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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

11 de março de 2010

Maria Bethania - ANOS 70

“A Tua Presença” (1971) é o título de seu álbum de estréia na Philips. Nos cinco anos seguintes, apenas mais um LP teve faixas separadas. Foi “Drama” (1972). Os outros três, baseados nos shows “Rosa dos Ventos – O Show Encantado” (1971) , “Drama – Luz da Noite” (1973) e “Cena Muda” (1974), tinham uma sequência ininterrupta.


Maria Bethânia em especial nos anos 70, na Tv Bandeirantes, em que canta Trechos dos shows Drama 3° Ato e Rosa dos Ventos. Agradecimentos á comunidade Maria Bethânia Re(verso).

Ainda no ano de 1972, Bethânia participou ao lado de Nara Leão do filme Quando o Carnaval Chegar, que a aproximou oficialmente da obra de Chico Buarque de Hollanda, de quem se tornaria a maior intérprete, segundo ele próprio. Três anos mais tarde, os dois gravaram um disco juntos, oriundo do show de ambos no Canecão (Rio de Janeiro). Em 1976 outro espetáculo se transformou em LP, os célebres Doces Bárbaros, reunindo Maria Bethânia, seu irmão Caetano Veloso e, os também baianos, Gal Costa e Gilberto Gil. Nesse mesmo ano ela gravou o LP “Pássaro Proibido” . Em 1977, com “Pássaro da Manhã”, baseado num espetáculo que ficou seis meses em cartaz no Teatro da Praia (Rio de Janeiro), ela registrou, como jamais alguém o fez, um forte exemplo da justaposição texto-música, sua marca registrada e consagrada.

Bethânia em seu espetáculo Pássaro da Manhã cantando Gente, música composta por Caetano Veloso especialmente para ela.

Foi na década de 70 que se iniciou a carreira internacional de Bethânia. Ela fez espetáculos no Midem da França, no Festival Internacional de Música no Teatro Olímpico de Roma, dentre outros, e arrancou aplausos ao longo de suas apresentações em suas tournées pela Europa.

Os anos 70 se encerrariam de um modo excepcional para Maria Bethânia. Além de gravar um LP ao vivo com Caetano Veloso, ela lançou um dos mais bem sucedidos discos de sua carreira “Álibi” (1978) sendo a primeira mulher no Brasil a atingir vendas superiores a um milhão de cópias. As canções deste LP passaram a ser uma referência em sua vida: “Diamante Verdadeiro” de Caetano Veloso, a inédita “Explode Coração” de Gonzaguinha, o clássico “Negue” e “Sonho Meu”, em duo com Gal Costa, tocam até hoje nas rádios do Brasil e não podem faltar no repertório de seus shows.

Em seus três discos seguintes “Mel”, “Talismã” que vendeu 700 mil cópias em apenas 15 dias, e “Alteza”, ela manteve as duas constantes de todos os anteriores, gravar Caetano Veloso e regravar clássicos de autores e cantores do passado.


Maria Bethânia e Gal Costa resgatando a parceiria selada por elas em 1978, no disco Álibi da Bethânia. Música de Dona Ivone Lara.

DOCES BÁRBAROS

Formado nos anos 70 , é o grupo de MPB composto por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa. O grupo surgiu para comemorar os 10 anos de carreira solo dos seus componentes, que pretendiam além de realizar shows, gravar um disco ao vivo e registrar tudo em um documentário.

Como grupo, Doces Bárbaros pode ser descrito como uma típica banda hippie dos anos 70, mas sua característica marcante é a brasilidade e o regionalismo baiano, naturalidade de todos os integrantes.

O disco de 1976 é considerado por muitos uma obra-prima da música brasileira, mas, curiosamente, na época do lançamento, foi duramente criticado.

Idealizada por Maria Bethânia, a banda interpretou composições de Caetano e Gil, fora algumas canções de outros compositores como Fé cega, faca amolada de Milton Nascimento e o clássico popular Atiraste uma pedra, de Herivelto Martins.

