Filha de Persephone

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Brasília, DF, Brazil
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

31 de agosto de 2010

TUDO BEM

Sinopse

O filme mostra uma típica família de classe média às voltas com a reforma do apartamento. O chefe é Juarez (Paulo Gracindo), aposentado sempre cercado pelos fantasmas de amigos que morreram. Sua esposa, Elvira (Fernanda Montenegro), não aceita sua impotência e acredita que ele tenha uma amante. E tem os filhos: Zé Roberto (Luiz Fernando Guimarães), executivo oportunista, e Vera Lúcia (Regina Casé), preocupada apenas em encontrar marido. Aparecida de Fátima (Maria Sílvia), uma das empregadas, é mística fervorosa, enquanto que Zezé (Zezé Motta) é prostituta nas horas vagas. Quando Elvira resolve reformar o apartamento e um bando de operários passa a conviver com a família, o pandemônio e a mistura de tipos se completam.

Informações Técnicas

Título no Brasil: Tudo Bem
Título Original: Tudo Bem
País de Origem: Brasil
Gênero: Comédia
Classificação etária: 18 anos
Tempo de Duração: 111 minutos
Ano de Lançamento: 1978
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.: Versátil Home Vídeo
Direção: Arnaldo Jabor

Elenco

Fernanda Montenegro .... Elvira Barata
Paulo Gracindo .... Juarez Ramos Barata
Maria Sílvia .... Aparecida de Fátima
Zezé Motta .... Zezé
Stênio Garcia .... Worker
José Dumont .... Piauí
Anselmo Vasconcelos .... Worker
Regina Casé .... Vera Lúcia
Luiz Fernando Guimarães .... José Roberto
Fernando Torres .... Giacometti
Luiz Linhares .... Pedro Penteado
Jorge Loredo .... Juarez's friend
Paulo César Peréio .... Bill Thompson
Wellington Botelho
Alvaro Freire


30 de agosto de 2010

Toda Nudez Será Castigada



“Toda Nudez Será Castigada”,
de Arnaldo Jabor
(1973)


Eixo temático

As sociedades de modernização hipertardia no século XX tendem a ser precoces em sua explicitação de formas degradadas de sócio-reprodutibilidade do capital. São sociedades burguesas que não conseguiram romper com o lastro do tempo passado, com tradições e valores pré-capitalistas (é como se os mortos governassem os vivos, como diria Auguste Comte, pai da sociologia e ideólogos genial da modernidade burguesa). Nas sociedades capitalistas hipertardias, tal dimensão de regressividade é atávica, permeando, inclusive, a própria modernização inconclusa. Na verdade, o tempo passado constitui o tempo presente e o tempo futuro. Estamos diante de uma construção do tempo social que imprime sua marca nas experiências de subjetividades complexas, determinando valores, expectativas sociais e escolhas ético-morais. A reprodução social ocorre através da construção da percepção da temporalidade - tempo passado, tempo presente e tempo futuro. Tais modos de temporalidades são condicionados pelas formas de objetivação sócio-histórico das relações sociais capitalistas. É através delas que ocorre o processo de subjetivação social. No caso de sociedades capitalistas hipertardias, as contradições do capital em suas formas exacerbadas, se transfiguram em tragédias quase-heróicas.

Temas-chaves: capitalismo hipertardio e tempo social; família, reprodução social e crise do capital; mulher e sociedade; valores e estranhamento social.

Filmes relacionados: “O Casamento”, de Arnaldo Jabor; : “Beleza América”, de Sam Mendes; “Festa em Família”, de Thomas Vintenberg; “Tempestade de Gelo”, de Ang Lee.

Análise do Filme

Baseada na peça homônima de Nelson Rodrigues, o filme Toda Nudez Será Castigada, dirigido (e com roteiro adaptado) por Arnaldo Jabor, é um drama de família. É uma crítica mordaz da subcultura da família de “classe média” no Brasil. O humor é meramente um recurso estilístico para expor as degradações e taras de uma sociabilidade barroca e hipócrita, típica de um capitalismo hipertardio de extração colonial-prussiana. Esse tipo de objetivação do capitalismo no Brasil criou uma sociabilidade perversa (e pervertida) em suas várias instâncias sócio-reprodutivas. O realismo desbragado de Nelson Rodrigues é sintoma dessa sociedade capitalista inconclusa em sua modernização tardia. É uma incompletude que atinge não apenas as estruturas de produção do capital, mas suas instâncias de reprodução social. Atinge não apenas as instituições políticas do Estado e da sociedade civil, com uma democracia representativa gelatinosa; mas a subjetividade corroída, invertida e problemática de homens e mulheres da “classe média”.

Na verdade, é através do drama de “classe média” que Rodrigues quer pensar o Brasil. A “classe média” sempre oscilou entre uma burguesia decrépita e um proletariado amorfo à sombra de um Estado populista. E é através das comédias de costume dessa classe média que Rodrigues tenta refletir a tragédia brasileira. O drama de humor caustico de Nelson Rodrigues reflete a subjetividade de uma modernização inconclusa, onde a instância sócio-reprodutiva da família pequeno-burguesa já se constitui em crise estrutural, totalmente incapaz de representar uma sociedade clivada de contradições atávicas pela inconclusão da questão democrática e da questão nacional.

Em “Toda Nudez Será Castigada”, a família é apenas uma referência esgarçada, e seus valores morais são mero adereços superficiais. Não existe uma família nuclear típica de uma sociedade burguesa com seus valores-fetiches. É da “classe média” que provém o imaginário da família burguesa. Mas o que Nelson Rodrigues procura devassar é a incapacidade da “classe média” brasileira em prover tal ideal de família e torna-los valores-fetiches de uma sociabilidade moderna plena. Sua narrativa expressa a total incapacidade da “classe média” em ser o lócus valorativo de uma instância sócio-reprodutiva fundamental: a família. É o descrédito absoluto na capacidade da reprodução social da modernidade capitalista no País.

Nelson Rodrigues é o grande arauto do fracasso da nossa modernização capitalista hipertardia. Ao adaptar para o cinema a peça teatral de Nelson Rodrigues, em 1973 (o ano-marco da “crise do milagre brasileiro”), Jabor prenuncia a tragédia brasileira que se desenvolveria nos trinta anos seguintes. Em “Toda Nudez Será Castigada”, a morte da esposa de Herculano e mãe dominadora do jovem Serginho cria um colapso existencial no seio de uma família de “classe média”. A mãe não aparece no filme, mas é citada como memória presente (o filho Serginho nutre uma obsessão exagerada pela mãe morta, exigindo do pai que ele não mantenha nenhuma relação sexual até a morte).

É a alegoria da presença aterradora do passado morto que pesa sobre os vivos que Nelson Rodrigues procura salientar nesse drama do rico viúvo Herculano. O passado é um fardo miserável para ele. Mesmo Geni, a prostituta pela qual ele irá se apaixonar, quando se suicida, deixa uma fita gravada, dizendo: "Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei". Novamente, Herculano está imerso entre mortos que lhe dominam. O que Rodrigues sugere é uma alegoria da tragédia das sociedades burguesas hipertardias, onde o arcaico convive com o novo. Deste modo, a memória da falecida mãe oprime tanto o pai, quanto o filho.

O filme começa com uma situação-limite: Herculano, um viúvo que pauta sua vida por rígidos códigos familiares e religiosos, não suporta mais o vazio existencial de um núcleo familiar esgarçado pela morte da mulher. Totalmente imerso em sua profunda depressão, continua decidido a manter-se fiel à mulher falecida. As tias, temendo que ele cometa suicídio, suplicam ao outro sobrinho, irmão de Herculano, Patrício (representado por Paulo César Pereio), que procure alguém para preencher o vazio existencial na vida de Herculano. Patricio, desempregado, dependente de Herculano, decide apresentar a ele uma prostituta, Geni (Darlene Glória). Para Patricio, o sexo é a solução para seu irmão, semi-virgem. É Patrício, o malandro, que introduz os elementos diruptivos da estrutura narrativa do filme (Primeiro, Geni, e depois, de modo indireto, o ladrão boliviano – o interessante é que os dois personagens são de origem popular).

O irmão de Herculano é a típica figura do malandro carioca, que vive às custas do irmão. Ao procurar uma amante para Herculano ele age por interesse próprio, pois se Herculano cometer suicídio ele perde seu sustento. Na peça teatral de Nelson Rodrigues, Patrício tem uma maior presença como um personagem mediador de elementos diruptivos da trama narrativa (o que não ocorre no roteiro adaptado de Arnaldo Jabor). Por exemplo, na peça original, é Patrício que cria duas situações decisivas para o destino do personagem Serginho (é ele que leva o filho de Herculano para ver o pai com Geni) e para o destino da personagem Geni (é Patrício que diz a Geni que viu Serginho fugindo num avião com o ladrão boliviano). A ultima situação não aparece no filme. É o surgimento de Geni que irá transtornar o viúvo Herculano e faze-lo romper, mesmo com dilaceramentos internos, com a memória angustiada do passado.

