Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

5 de maio de 2010

QUANDO FUI OUTRO Fernando Pessoa






... É um livro em que os heterônimos se escondem para que nos aproximemos de Fernando Pessoa, o outro que se multiplicava em identidades diferentes para se compreender, para decifrar o mundo e, também, provalmente para se ocultar...


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo...


... Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro...


... Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?...

"Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para
mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas.
Talvez, porque a sensualidade real não tem para mim interesse de
nenhuma espécie – nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o
desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de
outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de
Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias,
fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou
tendo. Tal pagina, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia
sintática, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de
coisa movida.
Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim,
em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas
vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que
as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases
sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida,
esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem,
tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as idéias, as
imagens, trêmulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de
sedas esbatidas, onde um luar de idéia bruxuleia, malhado e confuso.
Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa
que me têm feito chorar."


Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ai campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que eu sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a historia não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem me em mim...
Em quantas mansardas* e não-mansardas no mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas –
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem sabe conquistas
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo.
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma
parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.

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