Inicialmente o disco LP seria gravado em estúdio, mas por sugestão de Gal e Bethânia, foi o espetáculo que ficou registrado, sendo quatro daquelas canções gravadas pouco tempo antes no compacto duplo de estúdio, com as canções Esotérico, Chuckberry fields forever, São João Xangô Menino e O seu amor, todas gravações raras.

Na época da turnê, Gilberto Gil foi preso em Florianópolis por porte de drogas, fato que acabou sendo registrado no documentário Doces Bárbaros, dirigido por Jom Tob Azulay.

Depois disso já foi feito outro filme comemorativo, DVD, enredo da escola de samba GRES Estação Primeira de Mangueira em 1994 com a canção Atrás da verde e rosa só não vai quem já morreu (paráfrase da música Atrás do trio elétrico, lançada por Caetano em 1969), já comandaram trio elétrico no carnaval de Salvador, fizeram espetáculos na praia de Copacabana e uma apresentação para a Rainha da Inglaterra.



Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, interpretam a música "Fé cega, faca amolada", composta por Milton Nascimento e Ronaldo Bastos

DOCES BÁRBAROS por Caetano Veloso


A gente (eu, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa) nem sabe direito porque se juntou para fazer este 'show' em conjunto. Porque a gente já é há tanto tempo... O engraçado é que a gente agora virou os quatros sob um nome só: Doces Bárbaros.

Outro dia, conversando com Gilberto Gil, eu disse: "Acho que a gente agora é um grupo porque foi ficando cada vez mais parecidos uns com os outros, até fisicamente".

Quando eu era menino, e mesmo quando adolescente, eu e Maria Bethânia não éramos dois irmãos parecidos: até o contrário, éramos desses irmãos de tipos diferentes dentro de uma família de muitos irmãos.

E no entanto, hoje em dia, na contra-capa do 'long-play' de Gal e Caymmi, eu vi uma foto de Gal em que eu achei ela parecida comigo.

Quando eu e Maria Bethânia viemos para São Paulo em 1965 e que Bethânia foi fazer o espetáculo Opinião, Gilberto Gil já estava morando lá e Gal foi passar uns tempos conosco.

Gal tinha o cabelo curto e fisicamente era completamente diferente de Maria Bethânia. Mas as pessoas viam Gal na rua, apontavam o dedo para ela e diziam: "Olha lá a Maria Bethânia".

A gente ficava assustado porque achava que Gal e Maria Bethânia eram duas pessoas totalmente diferentes. Que as pessoas deviam achar uma parecida com a outra assim como a gente acha um japonês parecido com o outro.

Gil, por sua vez, era gordo, não tinha ângulo nenhum no corpo e comia muito, muitíssimo.

Depois, ele fez macrobiótica, emagreceu e foi ficando com o corpo muito parecido com o meu, que é muito parecido com o corpo de Bethânia.

Tempos mais tardes, quando apareceu o grupo Novos Baianos, a gente (eu, Gal, Gil e Bethânia) ainda não se achava parecido.

Mas quando eu voltei de Londres falava-se muito no "morro da Gal, nas dunas do barato" e constatei que Gal Costa tinha criado uma moda, um modo de ser, de vestir, de usar o cabelo.

Foi mais ou menos nesta época que 'O Pasquim' começou a reclamar como quem reclama contra a raça. Aliás, uma das canções mais lindas dos Novos Baianos dizia: "Saindo dos prédios para a praça, uma nova raça..."

Depois, todo mundo viu, na televisão, o Chico Anísio fazendo uma imitação do baiano e eu acho que ele fazia muito bem, de um modo bonito. De maneira que a gente, aos olhos dos outros, já era, sem saber, os Doces Bárbaros.

Mas não só a gente mesmo não se achava parecida ainda, como também estava mais do que nunca cada um individualizando tudo o que fazia. Talvez foi por isso mesmo que a gente tenha conseguido agora se tornar capaz de ser um grupo, resultado de nossas vivências comuns e separadas durante todos esses anos em que fazemos música.