Na verdade, o personagem Herculano é cindido por dilemas antitéticos que Nelson Rodrigues nos apresenta de modo exagerado e que Jabor conseguiu traduzir no cinema através do desempenho magistral de Darlene Glória e Paulo Porto. Herculano é um personagem esquizóide, que oscila entre uma fidelidade doentia à sua mulher falecida, considerada por ele uma santa, que ele não xingaria nem em pensamento, e uma paixão sexual por Geni (durante a relação sexual com ela, totalmente inebriado, Herculano grita que a falecida era uma chata).

O filme é uma dança de extremos ético-morais: Castidade absoluta ou devassidão sexual. Não existe meio-termo na narrativa de Rodrigues. O exagero é um recurso estilístico de Nelson Rodrigues para apreender o drama trágico de uma sociabilidade capitalista inconclusa em seus valores modernos. Mas pode representar também a incapacidade que a “classe média” decadentista encontra para efetuar um tertium datur entre uma burguesia colonial incapaz de realizar a modernização plena e obrigada a conviver com o latifúndio e o proletariado gelatinoso, incapaz de consciência de classe e dependente do Estado populista.

Deste modo, Herculano oscila entre os valores barrocos de um catolicismo arcaico e a devassidão sensualista, absolutamente lúbrica, sem limites, representado por Geni e pelo bordel. Para resolver o impasse, Patrício, irmão de Herculano, sugere que Geni aproveite a paixão delirante de Herculano para exigir casamento. Só casando Herculano poderia possuir Geni (o casamento aparece como um valor inestimável do imaginário burguês: casando-se, Geni perderia, inclusive, o estigma de “puta”. Como afirmou uma das tias de Herculano ao ver Geni no altar com Herculano, “ela é virgem”). Mas para se casar, Herculano precisa fazer o filho Serginho aceitar o casamento.

Herculano, empresário bem-sucedido, para quem dinheiro não é problema, consegue romper com a memória da falecida e encontra em Geni, uma prostituta, a realização da sua felicidade sexual. Por outro lado, Geni encontra nele a realização de uma segurança material que nunca teve (a bela Geni tem sua obsessão – como todos os personagens de Rodrigues: a certeza de que sua morte viria de um câncer nos seios. Nem imagina que seu verdadeiro câncer é o pathos da “classe média”, representado por Herculano e Serginho). Serginho, o filho que vive da memória da mãe morta, não aceita que o pai tenha outras mulheres. Ao ver o pai com Geni, Serginho, totalmente transtornado, se dirige a um barzinho, bebe todas e provoca uma briga (a figura do “povo” aparecem no bar como totalmente hostil à elite branca dominante). Serginho é recolhido ao xadrex, o “depósito de presos”, como diz o delegado, e lá é estuprado por um ladrão boliviano (o segundo personagem diruptivo da narrativa).

Um detalhe: o personagem do delegado, representado por Hugo Carvana, aparece também num ato de infidelidade conjugal, conversando com a amante ao telefone na delegacia, totalmente obcecado por sexo. Na trama narrativa de Rodrigues, todos são infiéis e incestuosos até provem o contrário. O ato de estupro de Serginho pelo ladrão boliviano provoca uma nova inflexão na estrutura de um personagem central. O transtornado é Serginho que agora passa a aceitar o casamento do pai com Geni. Mas seus motivos são perversos: sem o pai saber, Serginho seduz Geni e passa a envolve-la e ser amante dela. É a forma que Serginho utiliza para “vingar” a infidelidade do pai: tornar-se amante da madrasta, da sua nova mãe (a sugestão incestuosa é explicita). O incesto como vingança. Mais tarde, Geni, apaixonada por Serginho, se transtorna e comete suicídio quando assiste Serginho fugindo de avião com o ladrão boliviano.

O que observamos é que a estrutura narrativa é marcada por inflexões drásticas nos personagens de “classe média”, onde o agente diruptivo são personagens do “povo” (Herculano conhece Geni e instaura-se uma nova situação; Serginho é estuprado pelo ladrão boliviano e surge uma outra situação nova). A inflexão repõe infidelidades fictícias ou reais (a infidelidade de Herculano, que é meramente fictícia; e a de Geni, que é real), além de sugerir um complexo de relações incestuosas (a relação de Serginho e Geni sugere uma relação do filho com a mãe). O final (o suicídio da prostituta) poderia ser considerado moralista. Mas é o sintoma de uma tragédia, de uma situação de absurdo inaceitável. Talvez a paixão diruptiva de Geni por Serginho e a sua traição com o ladrão boliviano é que tenha sido o motivo de seu suicido (Geni é fascinada pela jovialidade de Serginho: representação de um amor pelo filho?). É mais a dor de uma perda do que o absurdo da situação moral (a relação de Serginho com um ladrão pederasta). Mas a dor moral se confunde com a dor passional. Herculano talvez não tenha tanta dignidade existencial para cometer suicídio. Mas a meretriz, mulher do povo, a prostituta, é levada a tal gesto trágico. É ela, a representação do “povo”, que se sacrifica diante do altar de uma sociabilidade degradada.

A representação do “povo” em “Toda Nudez Será Castigada” é de uma massa amorfa, indiferente ao drama da “classe media” transtornada pelas suas taras barrocas. O “povo” está no bordel, em busca de satisfação sexual. e inclusive poética, com velhos solitários buscando as putas; e na via pública com seus rostos anônimos e espectadores da euforia de Geni (é numa esquina de grande movimentação de pedestres que Geni pede Herculano em casamento); ou no boteco, onde Serginho, transtornado por ter visto Herculano com Geni, agride uma figura popular (que expressava seu desprezo pela elite branca do país); no “depósito de presos” ou cela de uma delegacia, onde Serginho é estuprado por um ladrão boliviano sendo assistido pelos demais presos brasileiros, que cantam “Bandeira Branca” (o fato de Serginho ter sido estuprado por um boliviano talvez seja a representação da incapacidade do povo “estuprar” sua própria “classe média” – a passividade do povo é expresse até nisso).


Um outro drama familiar de “classe média”, produzido nos EUA, em 1999, Beleza Americana possui, como seu mote promocional, a expressão “look closer” (olhe bem de perto). “Toda Nudez Será Castigada” como drama de uma sociabilidade estranhada e pervertida, possui também seu mote narrativo quando Geni grita com Herculano, o pater famílias estranhado: “Você pensa que sabe tudo, mas não sabe nada Herculano”, brada Geni. Novamente é a personagem feminina acusando o macho dominador, decadente, pela sua cegueira visceral (é curioso que, de certo modo, é o que diz Nicole Kidman como Alice, para Tom Cruise como William Harford, em De Olhos bem Fechados, de Stanley Kubrick). Herculano é cego para seus gestos de infidelidade de Geni com o Serginho e cego para com a perversão sexual de Serginho com o ladrão boliviano. Enfim, é cego para a dissolução da família como núcleo orgânico (uma dissolução pressuposta, mas ainda não realizada).

Mesmo casando-se e constituindo o núcleo orgânico estável (a família e o casamento como elemento conservador), a instabilidade interna, de traições, infidelidades e perversões, estava latente. É a crise orgânica latente que implode o universo de “classe média”, incapaz de se recompor diante de uma sociabilidade devassada. O sacrifico de Geni e a loucura de Herculano transmitem a tragédia brasileira. Realça o ambiente barroco, decadente onde transitam os personagens. Figuras greco-romanas se amontoam sob poeira na mansão de Herculano. São ambientes mal-cuidados, retratando que o drama de “classe média” é uma drama decadentista, como parece prenunciar o Brasil em 1973.

O filme anuncia o decadentismo brasileiro e por isso “Toda Nudez Será Castigada” é mais atual do que nunca. A musica de Astor Piazolla dá um tom de tango portenho a um drama brasileiro. Mais tarde, em 1975, Jabor iria filmar “O Casamento”, outra peça de Nélson Rodrigues, onde transmite a verdade que se esconde sob a aparente felicidade burguesa: injustiças, perversões sexuais, adultério, crimes e até incesto. Aqui o fetiche é diluído por si e em si. Tudo é contado de uma maneira tempestuosa, por vezes chocante, misturando lágrimas e gargalhadas, ópera com comédia, paixão com loucura. Em “Toda Nudez Será Castigada”, pelo contrário, não existe o fetiche e quando ele existe é diluído em sórdida ironia. Na verdade, existe a exposição crua e direta de uma sociabilidade familiar decrépita.

