bethânia sobe ao palco para cantar pela primeira vez em público a canção Na Cadência do Samba de Ataulfo Alves. Neste mesmo ano, os irmãos conhecem Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e tantos outros que iriam marcar em definitivo a Música Popular Brasileira, influenciados pela Bossa Nova e, principalmente, por João Gilberto.

A partir daí e no ano seguinte, o grupo apresenta-se nos espetáculos Nós por Exemplo, Nova Bossa Velha Velha Bossa Nova e no show Mora na Filosofia.

O golpe militar de 1964 parecia interromper bruscamente a movimentação cultural efervescente na época. Mas, ao contrário, as forças de resistência e os núcleos de criação multiplicaram-se. Um dos espetáculos de maior importância naquele momento histórico foi o Show Opinião, idealizado, escrito e produzido por Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar, Paulo Pontes e Armando Costa e dirigido por Augusto Boal. Estreou no Rio de Janeiro com a cantora Nara Leão, e os compositores e cantores João do Vale e Zé Kéti. Em 65, Nara foi substituída por motivo de doença por uma jovem cantora nordestina de voz grave, chamada Maria Bethânia, que estreou profissionalmente no dia 13 de fevereiro. Cantando Carcará, música de João do Valle, Bethânia arrebatou público e crítica e fincou raízes em definitivo naquele que é até hoje o seu lugar do sagrado e do mistério da criação - o palco. Continua a viagem que se iniciou no vapor de Cachoeira. Continuou pela beira de mar e agora se prepara para conquistar mares nunca dantes navegados.

No mapa de suas navegações, participa, em 66, ao lado de Gal, Gil, Caetano, Pitti e Tom Zé dos shows Arena Canta Bahia e Tempo de Guerra, dirigidos por Augusto Boal. No mesmo ano, apresenta-se com Gilberto Gil e Vinicius de Mores, o poeta que emprestou a sua lírica às harmonias de Tom Jobim e com João Gilberto representaram o tripé da Bossa Nova, no show Pois É. Defende a música Beira Mar, de Caetano e Gil, em setembro do mesmo ano, no I Festival Internacional da Canção, também no Rio. Já havia gravado dois compactos, além dos discos Maria Bethânia e Maria Bethânia canta Noel Rosa, todos em 1965.

Em 1967 grava o disco Edu Lobo e Maria Bethânia e realiza uma série de shows em teatro no ano seguinte, vários dos quais seriam transformados em discos - Recital Boite Cangaceiro; Recital Boite Barroco; Yes, Nós temos Maria Bethânia; Comigo me Desavim, primeiro show dirigido por aquele que seria o seu diretor mais constante - Fazi Arap; Recital na Boite Blow Up; Brasileiro Profissão Esperança. Em 1968, grava um disco com Caetano e Gil, em que canta somente cações de Noel Rosa.

     "...o tempo e som são os grandes deuses incombatíveis. Só por serem abstratos, já se dizem e se provam. Chegam até nós e nos modificam como bem entendem...doces, escorregadios, excitantes; de todos os modos. Mostram e escondem tesouros. Provocam e acalmam. Escaravelhos dourados, provocando poentes, nascentes, conforme as necessidades".

    "Só canto o que quero, com quem quero, como quero e quando quero. Nunca entendi nenhum movimento, porque não tenho paciência, não posso jamais ser uma cantora de bossa nova. Uma cantora de protesto, uma cantora tropicalista. Como cada dia eu quero cantar uma coisa, prefiro não me ligar à nada e a ninguém, para poder cantar o que o meu coração mandar".
Maria Bethânia

9 de março de 2010

eu sei que eu tenho um jeito...

De todas as maneiras - Maria Bethania LIVROS e FILMES

Livros

JARDIM, Reinaldo - Maria Bethânia Guerreira Guerrilha. Cooperativa editorial JB - Poder jovem

ÁLVAREZ LIMA, Maria - Maria Bethânia. Edições Intersong

ÁLVAREZ LIMA, Maria - Marginália, Arte e cultura na idade da pedrada. Salamandra - Consultoria editorial brasileira

AA.VV - Maria Bethânia - Dona do Dom, Crônicas, depoimentos e poemas. Ediçao Fã-Clube Rosa dos Ventos Bahia - 2006

Filmes

Maria Bethânia - Música é Perfume ( veja na seção vídeo )

Biscoito Fino lança em dvd documentário do francês Georges Gachot sobre Maria Bethânia, em que ele faz um mapeamento do processo criativo da cantora.
Tudo começou no Festival de Montreux, na Suíça, em 1998, quando o documentarista francês Georges Gachot, há 15 anos especialista em filmes sobre música clássica, foi a um show de Maria Bethânia pela primeira vez. . A perplexidade diante do que viu, o "choque com a presença dela em cena, sua concentração incrível de emoção, seus pés nus", segundo ele próprio, resultou na vontade imediata de fazer um documentário sobre a cantora. A imersão do cineasta num universo musical completamente desconhecido para ele, o de Bethânia, e por extensão o brasileiro, desaguou na sensibilidade crua de "Maria Bethânia- Música é perfume".

