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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

10 de março de 2010

Maria Bethania - ANOS 60

"Pouco antes de eu completar quatro anos de idade, nasceu nossa irmã mais nova, para quem eu escolhera o nome de Maria Bethânia, por causa de uma bela valsa do compositor pernambucano Capiba, que começava com estas linhas majestosas e, à época, indecifráveis para mim: "Maria Bethânia, tu és para mim/ a senhora do engenho", e era grande sucesso na segunda metade da década de 40, na voz potente de Nelson Gonçalves. Naturalmente todos achavam graça no fato de eu saber cantar canções de gente grande, e mais ainda na minha determinação de nomear minha irmãzinha segundo uma dessas canções. Mas ninguém se sentia com coragem de realmente pôr esse nome "tão pesado" num bebê. Como havia várias outras sugestões (iam de Cristina a Gislaine), meu pai resolveu escrever todos os nomes em pedacinhos de papel que, depois de dobrados, ele jogou na copa de meu pequeno chapéu de explorador e me deu para tirar na sorte. Saiu o da minha escolha. Meu pai então pôs um ar resignado (que era uma ordem para que todos também se resignassem) e disse: "Pronto. Agora tem que ser Maria Bethânia" E saiu para registrar a recém-nascida com esse nome. Recentemente, ouvi de minhas irmãs mais velhas uma versão que diz que meu pai escrevera Maria Bethânia em todos os papéis. Não é de todo improvável. E, de fato, na expressão resignada de meu pai era visível - ainda hoje o é, na lembrança - um intrigante toque de humor. Mas, embora me encha ele orgulho o pensamento de que meu pai possa ter trapaceado para me agradar, eu sempre preferi crer na autenticidade do sorteio: essa intervenção do acaso parece conferir mais realidade a tudo o que veio a se passar desde então, pois ela faz crescerem ao mesmo tempo as magias (que nos dão a impressão de se excluírem mutuamente) do presságio e da unicidade absolutamente gratuita de cada acontecimento."
Caetano Veloso

Maria Bethânia Vianna Telles Veloso nasceu geminiana no dia 18 de junho de 1946, em Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo Baiano. Filha de Seu Zeca Veloso, o "Onça", funcionário dos Correios e Telégrafos e de Dona Canô, a força transformadora da terra no pequeno corpo de mulher, nasceu no sobrado na Rua Direita, em cima do local onde seu pai trabalhava. Desde criança, convivendo com os irmãos Rodrigo, Roberto, Caetano, Clara, Mabel, Nicinha e Irene, já demonstrava o que seria a sua marca definitiva - a força dramática, as atitudes apaixonadas, a determinação, a energia telúrica. Queria ser atriz, subir ao palco para representar. Respirava, incentivada pelo fértil ambiente de casa, a mágica atmosfera da arte, a sensibilidade das pequenas grandes coisas da vida, a descoberta da leitura do mundo em suas cores, gestos, palavras e sons.


Em 1960, com 14 anos incompletos, muda-se com o irmão Caetano para Salvador, capital do Estado da Bahia, para continuação dos estudos. Apesar de resistir às mudanças, de querer continuar vivendo em sua terra natal, por determinação dos pais, troca a tranqüila Santo Amaro pela Bahia, nome que os baianos do interior dão à cidade de Salvador. Talvez ainda não soubesse que na movimentada e criativa vida cultural de Salvador no início dos anos 60 fosse encontrar o primeiro palco de sua vida artística.

   " A primeira vez  que eu cheguei aqui em Salvador, se eu não me engano, cheguei de vapor, porque minha cidade, Santo Amaro, quando eu era menina, ainda era porto, o porto funcionava e nós íamos para a Bahia de vapor. Essa coisa de chamar Salvador de Bahia é bem do interior, bem típico daqui. Eu não consigo até hoje chamar Salvador assim com espontaneidade. Chamo Bahia, Eu vou à Bahia".

     " Eu agora tenho que praticar o que aprendi com minha mãe Canô. Creio que ninguém conseguiu ensinar melhor do que ela. Como uma árvore deu suas mudas e exige delas a mesma grandeza imponência e sabedoria. Nunca proibiu ou reclamou quando lhe tiraram os filhotes".

    "Nossa Senhora da Purificação é a minha santa, minha devoção, ela é o que tem de mais bonito para mim no mundo, em todo o mistério do mundo, em tudo que eu já ouvi de catecismo, de candomblé, tudo para mim".