Giovanni Alves (2003)

27 de agosto de 2010

EU TE AMO Arnaldo Jabor

EU TE AMO Arnaldo Jabor


Sinopse

Grande sucesso de público nos anos 80, Eu Te Amo é uma fantasia romântica sobre o desejo e a paixão. Tudo se passa dentro de um apartamento fantástico, como um caleidoscópio ou um palácio de espelhos, onde os delírios do amor e do sexo se refletem num ritmo alucinante. É a história de um homem, industrial falido no milagre dos anos 70, e de uma mulher que desejam desesperadamente se amar e que, ao mesmo tempo, têm um medo brutal desse encontro. Eu Te Amo começa como drama psicológico, evolui para a comédia e erotismo e acaba como um grande delírio musical.

Informações Técnicas
Título no Brasil: Eu Te Amo
Título Original: Eu Te Amo
País de Origem: Brasil
Gênero: Romance
Classificação etária: 18 anos
Tempo de Duração: 106 minutos
Ano de Lançamento: 1981
Site Oficial:
Estúdio/Distrib.: Versatil
Direção: Arnaldo Jabor

24 de agosto de 2010

REALJABOR

ARNALDO JABOR - Estou nascendo hoje na internet
O GLOBO - 24/08/2010


Afinal, quem sou eu? Descobri que há vários jabores dando sopa na web. Uma vez, disse aqui que jamais entraria nos Twitters da vida, nos Orkuts do pedaço, nos Facebooks da quebradas...
Claro que dá pra ficar fora dessas "redes sociais", mas sinto-me isolado como aqueles caras que se recusam a ver televisão para defender sua "individualidade". No entanto, que individualidade, que "eu" se manteria "puro" e protegido longe da TV ou fora da web hoje? Que "eu" sobraria? Não há um "eu" sozinho - esse sonho de pureza e originalidade acabou. O "eu" é feito de detritos de lembranças, de sonhos, de traumas, mas também é fabricado pelas coisas. A pílula fez mais pelo feminismo que mil livros de militância. A internet criou um "eu" que muda dia a dia como uma máquina que vai se modernizando, recebendo novas engrenagens. Em vez de aniversários, em breve, vamos comemorar aperfeiçoamentos: "Estou comemorando mais 8 gigabytes em minha alma!"
Aliás, acho bom que a internet acabe com as ilusões individualistas que sempre tivemos - de sermos puros e únicos. A verdade é que somos parte de um processo de mutação permanente, e não por "auto-análise", mas pelos avanços da tecnociência. Assim como a biotecnologia cria seres híbridos, somos cada vez mais híbridos... Somos de carne, osso, chips e tocados por milhões de "outros eus" em rede. Rimbaud escreveu: " O eu é um outro". E o grande Mario de Sá-Carneiro, poeta português melhor do que os uivos lamentosos de Fernando Pessoa, também escreveu:
"Eu não sou eu nem o outro/ sou qualquer coisa de intermédio/ pilar da ponte de tédio/ que vai de mim para o outro." Sujeito e objeto se confundem cada vez mais. Além disso, eu também achava que a cultura humana era uma galáxia infinita de pensamentos e obras. O Google acabou com esse sonho infinito. Tudo se arquiva, se ordena. O futuro, como um lugar a que chegaríamos um dia, também morreu. Só há um presente incessante, um futuro minuto a minuto, e não temos ideia de aonde chegaremos porque não há aonde chegar...
Bem, amigos, todo este "showzinho" de reflexões individualistas é, na verdade, para comunicar que estou entrando no Twitter. Resolvi. "Não quero mais ser eterno, quero ser moderno". Eu, que até pouco tempo só ia até o microondas (que sempre me puniu com apitinhos da porta aberta), eu, que tremo diante de um celular, mudei muito. Saibam que comprei um iPhone e que vou postar coisas no Twitter, que se chamará "realjabor".
O nome será esse porque já existe no Twitter um cara que usa meu nome... Existe um "jabor" imaginário com, pasmem, 121 mil seguidores... Não o digo por gabar-me, mas há um jabor com milhares de amigos que não conheço. E aí, me pergunto: quem sou eu? E esse cara no Twitter - com 121 mil seguidores enganados - por que botou meu nome? Não é por inveja nem tietagem... Ele parece ser um bom sujeito pelas coisas que fala por mim; não há insultos nem frases que possam me incriminar com meus "seguidores"... (Se bem que ele "posta" também bobagens apócrifas que rolam na web, que me matam de vergonha). E ele? Quem será? Será que ele ama alguém? Quem lhe mandará flores se ele morrer de amores? Por que time ele torce? Como é seu rosto?
Vejam meu drama: eu, que não existo, acho boa praça um cara que não sei quem é... Por que ele não se assume? Eu estava nesta dúvida, quando se fez a luz e entendi: tanto faz ele ser ele ou ser eu. Esta terceira pessoa, meio eu, meio ele, existe no espaço virtual, e, assim, não importa o nome, pois, como disse acima, sujeito e objeto se confundem. Ser eu ou ele é um detalhe desprezível.
Aliás, suponho que esses milhares de seguidores sejam ao menos meus amigos... E aí, me ocorre a pergunta: o que é um amigo hoje? Como posso ser amigo de pessoas que nunca vi? Antes, amigos tomavam chope com a gente, davam conselhos, faziam confidências: "Pô, cara, minha mulher me traiu... Que que eu faço?" Era assim. Hoje, os amigos você não vê, não toca; os amigos são algoritmos.
As redes sociais estão mudando o conceito de amizade, de amor... A pior forma de solidão talvez seja o sexo virtual, a masturbação a longa distância... Nada mais triste que o post-coitum na internet: gozos, escape e "log off", com os orgasmos se esvaindo na velocidade da luz e a realidade manchando o papel higiênico e as mãos pecadoras.
Assim, aprendemos que temos de celebrar as parcialidades; só o fortuito é gozoso. Temos de parar de sofrer por uma plenitude que não chega nunca.
Aceitar a "incompletude" talvez seja a nova forma de felicidade. E isso é bom. A web nos mostra que, enquanto sonharmos com a plenitude, seremos infelizes. Nunca seremos acompanhados nem totalmente amados. As redes nos trazem uma desilusão fecunda. As redes sociais unem os homens em uma grande solidão.
Outra coisa que me intriga: dizer o quê nos tweets? O que é importante? Antigamente, se dizia: este filme é importante, este texto é importante... Mas, hoje, para quê? As revoluções clássicas já não existem, a ideia de reunir objetos para um museu do futuro já era. Não há mais algo a ser preservado para amanhã. A importância do futuro foi substituída pelas "conexões" no presente.
A própria ideia de "profundidade" ficou estranha... O que é profundo? Hegel ou o frisson de informar a 121 mil pessoas que acordei com dor de cabeça ou que detestei "A Origem"? As irrelevâncias em rede ganham uma densidade horizontal, uma superficialidade útil, ao invés de uma grandeza definitiva. Quantidade é qualidade, hoje.
Mas é óbvio que há uma grande vitória para a democracia nas redes sociais. Há pouco, o massacre de dissidentes no Irã escapou pela internet. As redes denunciam crimes, alavancam negócios, expandem a educação política.
Por isso, resolvi nascer. Estou nascendo hoje na web. Meus primeiro gemidos de recém-nascido começam hoje.

Chamo-me agora www.twitter.com/realjabor e vou competir com o outro jabor, o falso, que me criou sem me consultar.

23 de agosto de 2010

EU SEI QUE VOU TE AMAR Arnaldo Jabor



Um casal jovem resolve viver em duas horas um jogo da verdade sobre tudo o que já lhes aconteceu, numa psicanálise filmada com risos e lágrimas. Uma filmagem sobre o que seria um filme de amor.

Ficha TécnicaTítulo original: Eu Sei que Vou te Amar
Gênero: Drama
Duração: 104 min.
Lançamento (Brasil): 1986
Distribuição: Embrafilme
Direção: Arnaldo Jabor
Roteiro: Arnaldo Jabor
Produção: Helio Paula Ferraz e Arnaldo Jabor
Fotografia: Lauro Escorel Filho
Figurino: Glória Kalil
Edição: Mair Tavares

ELENCO:
Fernanda Torres
Thales Pan Chacon

20 de agosto de 2010

Crônica / Arnaldo Jabor - 15.4.07

MENINOS, EU VI...

VOCÊS VIRAM TAMBÉM, MAS ACHO QUE ESQUECERAM.

Eu vi as empregadas gritando, a cozinheira chorando, o rádio dando a notícia: "Getúlio deu um tiro no peito!"
Eu, pequeno, imaginava o peito sangrando - como é que um homem sai da presidência para o nada?

Meninos, eu ouvi, anos depois, no estribo de um bonde:
"O Jânio renunciou!"
Como? Tomou um porre e foi embora depois de proibir o biquíni, briga de galo e de dar uma medalha para o Che, eu vi a história andando em marcha a ré e eu entendi ali, com o Jânio saindo, que os bons tempos da utopia de JK tinham acabado, que alguma coisa suja e negra estava a caminho como um trem fantasma andando pra trás.