Decidido a fazer o filme, Gachot gastou cinco anos, de 1998 a 2003, num processo de pesquisa sobre a cantora e toda a história da música brasileira. O olhar estrangeiro e surpreso do cineasta confere ao filme um frescor, livrando-o de quaisquer chavões e ranço de repetição. Talvez o desconhecimento por parte de Gachot da carreira de Bethânia e da música brasileira seja uma explicação para a forma de desenvolvimento da narrativa: ele busca incessantemente a contextualização. Assim, "Música é perfume" é, antes de mais nada, uma análise do processo criativo de Bethânia dentro da perspectiva da formação da música popular brasileira. O filme traça um paralelo entre a vida da cantora e as transformações sociais ocorridas no Brasil.

O documentário é todo narrado pela própria Bethânia. Mais do que isso, sua voz nos conduz a uma viagem pelos vários sons e matizes que embalam e colorem o imenso mosaico humano-cultural que compõem a nação. Não à toa, as filmagens ocorrem durante a gravação do disco "Que falta você me faz", dedicado à obra de um dos mais brasileiros de nossos poetas, Vinicius de Moraes, e a turnê do show "Brasileirinho", em que a cantora lança um olhar apaixonado sobre o Brasil, a partir de referências incondicionais da arte brasileira. Gachot procura representar Bethânia como a voz síntese de um povo que tem a música como alimento e analgésico, como uma forma de redenção para a miséria ancestral que o assola.

Para o diretor, o mais importante era mostrar de onde vinha a música de Bethânia. Por isso, o registro dos ensaios, que ratificam o total domínio que a cantora tem do seu ofício, e a ida a Santo Amaro, cidade natal de Bethânia:

- Meu objetivo com o filme era pôr na tela a grandeza da música de Bethânia. Não quis que a história quebrasse a música. Quando as canções me davam a oportunidade, eu contava a história - disse.

Mas essas histórias também preenchem de humanidade a ode a uma estrela da canção. Além da própria Bethânia, que conta curiosidades de família (''Eu e Caetano adorávamos brincar de faquir quando crianças...Eu acho que foi a primeira aula de concentração que nós fizemos."), há outros depoimentos que permeiam todo o filme, como o do irmão Caetano (que sugeriu o nome Maria Bethânia, inspirado na música homônima eternizada por Nelson Gonçalves), da mãe Dona Canô, dos amigos Chico Buarque, Nana Caymmi e Gilberto Gil, e também do fiel maestro Jaime Alem.

O título "Música é Perfume" vem de uma idéia da própria Bethânia. Para ela, "nada como um cheiro ou uma música para nos fazer sentir, viver, lembrar". A confirmação de suas próprias palavras vem em seguida, ao ouvir sua interpretação de "Melodia Sentimental", e se emocionar.

- A voz mora em mim, mas não sinto como se fosse minha. É uma expressão de Deus, uma fagulha.

Não a sente como sua, porque pertence também a todos os "brasileirinhos", aquela gente humilde que aparece na abertura do filme catando lixo e vendendo cerveja na praia de Ipanema, com Bethânia falando o texto "Pátria Minha", de Vinicius, ao fundo. A voz de Bethânia é isso, é aquela que está presente em cada um de nós, a porção individual de fagulha divina. E, ao mesmo tempo, é expressão humana e síntese de todo um país. "Música é Perfume" capta a simbiose única entre uma voz e um país, até que não se saiba mais onde termina um e começa o outro.

Nos extras, cenas de Bethânia em estúdio cantando músicas como Gente Humilde, Nature Boy, Lamento no Morro, Eu não existo sem você e A Felicidade. E ainda, depoimentos de Susana De Moraes, Caetano Veloso, Moogie Canázio

Certas Palavras

Doces Bárbaros Tom Job Azulay

DVD duplo - Pedrinha de Aruanda e Bethânia bem de perto
Dois DVDs com registros de dois diretores especiais, Andrucha Waddington - "Pedrinha de Aruanda (2006)" e "Júlio Bressane - Bethânia bem de perto (1966)". O filme de Bressane, feito em 66 em preto e branco nos mostra Bethânia recém chegada ao Rio, para substituir Nara Leão no teatro, passeando pela cidade e na intimidade da sua casa com amigos como Macalé, Rosinha de Valença e Caetano Veloso.

