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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

4 de junho de 2010

INFECÇÃO DA MEMÓRIA - TRANSGRESSÕES ESTÉTICAS DE MARIA BONOMI


Para Geraldo Ferraz, um dos mais importantes críticos de todos os tempos da arte brasileira, as obras de Maria Bonomi “falam sozinhas, marcam seu aparecimento, sua fulgurante presença e seu valor por si sós. (...) Não obstante, não serão gravuras simples. São as mais complexas que já se produziram no quadro de nossa última geração de gravadores, e seu mérito está nos índices de possibilidade que elas atingem, nas dificuldades que superam e nessa vitalidade perene que nelas palpita”.

Maria Bonomi é uma artista que está o tempo todo à procura de novas possibilidades de se pensar a arte. Independente, livre de modismos epocais, constantemente redimensiona o já estabelecido, cristalizado da gravura convencional. Atenta às transformações tecnológicas e sociais, sem saudosismo, incorpora cores, técnicas e materiais contemporâneos que reforçam ainda mais a necessidade de se idealizar uma nova gráfica.

De maneira geral, a xilogravura representou, para um número significativo de gravadores brasileiros, apenas uma experiência inicial, limitada. No entanto, Maria Bonomi, ao adequar a xilo à contemporaneidade, transformou-a em experiência permanente, um ensaio ilimitado, possível somente aos verdadeiros criadores. Um grande desafio, vencido pela artista, considerada, internacionalmente, uma renovadora dessa secular expressão plástica.

Nas últimas décadas, as transformações técnicas desenvolvidas pela gravadora são marcantes: das pequenas matrizes (do princípio de sua iniciação à xilogravura pelas mãos atentas, afetivas e firmes de Lívio Abramo, seu grande incentivador e amigo) para as gravuras de grandes formatos – do intimismo das obras iniciais, destinadas a uma leitura individual, de distanciamento limitado, para os painéis urbanos de arte pública, de grandes formatos e de ampla fruição estética, proporcionada democraticamente à população em geral. Com ousadia desmitifica todos os conceitos preestabelecidos sobre a natureza da xilogravura.

Depois de receber, com grande destaque, o Prêmio Melhor Gravador Nacional, outorgado pela 8ª Bienal Internacional de São Paulo, Maria Bonomi foi convidada, em 1967, para participar da 5ª Bienal dos Jovens (em Paris), mas, na hora de instalar suas obras, a artista ficou perplexa, pois os organizadores daquela conceituada exposição (na época a mais importante mostra de arte contemporânea da Europa) haviam reservado vitrines e mesinhas para todos os gravadores selecionados exporem suas obras. Indignada protestou: “Se a pintura saíra do cavalete, a escultura saíra do pedestal, queria que explicassem por que a gravura tinha de ficar ainda nas tais mesinhas? Foi um incidente terrível.” Apoiada pelo pintor brasileiro Antonio Bandeira, que residia em Paris, Maria Bonomi arranjou um martelo e pendurou suas gravuras de grandes formatos (incomuns até então) nas paredes da Bienal de Paris, um grande impacto para o público e para a crítica especializada. No dia seguinte, a artista ganhou o principal prêmio de gravura da mostra.

As rupturas e os desafios acompanham toda a carreira dessa audaciosa artista. Não olvidar o passado, acompanhar o presente e vislumbrar o futuro são os principais mandamentos de Maria Bonomi. Esteticamente, nada a intimida. O que a incomoda são os desgovernos, todo e qualquer tipo de censura e a permanente injustiça social.

O prêmio alcançado na Bienal de Paris lhe abriu as portas para participar como convidada de significativas mostras no Brasil e no Exterior. Até hoje, Bonomi é a gravadora brasileira que recebe o maior número de convites e homenagens internacionais.

No entanto, o aplauso da crítica, do público e o sucesso comercial de suas obras não a impediram de enfrentar novos desafios estéticos. Assim, contrariando todo e qualquer tipo de padronização e hieratismo, imprime suas xilogravuras em dimensões próximas à escala humana, num diálogo direto com a arquitetura. Rompimento definitivo às convenções ultrapassadas, que conferiam à gravura mera função anexa, posterior. Um divisor de águas na história da xilogravura brasileira: o antes e o depois de Maria Bonomi.

Nos difíceis anos de 1970, em oposição à opressão da ditadura militar brasileira, emblematicamente incorpora os caracteres sígnicos em suas obras: sentimento social/gravuras manifestos. Em 1971, sua xilogravura A Balada do Terror, apresentada em Munique – onde a artista realizava uma exposição individual, pelo simbolismo e repúdio à tirania –, foi destaque internacional.

Além das gravuras de grandes formatos, a partir de 1964, Maria Bonomi descortina uma nova maneira de se utilizar a matriz de uma gravura, transformando-a em módulo, que durante a impressão se repete, se fraciona e se movimenta em várias direções. Numa entrevista, a autora explicou como chegou a este procedimento. Curiosamente, isso aconteceu de uma experiência com o som e, ao ver uma sonoplasta cortar e editar fitas magnéticas, a artista pensou: “Se um som pode ser assim elaborado, transformado, ‘retransposto’, por que não uma matriz? E já que podia se movimentar, resolvi alterar a dinâmica dessas linhas, a vibração daqueles fundos, de modo a conseguir a maior eloqüência da linguagem.” Uma nova violação às regras preestabelecidas da composição xilográfica, que redimensiona, mais uma vez, sua produção plástica.

Nesta exposição organizada pela Bolsa de Mercadorias & Futuros, a artista apresenta as gravuras emblemáticas dos anos de 1970 e 1980 em contraponto a sua obra atual: Frottages Verticais auferidas das matrizes do painel Epopéia Paulista, instalado na Estação da Luz, em São Paulo: site specific art relevo, de 73 metros de comprimento e 3 metros de altura, em que o sulco primordial da xilogravura, concretado, se projeta na cidade que o abraça e o integra como mais um elemento documental, insubstituível, inseparável da memória paulistana – historicidade e magia formal.

Forma e conteúdo, infectados pela memória do local, induzem o usufruidor daquele painel, num descontínuo movimento, a se apropriar de sua autoria, já compartilhada pela artista, com todos os participantes, que, durante três meses, a seu lado, no Museu de Arte Contemporânea da USP, infectaram, com seus gestos gráficos e com sua memória, a finalização do grande projeto idealizado para celebrar os 450 anos de fundação da cidade de São Paulo.

Composto de dois polípticos integrados às imagens e aos sons de dois vídeos simultâneos, o site specific art Infecção da Memória, independente de uma única autoria ou contaminado por inúmeras autorias, repercute diretamente – por seus aspectos estéticos, vivenciais, históricos, cotidianos e, em especial, por suas múltiplas possibilidades de leituras – no imaginário das pessoas, potencializando intelecções “das contradições contemporâneas no âmbito ético, estético, territorial, político, cultural, filosófico etc. etc.”

Uma exposição aberta, provocativa, um convite à participação do público (que poderá inclusive levar para casa fragmentos impressos do painel).

Infectada pelo painel Epopéia Paulista, a instalação Infecção da Memória refaz, indiretamente, em sua gênese, o processo criativo da própria artista: o que era matriz transforma-se em painel/relevo. O relevo converte-se em uma nova matriz primicial para as gravuras/frottages desta exposição. Um ciclo estético, mágico, alcançado pelas transgressões estético-formais de uma artista que não rejeita os desafios e as provocações plásticas da nova gráfica contemporânea.

João J. Spinelli
Curador

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