Depois, meninos, eu vi o fogo queimar a UNE, onde chegaria o "socialismo tropical", em abril de 64, quando fugi pela janela dos fundos, enquanto o General Mourão Filho tomava a cidade, dizendo:
"Não sei nada. Sou apenas uma vaca fardada!"

Eu vi, meninos, como num pesadelo, a população festejando a vitória do fascismo, com velas na janela e rosários na mão; vi a capa do "O Cruzeiro" com o novo presidente da República de boné verde, baixinho, feio, quem era?
Era o Castelo Branco e senti que surgia ali um outro Brasil desconhecido e, aí, eu vi as pedras, os anúncios, os ônibus, os postes, o meio-fio, os pneus dos carros, como um filme de horror; Eu, que vivera até então de palavras utópicas, estava sendo humilhado pela invasão do terrível mundo das coisas reais.

Depois, vi a tristeza dos dias militares, "Brasil ame-o ou deixe-o", a Transamazônica arrombando a floresta, vi o rosto patético de Costa e Silva,a gargalhada da primeira perua Yolanda, mandando o marido fechar o Congresso.
Vi e ouvi Jorge Curi na TV, numa noite imunda e ventosa de dezembro lendo o AI-5, o fim de todas as liberdades, a morte espreitando nas esquinas, a gente enlouquecendo e fugindo pela rua em câmera lenta, criminosos na própria terra;

Depois, vi o rosto terrível do Médici, frio como um vampiro, com sua mulher do lado, muito magra, infeliz, vi tudo misturado com a Copa do mundo de 70, Pelé, Tostão, Rivelino e porrada, tortura, sangue dos amigos guerrilheiros heróicos e loucos, eu sentindo por eles respeito e desprezo, pela coragem e pela burrice de querer vencer o Exército com estilingues;

Não vi, mas muitos viram meu amigo Stuart Angel morrendo com a boca no cano de descarga de um jipe, dentro de um quartel, na frente dos pelotões, enquanto, em S.Paulo, Herzog era pendurado numa corda e os publicitários enchiam o rabo de dinheiro com as migalhas do "milagre" brasileiro, enquanto as cachoeiras de Sete Quedas desapareciam de repente;

Depois eu vi os órgãos genitais do General Figueiredo, sobressaindo em sua sunguinha preta, ele fazendo ginástica, nu, para a nação contemplar, era nauseante ver o presidente pulando a cavalo, truculento, devolvendo o país falido aos paisanos, para nós pagarmos a conta da dívida externa.

Vi, as grandes marchas pelas "diretas" e vi, estarrecido, um micróbio chegando para mudar nossa história, um micróbio andando pela rua, de galochas e chapéu, entrando na barriga do Tancredo na hora da posse e matando o homem, diante de nosso desespero.

E eu vi então a democracia restaurada pelo bigodão de Sarney, o homem da ditadura, de jaquetão, posando de oligarca esclarecido;
Vi o fracasso do Plano Cruzado, depois eu vi a volta de todos os vícios nacionais, o clientelismo, a corrupção, a impossibilidade de governar o país, a inflação chegando a 80 por cento num único mês.

Meninos, eu vi as maquininhas do supermercado fazendo tlec tlec tlec como matracas fúnebres de nossa tragédia.
Eu vi tanta coisa, meninos, eu vi a inflação comer salários dos mais pobres a 2% ao dia.
Eu vi o massacre de miseráveis pela fome, ou melhor, eu não vi os milhões de mortos pela correção monetária, não vi porque eles morriam silenciosamente, longe da burguesia e da mídia.
Mas vi os bancos ganhando bilhões no over e no spread , dólares no colchão, a sensação de perda diária de valor da vida.

Eu vi a decepção com a democracia, pois tudo tinha piorado, eu vi de repente o Collor vindo de longe, fazendo um cooper em direção a nosso destino, bonito, jovem, fascinando os otários da nação, que entraram numa onda política "aveadada", dizendo:
"Ele é macho, bonito e vai nos salvar...".
Eu vi o Collor tascar a grana do país todo e depois a nação passar dois anos "de quatro", olhando pelo buraco da fechadura da Casa da Dinda, para saber o que nos esperava.
Eu vi Rosane Collor chorando porque o presidente tirara a aliança.
Eu vi a barriga de Joãozinho Malta, irmão da primeira-dama, dando tiros nas pessoas, eu vi a piscina azul no meio da caatinga, eu vi depois a sinistra careca de PC juntando o bilhão do butim.
Eu vi Zélia dançando o bolero com Cabral em cima de nossa cara, eu vi a guerra dos irmãos Collor, Fernando contra Pedro e, depois, como numa saga grega, eu vi o câncer corroendo-lhe a cabeça.

Eu vi o impeachment , eu vi tanta coisa, meninos, e depois eu vi, por acaso, por mero acaso, por uma paixão de Itamar, eu vi o FHC chegar ao poder, com a única tentativa de racionalidade política de nossa história num antro de fisiológicos e ignorantes.

E, aí, eu vi a maior campanha de oposição de nossa época, implacável, sabotadora, eu vi a inveja repulsiva da Academia contra ele, eu vi a traição de seus aliados, todos unidos contra as reformas, uns agarrados na corrupção e outros na sobrevida de suas doenças ideológicas infantis.

E agora eu vejo o estranho desejo de regresso ao mundo do atraso, do erro e das velhas utopias. Vejo a direita se organizando para cooptar a oposição, comendo-a, vejo um exército de oligarcas se preparando para a vingança, vejo ACM, Barbalhos e Sarneys prontos para tomar o Congresso de assalto, para impedir qualquer mudança e voltar aos bons tempos da zona geral.

Meninos, vocês viram também, mas acho que esqueceram.

Fenômeno Vanessão / 30 de abril de 2008

Arnaldo Jabor comentando ocorrencia policial envolvendo Ronaldo Fenomeno e as..." Vanessao da Vida"

18 de agosto de 2010

"Ninguém mais namora as deusas"/ Arnaldo Jabor

NINGUÉM MAIS NAMORA AS DEUSAS

MULHERES

Outro dia, a Adriane Galisteu deu uma entrevista dizendo que os homens não querem namorar as mulheres que são símbolos sexuais. É isto mesmo.
Quem ousa namorar a Feiticeira ou a Tiazinha?
As mulheres não são mais para amar; nem para casar. São para "ver".
Que nos prometem elas, com suas formas perfeitas por anabolizantes e silicones?
Prometem-nos um prazer impossível, um orgasmo metafísico, para o qual os homens não estão preparados...
As mulheres dançam frenéticas na TV, com bundas cada vez mais malhadas, com seios imensos, girando em cima de garrafas, enquanto os pênis-espectadores se sentem apavorados e murchos diante de tanta gostosura.
Os machos estão com medo das "mulheres-liquidificador".
O modelo da mulher de hoje, que nossas filhas ou irmãs almejam ser (meu Deus!), é a prostituta transcendental, a mulher-robô, a "Valentina", a "Barbarela", a máquina-de-prazer sem alma, turbinas de amor com um hiperatômico tesão.
Que parceiros estão sendo criados para estas pós-mulheres? Não os há.
Os "malhados", os "turbinados" geralmente são bofes-gay, filhos do mesmo narcisismo de mercado que as criou.
Ou, então, reprodutores como o Zafir, para o Robô-Xuxa.
A atual "revolução da vulgaridade", regada a pagode, parece "libertar" as mulheres.
Ilusão à toa.
A "libertação da mulher" numa sociedade escravista como a nossa deu nisso: Superobjetos. Se achando livres, mas aprisionadas numa exterioridade corporal que apenas esconde pobres meninas famintas de amor, carinho e dinheiro.
São escravas aparentemente alforriadas numa grande senzala sem grades.
Mas, diante delas, o homem normal tem medo.
Elas são "areia demais para qualquer caminhãozinho".
Por outro lado, o sistema que as criou enfraquece os homens.
Eles vivem nervosos e fragilizados com seus pintinhos trêmulos, decadentes, a meia-bomba, ejaculando precocemente, puxando sacos, lambendo botas, engolindo sapos, sem o antigo charme "jamesbondiano" dos anos 60.
Não há mais o grande "conquistador".
Temos apenas os "fazendeiros de bundas" como o Huck, enquanto a maioria virou uma multidão de voyeur, babando por deusas impossíveis.
Ah, que saudades dos tempos das bundinhas e peitinhos "normais" e "disponíveis"...
Pois bem, com certeza a televisão tem criado "sonhos de consumo" descritos tão bem pela língua ferrenha do Jabor (eu).
Mas ainda existem mulheres de verdade.
Mulheres que sabem se valorizar e valorizar o que tem "dentro de casa", o seu trabalho.
E, acima de tudo, mulheres com quem se possa discutir um gosto pela música, pela cultura, pela família, sem medo de parecer um "chato" ou um "cara metido a intelectual".
Mulheres que sabem valorizar uma simples atitude, rara nos homens de hoje, como abrir a porta do carro para elas.
Mulheres que adoram receber cartas, bilhetinhos (ou e-mails) românticos!!
Escutar no som do carro, aquela fitinha velha dos Beegees ou um cd do Kenny G (parece meio breguinha)...mas é tão boooom namorar escutando estas musiquinhas tranquilas!!!
Penso que hoje, num encontro de um "Turbinado" com uma "Saradona" o papo deve ser do tipo:
-"meu"... o meu professor falou que posso disputar o Iron Man que vou ganhar fácil!."
-"Ah "meu"..o meu personal Trainner disse que estou com os glúteos bem em forma e que nunca vou precisar de plástica". E a música???
Só se for o "último sucesso (????)" dos Travessos ou "Chama-chuva..." e o "Vai serginho"???...
Mulheres do meu Brasil Varonil!!! Não deixem que criem estereótipos!!
Não comprem o cinto de modelar da Feiticeira. A mulher brasileira é linda por natureza!!
Curta seu corpo de acordo com sua idade, silicone é coisa de americana que não possui a felicidade de ter um corpo esculpido por Deus e bonito por natureza. E se os seus namorados e maridos pedirem para vocês "malharem" e ficarem iguais à Feiticeira, fiquem... igual a feiticeira dos seriados de Tv:
Façam-os sumirem da sua vida!