O documentário "Maria Bethânia - Pedrinha de Aruanda" é um registro singular da intimidade de uma das maiores intérpretes brasileiras de todos os tempos. O ponto de partida é a comemoração do aniversário de sessenta anos da cantora, celebrados durante uma apresentação em Salvador e uma missa em Santo Amaro, sua cidade natal, em 2006. De lá, a cantora guia o diretor Andrucha Waddington aos lugares do vilarejo que marcaram sua vida. É na casa onde a artista passou sua infância e adolescência que acontece o ápice do filme: a seresta familiar na varanda, com a participação de sua mãe, Dona Canô, do irmão, o cantor e compositor Caetano Veloso, e do violonista e maestro Jaime Alem, entre outros.

Neste encontro, Maria Bethânia revela sua história a partir de músicas que a acompanharam ao longo de sua vida, como os clássicos populares "Gente Humilde" (Garoto), "Felicidade" (Lupicínio Rodrigues) e "A Tristeza do Jeca" (Angelino de Oliveira). Através da simplicidade e lucidez de Dona Canô, o documentário vai de encontro às raízes da cantora para fazer o retrato singelo de uma família genuinamente brasileira.

Bethania bem de perto


DESAFIO
Paulo Sarraceni

Cinema Novo João Batista de Andrade

Quando o carnaval chegar Cacá Diegues

7 de março de 2010

eternamente PAGU - O FILME


Fins dos anos vinte, Pagú ainda não tem vinte anos e já encanta os meios intelectuais avançados de São Paulo, da mesma forma que escandaliza os conservadores. É apresentada aos membros da ala radical do movimento modernista, liderada por Oswald de Andrade, brilhando entre estrelas não menos cintilantes, como a pintora Tarsila do Amaral. Pagú e Oswald se aman. Têm um filho, militam no Partido Comunista, fundam um jornal. Pagú vai à Argentina, onde encontra Luiz Carlos Prestes. Participa de uma greve em Santos e é presa pela primeira vez. Em seguida, parte numa viagem pelo mundo, deixando Oswald e o garoto e sempre convivendo com artistas e militantes de esquerda.


Ficha Técnica

Título original: Eternamente Pagú
Gênero: Drama
Duração: 100 min.
Lançamento (Brasil): 1988
Distribuição: Embrafilme e Riofilme
Direção: Norma Benguell
Roteiro: Márcia de Almeida, Geraldo Carneiro e Norma Bengell
Assistente de direção: Sonia Nercessian
Produção: Embrafilme, Flai Cinematográfica, Sky Light e Maksoud Plaza
Produção executiva: Agostinho Janequine
Direção de produção: Marta Passos
Música: Turíbio Santos e Roberto Gnatalli
Edição de som: Walter Goulart
Fotografia: Antonio Luis Mendes
Desenho de produção: Alexandre Meyer
Direção de arte: Alexandre Meyer
Figurino: Carlos Prieto
Maquiagem: Jacques Monteiro
Edição: Dominique Paris

Elenco

Carla Camurati
Nina de Pádua
Atônio Fagundes
Esther Goés
Otávio Augusto
Paulo Villaça
Antonio Pitanga
Breno Moroni
Kito Junqueira
Suzana Faini
Patrícia Galvão
Maria Silvia
Suzana Faini
Breno Moron
Beth Goulart
Marcelo Pichi
Carlos Gregório
Norma Benguell
Eduardo Lago
Ariel Coelho

Premiações

- Prêmio "Sol de Ouro", Jurí Popular, Melhor Fotografia, Atriz Coadjuvante (Esther Góes), IV Rio-Cine Festival RJ, 1988;

- Melhor Atriz (Carla Camurati), II Festival de Cinema de Natal, RN, 1988.
Curiosidades
- Primeiro longa dirigido por Norma Benguell.

- Patrícia Rehdler Galvão (1910-1962), a Pagu, foi uma das figuras mais polêmicas do modernismo brasileiro.
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Quando os extremos se tocam

Catadora de papéis acha fotos e documentos de Pagu
Texto:
Cassiano Elek Machado
Folha Ilustrada Online
24/04/2004 às 02:00


Musa do modernismo brasileiro, Pagu acabou no lixo de São Paulo. O olhar lânguido, os cabelos morenos encaracolados, a boca coberta do batom mais vermelho que encantaram Oswald de Andrade & cia. foram jogados em um saco de plástico azul e deixados em uma esquina do Butantã.

O acaso fez com que por essa rua passassem Selma Morgana Sarti, 42, e seu carrinho de supermercado. Catadora de papéis, ela não conhecia Pagu, mas achou que as fotos da mulher atraente, anexadas a jornais antigos, poderiam ter importância.