De modo que Doces Bárbaros é uma coisa que se formou em nós, através de nós e até mesmo a despeito de nós. É uma nova raça.

As músicas que iremos tocar e cantar são todas nossas, com exceção de algumas de outros autores, como Caymmi, Milton Nascimento e Herivelto Martins. A partir do 'show', gravaremos um 'Long-play'. Gostaria também de mencionar todos os músicos que vão tocar com a gente. Na guitarra, Perinho Santana, no contrabaixo, Arnaldo Brandão, na bateria, Chiquinho Azevedo, no piano, Tomás, na percussão, Djalma Correia, na flauta e saxofone, Tuzé e Mauro.

Se eu fosse lembrar a nossa história, digo, a história de Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e eu, eu teria de falar no Teatro Vila Velha, de Salvador, em uma porção de coisas que todo mundo já sabe e talvez até em algumas que ninguém sabe.

Ia falar também em Roberto Santana, que me apresentou a Gilberto Gil, em Álvaro Guimarães, que faz cinema e teatro e, de uma certa forma, me levou a fazer música, em Maria Muniz, em mil outras gentes.

Mas se eu quiser mesmo contar ou resumir a história dos Doces Bárbaros, vou ter que falar talvez em outros planetas, em outras dimensões, em coisas que nem sei...

Mas para as pessoas que já nos vêem como um grupo há tanto tempo, ou seja, como um punhado de gente que tem características comuns, mesmo físicas, Doces Bárbaros não é senão o óbvio. Para nós, é a maior novidade. E é tudo igual.

Somos muito diferentes uns dos outros. Todo mundo sabe que fui eu que escolhi o nome de Maria Bethânia. Eu tinha quatro anos quando ela nasceu. Por isso, ela, necessariamente, aprendeu muito comigo. Mas ela é estruturalmente uma rebelde e terminou me ensinando as coisas fundamentais desta vida.

Gal, eu encontrei pronta. Uma vez, há tanto tempo que nem me lembro mais, ela cantou uma música qualquer e eu disse que ela era a maior cantora que já surgiu no Brasil.

Quando morava na Bahia, eu ouvia João Gilberto dia e noite e eu ouvia João Gilberto dia e noite. Quando nos vimos pela primeira vez, já eramos, musicalmente irmãos.

Hoje em dia, Gilberto Gil está refazendo a cabeça de todo mundo. Um dia, Rogério Duarte (que também teve grande importância nesta história toda) falou que Gil era o profeta e eu o apóstolo. Entre outras coisas, acho que a gente trabalhar em grupo está sendo maravilhoso, porque nós três vamos aprender e estamos aprendendo muito com Gil. Acho que ele é mesmo o mestre. Gilberto Gil faz e refaz a cabeça de todo mundo.

Vocês, que me lêem, já ouviram falar em 'supergroups'? Pois bem, Doces Bárbaros é um subgrupo. No sentido de um grupo étnico. Ha-ha-ha-ha!

E agora eu pergunto a mim mesmo: como será a nossa cara? Queremos ser Doces Bárbaros assim como o doce de jenipapo é um doce bárbaro! Gilberto Gil disse que ele é cocada-puxa e que eu sou 'amada', um doce que se faz na Bahia usando gengibre, farinha de mandioca e rapadura.

Para mim, Gal Costa é centro. O meio de tudo. A voz. A voz da qual nós (inclusive ela - todos os bárbaros doces) somos apenas vozes.

Mas que horda é esta que vem do planeta terra bahia, todos os santos? Está bom. Os ensaios estão bem calmos, nos divertimos e cantamos canções cantáveis. E, para finalizar, não há nada que eu possa dizer sobre qualquer um de nós que ajude a me dar, a te dar, a dar a todo mundo uma idéia do que seremos.

Caetano Veloso
Revista "Ele e Ela"
junho de 1976

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