Arnaldo Jabor

17 de agosto de 2010

Seja um Idiota / Arnaldo Jabor

O amor impossível é o verdadeiro amor / Arnaldo Jabor

Outro dia escrevi um artigo sobre o amor. Depois, escrevi outro sobre sexo.

Os dois artigos mexeram com a cabeça de pessoas que encontro na rua e que me agarram, dizendo: "Mas... afinal, o que é o amor?" E esperam, de olho muito aberto, uma resposta "profunda". Sei apenas que há um amor mais comum, do dia-a-dia, que é nosso velho conhecido, um amor datado, um amor que muda com as décadas, o amor prático que rege o "eu te amo" ou "não te amo". Eu, branco, classe média, brasileiro, já vi esse amor mudar muito. Quando eu era jovem, nos anos 60/70, o amor era um desejo romântico, um sonho político, contra o sistema, amor da liberdade, a busca de um "desregramento dos sentidos". Depois, nos anos 80/90 foi ficando um amor de consumo, um amor de mercado, uma progressiva apropriação indébita do "outro". O ritmo do tempo acelerou o amor, o dinheiro contabilizou o amor, matando seu mistério impalpável. Hoje, temos controle, sabemos por que "amamos", temos medo de nos perder no amor e fracassar na produção. A cultura americana está criando um "desencantamento" insuportável na vida social. O amor é a recusa desse desencanto. O amor quer o encantamento que os bichos têm, naturalmente.
Por isso, permitam-me hoje ser um falso "profundo" (tratar só de política me mata...) e falar de outro amor, mais metafísico, mais seminal, que transcende as décadas, as modas. Esse amor é como uma demanda da natureza ou, melhor, do nosso exílio da natureza. É um amor quase como um órgão físico que foi perdido. Como escreveu o Ferreira Gullar outro dia, num genial poema publicado sobre a cor azul, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo "feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe".

Pois, senhores, esse amor existe dentro de nós como uma fome quase que "celular". Não nasce nem morre das "condições históricas"; é um amor que está entranhado no DNA, no fundo da matéria. É uma pulsão inevitável, quase uma "lesão oculta" dos seres expulsos da natureza. Nós somos o único bicho "de fora", estrangeiro. Os bichos têm esse amor, mas nem sabem.

(Estou sendo "filosófico", mas... tudo bem... não perguntaram?) Esse amor bate em nós como os frêmitos primordiais das células do corpo e como as fusões nucleares das galáxias; esse amor cria em nós a sensação do Ser, que só é perceptível nos breves instantes em que entramos em compasso com o universo. Nosso amor é uma reprodução ampliada da cópula entre o espermatozóide e óvulo se interpenetrando. Por obra do amor, saímos do ventre e queremos voltar, queremos uma "reintegração de posse" de nossa origem celular, indo até a dança primitiva das moléculas. Somos grandes células que querem se re-unir, separados pelo sexo, que as dividiu. ("Sexo" vem de "secare" em latim: separar, cortar.) O amor cria momentos em que temos a sensação de que a "máquina do mundo" ou a máquina da vida se explica, em que tudo parece parar num arrepio, como uma lembrança remota. Como disse Artaud, o louco, sobre a arte (ou o amor) : "A arte não é a imitação da vida. A vida é que é a imitação de algo transcendental com que a arte nos põe em contato." E a arte não é a linguagem do amor? E não falo aqui dos grandes momentos de paixão, dos grandes orgasmos, dos grande beijos - eles podem ser enganosos. Falo de brevíssimos instantes de felicidade sem motivo, de um mistério que subitamente parece revelado. Há, nesse amor, uma clara geometria entre o sentimento e a paisagem, como na poesia de Francis Ponge, quando o cabelo da amada se liga aos pinheiros da floresta ou quando o seu brilho ruivo se une com o sol entre os ramos das árvores ou entre as tranças da mulher amada e tudo parece decifrado. Mas, não se decifra nunca, como a poesia. Como disse alguém: a poesia é um desejo de retorno a uma língua primitiva. O amor também. Melhor dizendo: o amor é essa tentativa de atingir o impossível, se bem que o "impossível" é indesejado hoje em dia; só queremos o controlado, o lógico. O amor anda transgênico, geneticamente modificado, fast love.

Escrevi outro dia que "o amor vive da incompletude e esse vazio justifica a poesia da entrega. Ser impossível é sua grande beleza. Claro que o amor é também feito de egoísmos, de narcisismos mas, ainda assim, ele busca uma grandeza - mesmo no crime de amor há um terrível sonho de plenitude. Amar exige coragem e hoje somos todos covardes".

Mas, o fundo e inexplicável amor acontece quando você "cessa", por brevíssimos instantes. A possessividade cessa e, por segundos, ela fica compassiva. Deixamos o amado ser o que é e o outro é contemplado em sua total solidão. Vemos um gesto frágil, um cabelo molhado, um rosto dormindo, e isso desperta em nós uma espécie de "compaixão" pelo nosso desamparo.

Esperamos do amor essa sensação de eternidade. Queremos nos enganar e achar que haverá juventude para sempre, queremos que haja sentido para a vida, que o mistério da "falha" humana se revele, queremos esquecer, melhor, queremos "não-saber" que vamos morrer, como só os animais não sabem. O amor é uma ilusão sem a qual não podemos viver. Como os relâmpagos, o amor nos liga entre a Terra e o céu. Mas, como souberam os grandes poetas como Cabral e Donne, a plenitude do amor não nos faz virar "anjos", não. O amor não é da ordem do céu, do espírito. O amor é uma demanda da terra, é o profundo desejo de vivermos sem linguagem, sem fala, como os animais em sua paz absoluta. Queremos atingir esse "absoluto", que está na calma felicidade dos animais.

16 de agosto de 2010

Crônica do Amor / Arnaldo Jabor


Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.

Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.

Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.

Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então?

Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.

Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você ama este cara?

Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.

É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.

Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.

Não funciona assim.

Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.

Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!

Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.

14 de agosto de 2010

OLGA SAVARY, do seu livro Hai Kais, reunindo os 36 anos (1950-1986)


NUA E CRUA

Não tendo pra onde voltar é que me largo pra rua,
Eu que seria leito de rio, leito de mar, maré,
Sem porto ou barco, peixe fora d´água, pássaro no vôo
Mas quede a asa?

NOME

Eu disse o nome do amor muito sem cuidado.
Disse o nome do amor quase por acaso.
Disse o nome do amor como por engano. Ainda assim
Meu corpo ficou cheio como umrio, da terra o coração habitando.

GEMINIANA

Esta quase sempre correu, fugiu da armadilha,
De ser prendida descobre o encanto. Amor
Que faz desta que sendo caça é caçador
E ama de maneira clara porque pertence aos ares.

AMURUPÉ

Ao mar, ao mar – diz o velame à nave que o conduz
E à confundida cabeça geminiana: eu não te amo
Amo só o prazer que tu me dás.

NOME

E este amor doido,
Amor de fera ferida,
É esse amor, meu amor,
O proprio nome da vida

PÁSSARO

A noite não é tua mas nos dias – curtos demais para o vôo –
Amadureces como um fruto. Tuas asas seguem as estações.
É tua a curvatura da terra.

CERNE

Nada a ver com fonte mas com a sede
Nada a ver com repasto mas com a fome
Nada a ver com plantio mas com a semente.