Nesta semana, depois de idas e vindas, o pequeno acervo localizado há cerca de oito meses chegou às mãos da Unicamp. E acabou se transformando em presente de aniversário do Arquivo Edgard Leuenroth da universidade, que está completando 30 anos.

Patricia Galvão (1910-1962), nome de batismo da escritora e jornalista, juntou-se a um dos principais acervos do país sobre movimentos políticos de esquerda, que consumiram parte de sua vida.

A família de Pagu Segundo Rudá de Andrade, 73 [cineasta], filho de Pagu com Oswald de Andrade, o pequeno conjunto de documentos, sobre o qual tomou conhecimento por meio da Folha, "deve ser o primeiro acervo público sobre sua mãe".

O "acervo" que chegou à Unicamp tem 17 itens, incluindo uma medalha recebida pela escritora em Santos, onde morou no fim da vida, e uma carteira profissional original.

A Folha apurou que o conjunto foi descartado pela jornalista Leda Rita Cintra Ferraz, que separou-se há pouco mais de um ano de outro filho de Pagu, Geraldo Galvão Ferraz [jornalista, filho de Pagu com o segundo marido, Geraldo Ferraz], hoje em Nova York.

"Só pode ter sido jogado por mim, inadvertidamente. Kiko (Geraldo) deixou as coisas na mais perfeita bagunça, e algo deve ter se misturado ao lixo", diz Cintra Ferraz, que assina a curadoria de exposição sobre Pagu que começa itinerância pelo interior paulista amanhã, por Jaú.

A catadora de papéis Selma Sarti, a catadora que encontrou o pequeno tesouro, diz que não se lembra exatamente das condições em que as peças foram encontradas. "Começo a catar os materiais às 2h, quando ainda está muito escuro. Só mais tarde examino aquilo que colhi."

Ex-secretária de um médico na região da avenida Paulista e ex-encarregada do departamento financeiro de uma empresa, ela trabalha como catadora há sete anos, desde que o nascimento do filho Jefferson coincidiu com seu desemprego. "Não trocaria de emprego. Gosto do que faço."

As fotos de Pagu não foram o primeiro "achado" de Selma, que diz já ter encontrado até livros do século 19. "A única coisa que não consegui encontrar foi uma maleta recheada de dólares", brinca.

Autodenominando-se militante da reciclagem, ela diz que, "se o país reaproveitasse melhor o que joga fora, não seria preciso a taxa de lixo de Marta". "Nosso lixo é muito rico. É até irônico falar de Fome Zero com a quantidade de comida que jogamos", opina a catadora, que completou o ginásio.

"Se tivesse mais estudos, poderia identificar muito mais coisas importantes no lixo", conta. No caso de Pagu, ela acabou recorrendo a uma estudante que vivia perto de sua casa no Butantã. Cristina Dunaiva, hoje doutoranda de história da arte na Unicamp, e seu colega Marcelo Chaves encaminharam o material para o Arquivo Edgard Leuenroth, originado com documentos desse militante anarquista (1881-1968).

"O material é de grande importância para o arquivo, que tem como eixo os movimentos sociais do início do século e que possui farta documentação sobre história cultural, áreas de Pagu", diz Elaine Zanatta, supervisora do arquivo, onde estão, entre outras, uma coleção com 37 anos de documentação do Teatro Oficina e o acervo da pesquisa sobre tortura Brasil: Nunca Mais.

textos e frases de PAGU


“ Sou a única atriz.
É difícil para uma mulher
interpretar uma peça toda.
A peça é a minha vida,
meu ato solo”.

*****

“Quando eu morrer não quero que chorem a minha morte/ Deixarei meu corpo pra vocês...”

*****

" dentro da lei...nha..."


*****

“...o homem nascido no Brasil, em Cuba, na China ou na Rússia, nestes tempos, não tem necessidade de nenhum ‘pai dos pobres’, de ‘paizinho’, quer se chamem Getúlio Vargas ou José Stálin”. Que as massas atirassem fora a “humildade”, pois era sobre esta que se estendia “a asa negra dos diversos ‘pais’ que a si mesmo se nomearam, como se os povos fossem formados de órfãos e bastardos...”.

*****

"Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre"

*****

"Se eu ainda tivesse unhas, enterraria meus dedos nesse espaço em branco que ainda resta"

*****

"Tenho várias cicatrizes, mas estou viva. Abram a janela. Desabotoem minha blusa. Eu quero respirar

*****

"A liberdade e a prisão
Ter um barco que percorra
Distâncias incríveis
Saber remendar um sapato
Encontrar um amor
Amor de verdade
Ser vento, fogo ou carvão
Tudo, tudo, tudo
Menos esta ratoeira"

*****

"O apito da chaminé gigante, libertando uma humanidade inteira que se escoa para as ruas da miséria."
Parque Industrial

*****

“O grito possante da chaminé envolve o bairro. Os retardatários voam, beirando a parede da fábrica, granulada, longa, coroada de bicos. Resfolegam como cães cansados, para não perder o dia. Uma chinelinha vermelha é largada sem contraforte na sarjeta. Um pé descalço se fere nos cacos de uma garrafa de leite. Uma garota parda vai pulando e chorando alcançar a porta negra.
O último pontapé na bola de meia

*****

"O que você está falando, menina?
Estou falando que.
Que o quê?
Que.
Vamos dizer que a menina, minha amiga
Pretenderia o quê?
Que."