    "O reflexo de maior beleza está em Nossa Senhora da Purificação, o que ela representa, a maternidade, a bondade, a simplicidade. "Maria de todas as horas" como minha irmã Mabel disse tão lindamente. Nasci nas mãos dela, vivo nas mãos dela e morrerei nas mãos dela. Minha Nossa Senhora é linda demais, mãe puríssima".
Maria Bethânia

A vida que parecia tão desinteressante em Salvador transforma-se rapidamente. Da imobilidade do olhar diante das calmas águas do Dique do Tororó, Bethânia, acompanhada pelo irmão Caetano, descobre o inquietante e fervilhante ambiente cultural da cidade - os trabalhos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, as mostras de artes plásticas, os grupos de cinema, os shows de música, as discussões intelectuais e o movimento estudantil. A Bahia, como todo o Brasil, vivia um poderoso momento de criatividade e de transformação cultural, ancorado em um debate aberto sobre as tendências contemporâneas em todos os campos.

Em 1963, Caetano é convidado pelo amigo Álvaro Guimarães para musicar a peça Boca de Ouro, de Nélson Rodrigues. Na abertura da montagem, Bethânia sobe ao palco para cantar pela primeira vez em público a canção Na Cadência do Samba de Ataulfo Alves. Neste mesmo ano, os irmãos conhecem Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e tantos outros que iriam marcar em definitivo a Música Popular Brasileira, influenciados pela Bossa Nova e, principalmente, por João Gilberto.
Em 1963, Caetano é convidado pelo amigo Álvaro Guimarães para musicar a peça Boca de Ouro, de Nélson Rodrigues. Na abertura da montagem, Bethânia sobe ao palco para cantar pela primeira vez em público a canção Na Cadência do Samba de Ataulfo Alves. Neste mesmo ano, os irmãos conhecem Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e tantos outros que iriam marcar em definitivo a Música Popular Brasileira, influenciados pela Bossa Nova e, principalmente, por João Gilberto.

A partir daí e no ano seguinte, o grupo apresenta-se nos espetáculos Nós por Exemplo, Nova Bossa Velha Velha Bossa Nova e no show Mora na Filosofia.

O golpe militar de 1964 parecia interromper bruscamente a movimentação cultural efervescente na época. Mas, ao contrário, as forças de resistência e os núcleos de criação multiplicaram-se. Um dos espetáculos de maior importância naquele momento histórico foi o Show Opinião, idealizado, escrito e produzido por Oduvaldo Vianna Filho, Ferreira Gullar, Paulo Pontes e Armando Costa e dirigido por Augusto Boal. Estreou no Rio de Janeiro com a cantora Nara Leão, e os compositores e cantores João do Vale e Zé Kéti. Em 65, Nara foi substituída por motivo de doença por uma jovem cantora nordestina de voz grave, chamada Maria Bethânia, que estreou profissionalmente no dia 13 de fevereiro. Cantando Carcará, música de João do Valle, Bethânia arrebatou público e crítica e fincou raízes em definitivo naquele que é até hoje o seu lugar do sagrado e do mistério da criação - o palco. Continua a viagem que se iniciou no vapor de Cachoeira. Continuou pela beira de mar e agora se prepara para conquistar mares nunca dantes navegados.

No mapa de suas navegações, participa, em 66, ao lado de Gal, Gil, Caetano, Pitti e Tom Zé dos shows Arena Canta Bahia e Tempo de Guerra, dirigidos por Augusto Boal. No mesmo ano, apresenta-se com Gilberto Gil e Vinicius de Mores, o poeta que emprestou a sua lírica às harmonias de Tom Jobim e com João Gilberto representaram o tripé da Bossa Nova, no show Pois É. Defende a música Beira Mar, de Caetano e Gil, em setembro do mesmo ano, no I Festival Internacional da Canção, também no Rio. Já havia gravado dois compactos, além dos discos Maria Bethânia e Maria Bethânia canta Noel Rosa, todos em 1965.

Em 1967 grava o disco Edu Lobo e Maria Bethânia e realiza uma série de shows em teatro no ano seguinte, vários dos quais seriam transformados em discos - Recital Boite Cangaceiro; Recital Boite Barroco; Yes, Nós temos Maria Bethânia; Comigo me Desavim, primeiro show dirigido por aquele que seria o seu diretor mais constante - Fazi Arap; Recital na Boite Blow Up; Brasileiro Profissão Esperança. Em 1968, grava um disco com Caetano e Gil, em que canta somente cações de Noel Rosa.

     "...o tempo e som são os grandes deuses incombatíveis. Só por serem abstratos, já se dizem e se provam. Chegam até nós e nos modificam como bem entendem...doces, escorregadios, excitantes; de todos os modos. Mostram e escondem tesouros. Provocam e acalmam. Escaravelhos dourados, provocando poentes, nascentes, conforme as necessidades".

    "Só canto o que quero, com quem quero, como quero e quando quero. Nunca entendi nenhum movimento, porque não tenho paciência, não posso jamais ser uma cantora de bossa nova. Uma cantora de protesto, uma cantora tropicalista. Como cada dia eu quero cantar uma coisa, prefiro não me ligar à nada e a ninguém, para poder cantar o que o meu coração mandar".
Maria Bethânia

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