O DESEJO ABSOLUTO

Criar o amado
Sem a injustiça da forma
Sem o egoísmo do nome.

ENQUANTO

Sou inconstante como o vento
Sou inconstante como a vaga
Porisso fica enquanto estou desvelada
Enquanto eu não for vento ou vaga.

SAVARY, Olga. Hai Kais. São Paulo: Roswitha Kempf, 1986.

13 de agosto de 2010

Sobre a poesia de Olga Savary- por Alexandre Bonafim

Intensa, febril, pulsante, a palavra de Olga Savary alucina-nos, atira-nos em direção ao desejo despido de medos e, por isso, docemente selvagem, perturbador; desejo que arrebata todas as fibras do ser e nos consome em alegre agonia, em acalanto de suspiros e ternuras. Telúrica, ligada às matrizes da vida, a poesia de Olga é expressão da mais cega vontade da carne; é explosão da natureza desnuda. Eis a grandeza da poeta: dar forma, pela palavra, às pulsões vivas do corpo, aos deuses primitivos que queimam nosso âmago, que nos deixam em transe febril.


Por outro lado, a sabedoria da poeta reside, antes de tudo, no pleno domínio dos recursos líricos. Se a palavra arde em suas mãos, ganha corpo, sangue, é porque a poeta sabe dar a justa medida formal aos conteúdos. É o que podemos ver, por exemplo, em “Signo”, obra prima de seu famoso livro Magma:

A respiração de novembro e de sua véspera
(outubro) arde-me não no cérebro
nem no ombro
mas – anel de fogo – nas ancas
e nas entranhas.
Em ti eu amo os amores todos.
Eu não podia aceitar isto
mas aceito agora. A vida
não cessa, é eterno continuar.
Por mais que se queira
o ávido sangue não será saciado.
A tarde é quem está bebendo este desejo
conivente com a violência
da patada da fera amada.
E numa noite de novembro
é que fiquei pronta para a vida
ao ver o mar refletido no teu corpo
e ao meu rosto assomar todo o desastre.

O cosmo é conclamado à festa da vontade: o mar espelha-se no amado e, vice-versa, porque o desejo é total volúpia do inteiro universo. A bela metáfora “anel de fogo” desvela a pulsão dessa ardência superlativa, desse amor hiperbólico a conter todos os amores.
“Magma” pertence à categoria daqueles livros raros, em que quase não conseguimos encontrar um poema de vôo menor. Nesse aspecto, é obra importante, tanto tematicamente (por ser libérrimo no trato do desejo) quanto formalmente (impecável quanto ao manejo de nossa língua).

Em “Carne viva” os signos “cavalo” e “mar” formam um elo metafórico de grande expressividade. Cavalgar e nadar, pelas ondas do mar, desvelam a expressividade da ação corporal dos amantes, a volúpia do transe sexual. Mas a fúria desse movimento carnal vai além. O eu lírico não apenas está sob o cavalo, como também é escoiceado pelo animal, em bela hipérbole da delicada agressividade do amor físico:

Que é de mim sobre este cavalo em maio?
Lanceando-me o abrasado flanco
com o fogo de seu coice como
o fervor de um jato d’água
– arquiteturas ambas em fúria –
este cavalo em maio é a guerra sazonada
em meu corpo-recesso-de-fruta
tal que tramasse nesse rio nascente
a fermentação da forma absoluta,
A(h) mar!

Em um dos poemas mais felizes do livro, intitulado “Venha a nós o vosso reino”, Olga define, com exímia precisão, a paixão, o estertor amoroso, em metáforas e imagens de grande beleza:

Cheios de imagens os olhos
e de silêncio os ouvidos.
Palavras: quase nada.

A cor do barro primitivo em tua pele,
terra-mãe, vinho de frutos, fogo, água,
em ti se nasce e em ti se morre.

Vais me recolhendo e recompondo
no labirinto-búzio-alto-das-coxas,
presságio de submerso jardim,

um ideal jardim em que me apresso
e tardo retardar a troca das marés
quando para ti me evado.

O que é amor senão a fome rara,
o susto no coração exposto
que com a chama ou a água devora,

é devorada, que desdenha a mente
por uma outra fome, vago pasto
água igual a fogo, fogo como lava?

Amor foi uma volta inteira de relógio mais 7 horas.
Amor: chega de gastar teu nome:
agora arde.

O imperativo do último verso faz toda ação do texto transcorrer para a vida. Em viva carne, em aberto pulso, o amor, em belo carpe diem, é conclamado à ação. E que a palavra, vigorosa, intensa, dessa grande poeta, leve seus leitores ao orgasmo não só do verbo, mas da vida em febre e desvario.

SAVARY, Olga. Repertório Selvagem. Rio de Janeiro: Multimais, 1998.

http://arquipelagodosilencio.blogspot.com/2008/09/viva-carne-da-poesia-de-olga-savary.html

12 de agosto de 2010

Liberdade condicional / Olga Savary

Que eu toda me torne desterro,
lugar de exílio, exílio em ti;
meu corpo é um edifício erguido
com vista para o mar, ou seja,
como o mar rodeando a ilha,
todo com vista para ti.


Que sejas a tensa corda

do arco só a atirar
– único prazer da memória –
setas não para a altura
mas em única direção
abaixo da minha cintura.

E te amo morto ou vivo
com a certeza de quem sabe
do grande fogo das vísceras,
cartas marcadas de risco,
cujo mapa é só abismo,
precipício onde se cai.

de mãos dadas com o perigo
e as sete quedas de vício.

11 de agosto de 2010

Dois poemas de Olga Savary



NAS TARDES QUENTES
NADA MAIS QUE FAZER:
ESQUECER AS MÃOS
AQUIETADAS COMO ARANHAS
E AMARRAR O SILÊNCIO
À PURA SOLIDÃO
DO SILÊNCIO.






QUISERA DESABAR SOBRE TI
COMO CHUVA FORTE.
AS COISAS SÃO BOAS QUANDO DESTROEM
E SE DEIXAM DESTRUIR.
SÓ ASSIM EU VENHO:
ECO DE PROFUNDAS GRUTAS,
NADA LEVE
UMA IRREALIDADE
ESTAR AQUI.
SÓ SEI AMAR ASSIM
- E É ASSIM QUE TE LAVRO, DESERTO.


10 de agosto de 2010

REPERTÓRIO SELVAGEM Uma belíssima obra que reúne 12 livros de poesia de Olga Savary.


POESIA SEMPRE - Magna (1977-1982)por Antônio Houaiss

Olga Savary conquistou, com garbo de fundas e discretas emoções, seu espaço poético em nossa língua. É senhora também de outro espaço relevante para a construção do Homem – a tradição.

Mas, mesmo que se admita no poeta o fingidor de fingimentos de fictos e fictícios mitos em que ele (e nós) acaba crendo, é difícil ver neste poeta a criadora de uma mitologia do amor.

O que se tem aqui é um hinário do amor – e do amor mais antigo e mais futuro, o amor, da fêmea pelo macho, mas fêmea com o uso da palavra – essa criação humana que faz presente, in abstracto, o concreto ausente.

Ao poetar estes poemas, o poeta reviveu e previve com palavras o amor fruído e o amor fruendo, o amor amado e o amor amando – mas amor que é delírio, que é embate, que é roçagar, que é atrito, que é rijeza, que é unidade (águas e águas e águas, nestes poemas), que anseia e que é repouso não desejado: essa é a luta que se quisera eterna.

Estes poemas eróticos são de beleza e alteza sem-par. E o são em face de quaisquer grandes eróticos de nossa língua – desde os que fazem, deste amor de carne e emoção, matéria que tangencia ou invade o pornográfico e pornofônico, até os que fazem, deste amor de carne e emoção, recanto de lúbricas e concupiscentes insinuações interditas ou inconfessáveis como se inefadas ou inefáveis.

Nestes poemas há algo de antigo e de futuro, como é o amor de carne e emoção: há aqui toda a alegria da revelação dessa voracidade recíproca a dois que cada parelha crê que nunca houve antes como tal e nunca haverá depois como tal: e há mais – sem porco-chauvinismo nem porco-feminismo –, há a descoberta das palavras que salvam esse amor da degradação, mas não o elevam a platonismos insanos. Não: estes são atos de amor, atos de amar, atos de cantar o amor praticado, ato de cantar o amor estranhado, situando-o, neste nosso dia-a-dia de asperezas e mágoas e sofrimentos e baixezas e mercancias, como o bem que nos justifica e justifica viver.

Há, aqui, assim, sexo, conjunção, esperma, uróboro – a serpente que devora a própria cauda –
e o que mulher (ou homem) que ama homem (ou mulher) se empenha em criar e fazer para as alegrias do amor.