*****

"Um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada."

*****

“HOMEM que me ouves, sai da tua prisão! ROMPE os grilhões que, mais do que escravizar-te, te cretinizam, enfrenta os imbecis camuflados de duce, esses führes de todos os teus minutos, esses improvisados condutores de superscitiosas ‘cadeias de felicidade’, vendedores de bananas – quer se chamem Plínio Salgado, Luiz Carlos Prestes, Adhemares, Borgis, Caio & Cia., turbas de pestidigitadores!”

*****

“Venha comigo por esta Paulicéia sem desvario nenhum, onde se esganam os meninos de ontem que, afinal – que diabo – tinham um visto no passaporte e era você, Mário, que displicentemente tinha feito este mal, carimbando a folha branca do prefácio com a firma reconhecida das tuas elegias, porque, afinal, você ia embora, que os tais se danassem. Mas eu, de braço dado com você agora, por esta ladeira do Piques, que diabo, isso não era honesto”.

*****

O ataque final a Mario de Andrade

“Eu lhe acuso, meu poeta e professor, pelo melado de engodo em você, que podia condenar e corrigir, e varrer a chicote os vendedores ambulantes dos degraus daquela nossa casa, casa velha, arruinada, com inflação, eu lhe acuso – você é o principal responsável por esta massa falida. Se não era líder, por que dançou?”.

*****

De um país tão rico e importante, fizeram um país de sobremesas. Açúcar, café, bananas.
Que pelo menos nós sobrem as bananas!

*****

Maltus Alem

Excluida a grande maioria de pequenas burguesas, cuja instrução é feita nos livrinhos de beleza, nas palavras estudadas dos meninos de baratinha, nos gestos das artistas de cinema mais em voga, ou no ambiente semi-familiar dos cocktails modernos - temos a atrapalhar o movimento revolucionário do Brasil uma elitezinha de "João Pessoa" que sustentada pelo nome de vanguardistas e feministas, berra a favor da liberdade sexual, da maternidade consciente, do direito do voto para "mulheres cultas", achando que a orientação do velho Maltus resolve todos os problemas do mundo.
Estas feministas de elite que negam o voto aos operários e trabalhadores sem instrução, porque não lhes sobra tempo do trabalho forçado a que se tem que entregar para a manutenção dos seus filhos, se esquece que a limitação de natalidade quase que já existe mesmo nas classes mais pobres e que os problemas todos da vida economica e social ainda estão para ser resolvidos. Seria muito engraçado que a ilustre poetisa D. Maria Lacerda de Moura fosse ensinar a lei de Maltus ao sr. Briand, para que ele evitasse a guerra mundial atirando à boca ávida dos imperialistas gananciosos, um punhado de livros sobre maternidade consciente. Marx já passou um sabão no celibatário Maltus, que desviava o sentido da revolução para um detalhe que a Russia, por exemplo, já resolveu. O materialismo solucionando problemas maiores faz com que esse problema desapareça por si.
O batalhão '' João Pessoa" do feminismo ideológico tem em D Maria Lacerda de Moura um simples sargento reformista que precisa extender a sua visão para horizontes mais vastos a fim de melhor atuar no próximo Congresso de Sexo.

Pagu, O Homem do Povo, n. 1, sexta-feira, 27 de março de 1931.