As palavras – nas condições de moral classificatória que põe em certa má classe os que usam de certas palavras – foram, coitadinhas, não raro prostituídas, sobretudo para a poesia do amor, deste amor. O poeta, este aqui, perspicacíssimo, as evita para fugir ao equívoco infame. Mas compensatoriamente reinventa polissemias maravilhosas, graças às quais – poeta que é –, trabalhando as palavras, lhes dá velhos e novos sentidos, concomitantes, para viver e reviver e anteviver antigos e novos e eternos amares e amores. Sua total objetividade se 22 à total verbalidade, para criar simbolicidade que é a prática verbal do amor revigorante do amor, enquanto palavras preparatórias (de novo e sempre) do amor.

– louvado seja o amor – é o que nos mostra Olga.


Rio de Janeiro, 27 julho 1981


O HAI-KAI BRASILEIRO DE OLGA SAVARY Hai-kais (1977-1986)
por Geraldo Mello Mourão



O hai-kai está para a poesia japonesa como o soneto está para a poesia ocidental: – é um cânon melódico para a expressão poética. Mais do que o soneto, com suas duas quadras e dois tercetos, o hai-kai busca uma quintessência da expressão poética no terceto único, no rigor de dezessete sílabas, com o primeiro verso de cinco, o segundo de sete e o terceiro novamente de cinco.

A composição perfeita tem seduzido também os poetas do Ocidente. No Brasil, o primeiro exemplo é, desde logo, o do poeta Oldegar Vieira, que já nos anos 30 dava seu admirável Folhas de Chá, com uma preciosa antologia de hai-kais ortodoxamente construídos sobre o metro de cinco-sete-cinco.

Nem sempre será ortodoxo, no escandir do metro, o hai-kai que agora nos oferece Olga Savary. Mas o soneto, em todas as nossas literaturas, tem sido trabalhado também, fora dos rigores canônicos que nos vêm dos italianos, sobretudo Petrarca, sem que com isso se tolde a lírica beleza de sua forma. É o que ocorre com os hai-kais dessa admirável poeta Olga Savary.

Ela guarda, com mestria maior, aquilo que os haikaístas definem como a virtualidade poética típica do hai-kai: – o conhecimento lírico que nos situa como "num fio de navalha, entre o diáfano e o espesso".

Bashô ou Kikaku, os grandes mestres japoneses do hai-kai poderiam deleitar-se com o contraponto do hai-kai brasileiro de Olga Savary, que guarda a "inuberância" – para usar uma palavra rilkeana – do cânon milenar de dezessete pés métricos. Cada um caindo sobre nós, lapidado como um cristal, mas também vivo como uma gota de orvalho, na brevidade de sua expressão. Como uma gota de poesia.





APRESENTAÇÃO E PREFÁCIO AO LIVRO Linha-d'água (1980-1987)
por Antônio Houaiss


Olga Savary é senhora de uma gleba fecunda no território da poesia brasileira viva que ninguém que aí se nutre deve desconhecer.

É que sua vária poesia, sua vária messe, tem uma vertente luminosa e cantante e quase constante – água de chuvarada escorrendo sobre basalto lavado, sol ofuscante com revérberos argênteos e cintilâncias e ecos primevos, água erótica transfigurada, água prima. E os que supúnhamos que esse veio tivesse sido bem explorado por poetas – a lista dos nossos nesta temática é longa –, vemos, gratos, que nela Olga é como que inaugural, ousando tudo, insinuando tudo, reinventando tudo e – quase – ensinando tudo – e quase porque é ímpeto e desidério nela que cada um a descubra, a essa água, como o faz ela mesma.

E Olga é sempre reverente: trata-se de poesia que, por amar o amor e por amor do amor, busca tudo que embeleza, incrementa, alimenta o amor – e por isso há nela um culto cupidíneo, amoroso, erótico também das palavras – esse seres que salvam o amor para a eternidade, como seres de antes e de depois do amor e que o suscitam e o ressuscitam.

É uma beleza este livro de Olga. É uma beleza que não se gasta nem se consome.

É imperativamente necessário, aos que amam o amor, amar este livro – relendo-o aleatoriamente nos vagares de todo o sempre. Pois é livro que fica.

E louvor a Massao Ohno, mestre e remestre editor, que veste com pudor a audácia erótica savaryana e wakabayashiana, essa maneira tão água e tão Olga de cantar o amor.


Rio de Janeiro, 21 de fevereiro 1987


AS FORMAS DA ÁGUA
por Felipe Fortuna

Águas tempestuosas, águas balsâmicas, água doce, água salgada: o que é isso, afinal? Na poesia de Olga Savary, a água mole, assim como a pedra dura do diamante, é multifacetada. É também vital, e quase sempre vinculada aos jogos do amor. Fundamento, origem e gênese, a água é uma totalidade, uma evidência da unidade do mundo. Já há algum tempo, em Espelho Provisório (1970), antes, portanto, de reunir a quase vintena de poemas sob a marca sutil da linha-d'água, Olga Savary havia definido os pólos de sua tensão:


Ah, derramar-me líquida sobre o mar

– ser onda indefinidamente –


Isso porque Olga Savary foi seduzida por aquilo a que os gramáticos dedicam a mais depurada repulsa: a confusão entre gênero e sexo. Pois, como eles preferem, a divisão entre masculino e feminino prende-se a uma classificação que atinge também as coisas inanimadas, e não à existência do macho e da fêmea. Assim pensa Cassirer, ao deduzir que a influência do sexo "representa apenas uma corrente particular na lingüística e não um princípio universal". As línguas românticas, contudo, sempre estiveram afeitas a essa contaminação, suscitando as mais diversas análises, dos primeiros freudianos até Leo Spitzer – ao estudar a "feminização do neutro" como resultado, ao mesmo tempo, da mulher enquanto força criadora e objeto de posse. Como é óbvio, o imaginário da língua suplantou com vigor a gramática, fazendo do gênero um símbolo do sexo. Um tradutor brasileiro de Mallarmé, ao deparar uma imagem de conúbio amoroso em que la mer era o elemento-mulher, verteu-a sabiamente por as águas – mantendo a metáfora sexual. Essa é a mesma fronteira delineada por Olga Savary – salvo o detalhe, essencial, de que o mar é de outro sexo, como escreveu em Magma (1982):

Mar é o nome do meu macho

pois, agitada pelo movimentos, e tornando ainda mais complexas as imagens, a água é a substância e o substantivo, enquanto o mar age como se possuísse a força de um verbo, infinito e infinito. Mulher e homem: as águas invadem sob a forma de mar. Mar é invasão, e de tal modo profunda invasão que é capaz de transformar, como em Altaonda (1979), sua enraizada e telúrica natureza:

Entro na água e logo

a terra torna-se uma memória antiga.


Existe uma intenção cosmopolita na poesia de Olga Savary, e a água exprime esse desejo. Do fundo de sua serenidade, de sua meditação concentrada em poemas de poucos versos, emerge um projeto assombroso: dizer tudo. Com Tales de Mileto, essa mesma necessidade de sondar a natureza da matéria fez surgir o primeiro veio da filosofia. Segundo o pré-socrático, a água é o princípio da natureza úmida, presente no alimento e na terra que detona a semente. Começou com ele, conforme anotou Hegel, não apenas a idéia de que a água era o absoluto, mas de que, enfim, o um é a essência. Ao abandonar a alegoria tão comum ao pensamento anterior (por exemplo, o dos órficos), declarando "tudo é um, tudo é água", ele reduziu a natureza humana à sua vastidão.

Esse princípio de vida é o mesmo na poesia de Olga Savary, que o recupera como se procurasse escutar toda a memória do mar na arquitetura de um búzio. A sua intenção, pois, é resgatar: na dimensão da água, o fundamento de uma unidade cósmica, na intitulação de vários de seus poemas, em que prefere corresponder-se com o Tupi, a língua original da Ilha de Vera Cruz, da Terra de Santa Cruz, do Brasil. A língua indígena é o reduto dessa memória, e, enfim, quanto à água, a grande porção que constitui, ao mesmo tempo, duas terças partes do corpo humano e três quartas partes do planeta Terra.