*****

Normalinhas

As garotas tradicionais que todo mundo gosta de ver em São Paulo, risonhas, pintadas, de saias de cor e boinas vivas. Essa gente que tem uma probabilidade excepcional de reagir como moças contra a mentalidade decadente, estraga tudo e são as maiores e mais abomináveis burguesas velhas.
Com um entusiasmo de fogo e uma vibração revolucionária poderiam se quisessem, virar o Brasil e botar o Oiapoque perto do Uruguai. Mas D.Burguesia habita nelas e as transforma em centenas de inimigas da sinceridade. E não raro se zangam e descem do bonde, se sobe nele uma mulher do povo, escura de trabalho.
A gente que as ve em um bandinho risonho pensa que estão forjando algumas coisa sensacional, assim como entrarem em grupo na Igreja de S. Bento, derrubar altar, padre estoia, sacristia...Nada disso. Ou comentam um tango idiota numa fita imbecil ou deturpam os fatos escandalosos, de uma guria mais sincera, em luta corporal com o controle cristão. Agrupam-se para abandoná-la. A camarada tem de andar sozinha...É uma imoralidade...Ao menos se fizesse escondido...
É isso mesmo o que elas fazem.Eu que sempre tive a reprovação delas todas; eu que não mentia, com as minhas atitudes, com as minhas palavras, e com a minha convicção; eu que era uma revolucionária constante no meio delas, eu que as aborrecia e as abandonava voluntariamente enojada de sua hipocrisia, as via muitíssimas vezes protestar com violencia contra uma verdade, as via também com o rosto enfiado na bolsa escolar e pernas reconhecíveis e tremulas subirem a baratas impassíveis para uma garçoniére vulgar.
Ignorantes da vida e do nosso tempo! Pobres garotas encurraladas em matinés oscilantes, semi-aventuras, e clubes cretinos.

A variadas umas pelas outras, amedrontadas com a opinião, azoinando preconceitos e corvejando disparates, se recalcam as formadoras de homens numa senda inteiramente incompatível com os nossos dias. E vão estragar com os ensinamentos falsos e moralistas a nova geraÇão que se prepara. É caso de polícia! O governo como bom revolucionário que se diz, devia intervir com uma dezena de grilos numas visitinhas pela casa corruptora.
Com uma dúzia de palmadas elas se integrariam no verdadeiro caminho.

Acho bom voces se modificarem pois que no dia da reivindicação social que virá, voces servirão de lenha para a fogueira transformadora.
Se voces, em vez de livros deturpados que leem, e dos beijos sifilíticos de meninotes desclassificados, voltassem um pouco os olhos para a avalanche revolucionária que se forma em todo o mundo e estudassem, mas estudassem de fato, para compreender o que se passa no momento, poderiam com uma convicção de verdadeiras proletárias, que não querem ser, passar uma rasteira nas velharias enferrujadas que resistem e ficar na frente de uma mentalidade atual como autenticas pioneiras do tempo novo.

Voces também querem que nem os seus coleguinhas de Direito, trocar bofetões comigo?

Pagu, O Homem do Povo, número 8, segunda-feira, 13 de abril de 1931

******

O álbum de Pagu - Nascimento, vida, Paixão e morte.

Nascimento...

Além...muito além do Martinelli...
martinellamente escancara as cento e cinquenta e quatro guelas...

Era filha da lua...
Era filha do sol...

Da lua que aparece serena e suave no céu , amamentando eternamente o Cavaleiro de S. Jorge...Barrigudinha

Do pai sol, amado D. decorador de quadros futuristas...
O pai dela gosta de bolinar nos outros...
E Pagu nasceu...

de olhos terrivelmente molengos
e boca de cheramy...

E o guerreiro cantou.
E Freud desejou...

Mandioca braba faz mal.
Pagu era selvagem
Inteligente
E besta...

Comeu da mandioca braba...
E fez mal.

Pagu / 1929

6 de março de 2010

APAIXONADA PELO TEATRO, QUER SER PATRÍCIA DE NOVO

por Camila Ventura Frésca

A década de 1950 marca também uma aproximação cada vez maior com o teatro. A partir de 1952 ela passa a freqüentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo (EAD), sob direção de Alfredo Mesquita, que lembra que, nessa época, ela já não era mais a chocante e extravagante Pagú, mas uma arredia e calada Patrícia: “conversávamos longamente, amigavelmente, enquanto havia pouca gente à volta. Mal aumentava a roda e Patrícia – como queria que a chamássemos – calava-se arredia, assustadiça, para logo se esgueirar e sumir. Assim era a famosa, a terrível, a assustadora Pagú”.

Pagú passa a ter aulas com Alfredo Mesquita (“aluna ainda, mas não mais subversiva, agressiva, escandalosa como nos tempos da ‘Praça’. Entusiasta, aplicada, séria, divertida...”), Décio de Almeida Prado, Ziembinsky e outros mestres. Leva para Santos a apresentação de “A Descoberta do Novo Mundo”, de Lope de Vega, realizada pela EAD, iniciando uma série de espetáculos da Escola na cidade. A partir desta época Patrícia exerce importante papel na vida cultural de Santos, liderando a campanha para a construção do Teatro Municipal e formando grupos amadores de teatro, além de fundar a Associação dos Jornalistas Profissionais de Santos. Também criou e presidiu a União do Teatro Amador de Santos, por onde passaram, ainda iniciantes, atores como Aracy Balabanian, José Celso Martinez Correa, Sérgio Mamberti e Plínio Marcos.

Na imprensa dedicou-se às páginas culturais, publicando artigos e páginas especiais sobre escritores, poetas e dramaturgos como Ionesco, Brecht, Fernando Pessoa, Dostoiévsky, Rilke e Pirandello. Também foi responsável por traduções pioneiras de escritores então pouco conhecidos no Brasil: Blaise Cendras, Svevo e Arrabal. Deste último encenou, em estréia mundial, a peça ‘Fando e Lis”, com o Grupo Experimental de Teatro Infantil (GETI).

Esclarecendo sua preferência pelo teatro experimental afirmou: “Preferimos a vanguarda, porque visa ela corrigir os vícios e os hábitos de se assistir teatro normal, teatro repetido, teatro que deixa espectador e atores indiferentes. Preferimos aqueles momentos capazes de sacudir o sono do mundo, como lembrava, certa vez, o velho mestre Sigmund Freud. Pois que o mundo dorme.”

O compositor santista Gilberto Mendes, em suas memórias, afirma que “Pagú tinha um humor, uma perspicácia e finura intelectual especiais. E gostava das pessoas, de ajudar (...) Nesses mais ou menos dez últimos anos de sua vida em Santos, Pagú andava esquecida, quase ninguém falava dela no Brasil, era uma figura anônima pelas ruas da cidade, pelas platéias dos teatros, integrada na vidinha artística da província, animando a gente, escrevendo sobre nós, músicos, atores, diretores (...) Era uma mulher formidável”. Seu prolífico trabalho de crítica nos jornais - polemizando, comprando brigas, combatendo - e seu intenso trabalho com o teatro só são interrompidos com sua morte, provocada por um câncer.

Desejava que seus livros sobre teatro fossem doados para a EAD após sua morte. Alfredo Mesquita recorda-se do pedido da amiga: “lembro-me ainda do dia em que, sabendo-se gravemente doente, disse-me pretender entregar imediatamente a sua biblioteca à Escola. Assustado, não querendo por nada acreditar no que dizia a respeito da saúde, recusei a oferta.” Mas a doença evoluiu e Mesquita foi obrigado a acatar o pedido: “vi-a ainda duas vezes, em casa de parentes, sentada na cama, o tronco ereto, fumando, fumando sempre, os olhos muito pretos, ainda vivos, fixos em mim com aquela expressão de angústia e interrogação dos que vão morrer. Já não podia levantar-se e mal conseguia falar. Das duas vezes, repetiu baixinho: - não se esqueça dos livros, são seus...”.

Em setembro de 1962 viaja a Paris para ser operada. Na véspera, um último texto seu é publicado em A Tribuna - o poema “Nothing”:

“Nada, nada, nada

Nada mais do que nada

(...) Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas

Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava

Um cão rosnava na minha estrada

(...) Abri meu abraço aos amigos de sempre

Poetas compareceram

Alguns escritores

Gente de teatro
Birutas no aeroporto

E nada”

A operação fracassa e ela tenta o suicídio. Volta ao Brasil e em 12 de dezembro de 1962 morre em Santos.

“Deu-se esta semana uma baixa nas fileiras de um agrupamento de raros combatentes. Ausência desde 12 de dezembro de 1962, que pede seu registro do companheiro humilde, que assina estas linhas. Patrícia Galvão morreu neste dia de primavera, nessa quarta-feira, às 16 horas (...) Morreu aqui em Santos, a cidade que mais amava, na casa dos seus, entre a Irmã e a Mãe que a acompanhavam, naquele momento e, felizmente, em poucos minutos, apenas sufocada pelo colapso que a impedia de respirar, pela última palavra que pedia ainda liberdade, ‘desabotoa-me esta gola’”. (Geraldo Ferraz, A Tribuna, 16/12/1962)

5 de março de 2010

MOSCOU, UM DESENCANTO NO BRASIL, PRISÃO E TORTURA

Em dezembro do mesmo ano,Pagú sai em viagem pelo mundo na intenção de estudar e verificar in loco, na Rússia, como estava se executando na prática a ideologia pela qual lutava. Oswald ajuda no custeio da viagem e fica tomando conta de Rudá. Ela atua como correspondente dos jornais Diário da Noite (SP), Diário de Notícias e Correio da Manhã (RJ). Visita os Estados Unidos, Japão e China – onde entrevista Sigmund Freud. Da China parte para Moscou, em maio de 1934, numa viagem de oito dias pelo Transiberiano. A realidade que vê nas ruas da cidade a deixa profundamente decepcionada: “o ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou, um hotel de luxo para os altos burocratas, os turistas do comunismo, para os estrangeiros ricos. Na rua as crianças mortas de fome: era o regime comunista” (Verdade e Liberdade, 1950).



Sai de Moscou em direção à França, onde se estabelece por um tempo, freqüentando cursos da Université Populaire. Filia-se ao Partido Comunista francês com a identidade falsa de Leonnie, e participa de manifestações ao lado da Front Populaire (união dos partidos de esquerda). É detida três vezes antes de ser presa como militante comunista estrangeira, em julho de 1935. Salva de ser submetida ao Conselho de Guerra ou deportada para Itália ou Alemanha pelo embaixador Souza Dantas, acaba sendo repatriada.

Volta ao Brasil no fim do ano, quando se separa definitivamente de Oswald. Passa a colaborar no jornal A Platéia mas, pouco depois de sua chegada, é presa em razão da Intentona Comunista. Condenada a dois anos de prisão, fica nos presídios Paraíso e Maria Zélia, em São Paulo, mas foge antes de completar a pena. Presa novamente, é condenada a mais dois anos e meio de prisão, que cumpre dessa vez na Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Além das torturas, Pagú sofre perseguições dos próprios correligionários de partido. Há nos seus arquivos uma carta desse período, cheia de desesperança, enviada ao futuro marido Geraldo Ferraz: “(...) Escrevo o retrocesso constatado no dia de hoje. Não consigo viver a vida artificial dos últimos dias em que me dissolvia na vida coletiva da prisão. Onde é que eu ia buscar o entusiasmo senil pelo lúmpen quando a própria lama hoje me decepciona? (...)”

Cumprida a pena, Pagú fica ainda na prisão por mais seis meses, por se recusar a prestar homenagem a Adhemar de Barros, então interventor federal em visita ao presídio. É libertada em julho de 1940, muito doente, pesando 44 quilos. A temporada de quase cinco anos de cárcere deixou marcas profundas na antiga musa antropofágica. Segundo a irmã Sidéria, ela tentou o suicídio logo após sair da prisão.

FORA DA CADEIA, INTENSA ATUAÇÃO JORNALÍSTICA

A saída da prisão marca uma nova fase na vida de Pagú. Ela passa a viver com Geraldo Ferraz, que seria seu companheiro até sua morte. Rompe com o Partido Comunista. Tem o segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 1941, e passa a colaborar em diversas publicações como redatora, cronista ou crítica.

Durante toda a década de 1940, Pagú trabalha ativamente na imprensa, muitas vezes exercitando combativamente a crítica literária. Ela reclama da capitulação dos autores que, na vigência do Estado Novo, justificavam sua inércia pela falta de liberdade no país. Conforme nota o poeta Augusto de Campos, nas críticas que escrevia sente-se, apesar do desencanto e decepções, uma disposição de luta pela manutenção do espírito renovador de 22. Entre outros veículos, ela trabalha, nesse período, nos jornais cariocas A Manhã, O Jornal, e nos paulistas A Noite e Diário de São Paulo.

Entre junho e dezembro de 1944, ela colabora como contista na revista Detetive, dirigida por Nelson Rodrigues. Na publicação, de grande popularidade à época, Pagú escrevia contos de suspense sob o pseudônimo de King Shelter. No ano seguinte, lança seu segundo romance, A Famosa Revista, em colaboração com Geraldo Ferraz. Se Parque Industrial fora escrito por uma Pagú militante, crente na iminência da revolução, A Famosa Revista caracteriza-se pela crítica e denúncia dos males do Partido Comunista. Nesse sentido, pode-se dizer que o segundo livro é o oposto do primeiro.

A década de 50 se inicia com uma nova incursão de Pagú na política. Ela concorre a uma vaga na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo pelo Partido Socialista Brasileiro, mas não é eleita. Como parte da campanha, publica o panfleto Verdade e Liberdade, editado pelo comitê Pró-Candidatura Patrícia Galvão, em que comenta sua passagem pela prisão, a desilusão com o Partido Comunista e o porquê de sua candidatura:

(...) De degrau em degrau desci a escada das degradações, porque o Partido precisava de quem não tivesse um escrúpulo, de quem não tivesse personalidade, de quem não discutisse. De quem apenas ACEITASSE. Reduziram-me ao trapo que partiu um dia para longe, para o Pacífico, para o Japão e para a China, pois o Partido se cansara de fazer de mim gato e sapato. Não podia mais me empregar em nada: estava ‘pintada’ demais. (...) Em 1935, procurei uma revolução que o Partido preparava e não achei revolução nenhuma. Nos pontos, nas esquinas, nenhuma voz, nenhum gesto. Apenas o fiasco. Mais uma vez, o fiasco (...) E todos nós para a cadeia (...) Outros se mataram. Outros foram mortos. Também passei por essa prova. Também tentaram me esganar em muito boas condições. Agora, saio de um túnel. Tenho várias cicatrizes, mas ESTOU VIVA.”

Camila Ventura Frésca

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