Dificilmente outra poesia poderia ser, pelo menos quanto ao seu tema, tão universal, tão abrangente e, até, solidária. Pois de que valeriam essas águas se nelas não rolassem as espumas que, da forma verbal grega, originaram o nome de Afrodite? Ou se elas também não fossem esperma, a correr em rios, ou se tudo não estivesse traduzido no amor – núcleo abstrato do contato físico com a água? Nesse Linha-d'água, Olga Savary redescobre a sua fonte primordial, e escreve sobre as transparências, sobre um corpo impresso no outro corpo, como quem insinua os traços dos amantes nos lençóis desarrumados: sinais de mutações que quase não deixam sinais, apenas vagas indicações. Armada de "dual sensualidade", a água é uma evidência com a qual ela se defronta (água que ataca, embebe, cauteriza). Mergulhada na água, Olga Savary faz parte de um mistério que reside na imensidão, jamais nos detalhes secretos: para ela, o mistério só existe quando já atingiu a dimensão infinita. Num desses poemas, o verso "me entrego, desaguada, sem medir margens"
alude ao encontro e ao conforto simultaneamente, ela é água e à água se confunde – com desmedida, com exagero torrencial. A água que a encaminha para o infinito; para a perdição; para a vastidão indomável:
água, bicho sem pêlo
onde poder agarrar


Olga Savary também escreve de águas passadas, ou seja, de tudo o que não se dissolveu. A associação do mar com o macho é de novo traduzida num magnífico verso, de angustiada certeza, todo monossilábico:


Que és o mar, meu mar, eu sei


Na sua entrega, em que perde e ganha identidade, ela envelhece a terra; e, exilando-se, emigra para a sua outra natureza erótica:


Que eu toda me torne desterro


Acostumada à concisão, sua poesia exercita, com formas breves, com metros curtos, a permanência – qualidade, aliás, que lhe permitiu dominar a estrutura do hai-kai, talvez avessa às peculiaridades do idioma. Ao estrear numa década violenta da história política do País, Olga Savary atravessou-a com a delicadeza da linha-d'água no papel, sem se permitir a poesia engajada: ela é, de fato, poeta dos elementos, das formas naturais, das pequenas elegias. Que sua poesia, passada a tormenta, ainda seja apreciada, é sinal de que algo (ou muito) escapou à sua absurda serenidade. Ela não possui, é certo, a vocação histórica, quase visceral, do Ferreira Gullar de Poema Sujo (1975); ou mesmo os exercícios políticos de Affonso Romano de Sant'Anna e de Armando Freitas Filho. E muito menos o fracasso poético da poesia marginal. Olga Savary, nesse sentido, tenta evitar a definição de sua época: quando escreveu sua poesia, ninguém sabe. Ao contrário de Drummond, cuja dicção tantas vezes ecoa em seus versos, ela se interessa pelo "tempo presente". Aquela suposta permanência, por isso estranhamente conquistada por sua indefinição. Mas é poesia definida porque, no grande mar a que se entrega, suas palavras se encontram naquele pequeno ponto em que reina, solitária, a ardência da água-viva.

Rio de Janeiro, fevereiro 1987

9 de agosto de 2010

Fogo, Ar, Água e Terra ( Olga Savary)

Fogo


Dar-me toda este verão
urdideiros de rio, é ser
serpente de prata. Verão,
foi feita mais uma vítima

Sou um ser marcado, natureza.
A tarde crava em meu magma
o selo de sua secreta pata.

Aquarela de Jaqueline Campos/ exp.Íntimo e Pessoal


Ar


É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.


A água


se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.
O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.


Terra


em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,

devora-me até que eu
não respire mais.



O Segredo (*)

Entre pernas guardas:
casa de água
e uma rajada de pássaros.




*



Nome (*)

Dar às coisas outro nome
que não o vosso, amor, não pude.
Nem pude ser mais doce e sim mais
rude
por conta das lamentações mais
ásperas
por causa do agravo que pensei
ser vosso.
Amor era o nome de tudo, estava
em tudo,
era o nome do macho cheirando a
esterco,
a frutos passados e a raízes raras.


De posse da intimidade da água
e da intimidade da terra,
a animais vorazes é a que sabíamos.


Amor é com quem me deito e deixo
montar
minhas coxas em forma de forquilha
e onde
amor abre caminho pelas minhas
águas.


Olga Savary

Entrevista com Olga Savary: concedida à Claudia Pastore

A SUBLIMIDADE INCANDESCENTE DE OLGA SAVARY

Com sua temática erótica e intimista, Olga Savary foi a primeira mulher no Brasil a lançar um livro inteiro de poesia erótica; Magma, (1982). Não só poeta, como prefere ser chamada, mas também ficcionista, ensaísta, tradutora e jornalista, ela nasceu em Belém – PA, residindo atualmente no Rio de Janeiro. Estreou em 1970, com Espelho Provisório (poesia), recebeu vários prêmios literários, nacionais e internacionais. Recentemente publicou, Repertório Selvagem – obra reunida com 12 livros de poesia, (1998), O Olhar Dourado do Abismo – contos – (2001), Berço Esplêndido – poesia – (2001) e Poesia do Grão Pará – antologia poética – (2001). Em sua poética, é marcante a presença de uma mulher que vive intensamente o momento presente, o ato e suas sensações físicas, ao nomear o amado “homem” ou “macho”, em tom narrativo, sem comedimento algum em expor seus desejos, suas paixões. Savary apresenta claramente o amor e suas contradições; a dualidade amor / aniquilação batailleana. Nesta entrevista, ela fala sobre poesia, vida e morte.

Entrevista com Olga Savary: concedida à Claudia Pastore - doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, pela Universidade de São Paulo.

- Claudia Pastore:
Como sabemos, você foi a primeira mulher a escrever um livro todo sobre temática erótica no Brasil, com a publicação de "Magma", em 1982. Você acha que a relação homem x mulher mudou muito de lá para cá?

- Olga Savary:
Eu percebo que, de muitos anos para cá, não sei quanto tempo, desde que começou a liberação da mulher, que as relações estão muito complicadas porque, no fim não há muito diálogo. Posso estar sendo um pouco radical, mas acho que às vezes não há diálogo. O que há são dois monólogos e isso eu jogo muito em cima dos meus contos: são mulheres que estão falando sozinhas e os homens também. Um pouco antes de 82, um pouco depois, nessa época, a coisa se exacerbou.

- Cláudia Pastore:
Você acha que até hoje é assim?

- Olga Savary:
A gente tenta que não seja assim, porque acho muito ruim, tanto para a mulher, quanto para o homem, ficar nessa situação de dois monólogos que tentam dialogar. Um grande desencontro. É claro que há exceções, mas, a grosso modo, é muito difícil uma relação homem x mulher. Os homens têm medo da liberação das mulheres; as mulheres não têm mais a mesma paciência, pois já sofreram o diabo durante milênios, (tem aquela coisa que se brinca, como é? tolerância zero). Eu sou muito paciente, sou uma gueixa se souberem me tratar bem, mas já encerrei minha carreira, já tem uns nove anos, não quero mais saber de perda de tempo com isso.

- Cláudia Pastore:
De acordo com Bataille, o erotismo é um fenômeno, um sentir unicamente humano, não animal. Porém, em seus poemas, o erótico possui muito de "animalidade" - você fala de fera, animal, King Kong... Como você explica isso?

- Olga Savary:
Explico através da minha enorme ironia, (sou muito irônica). Acho que às vezes fica muito claro no texto e às vezes não. Agora, acho o seguinte: tenho muito orgulho em dizer que eu sou um belo animal. Belo não no sentido de beleza, mas um verdadeiro animal, (é verdade, nós somos animais antes de tudo), antes de a gente ser um ser pensante, um ser erótico. E dizem que os animais não têm erotismo... Eu gosto muito de ver filmes sobre animais, porque acho que eu aprendo muito sobre mim mesma, sobre o ser humano. Acho que a gente está no mundo, também, para se aprimorar, aprender, apreender.
Eu não descarto essa possibilidade de ser um animal, eu acho ótimo, eu gosto. O que eu acho que o animal, talvez, não tenha, que eu observo muito, é o senso de humor..., mas também têm, eles têm uma certa malícia que é bem humana.
Certa vez eu estava montada num cavalo, (eu sou uma desgraça para cavalo) e ele percebeu que eu não sabia montar e deve ter pensado: "espera aí que eu vou fazer uma com essa daí...", então ele não andou comigo, não obedeceu, e eu não gosto de chicotear, nem animal, nem gente, nem ninguém. E muita mulher chicoteia até homens. Não estou nessa. Então o cavalo, quando resolveu, deve ter pensado: "olha, essa daí não sabe nada, eu vou é voltar para a cocheira." Ele voltou para a cocheira, e eu montada, e ele ia fazer eu dar uma testada na entrada da cocheira, eu ia cair, podendo até morrer! Isso ele fez de malícia, de picardia, pensando: "eu vou fazer essa aí cair de cima de mim e vou destroçar ela." O que foi que eu fiz? Tinha uma trave de madeira e, quando ele entrou, eu segurei e fiquei pendurada no ar - e era alto á bessa! Aí ele olhou para trás: "mas que mulher danada..." Então eu penso que cavalo também tem um senso de humor terrível!
Agora eu não descarto a palavra animal, brinco com a estória do King Kong porque foi uma brincadeira que eu fiz com um grande amado: eu o chamava de King Kong, até porque é a coisa de um amor impossível.
Eu fiz um conto sobre essa relação e ele leu, viu escrito King Kong e disse: "isso não combina com você!", porque achava que eu era muito doce, ingênua... Daí eu não disse nada, fiquei muda e pensei: "mas eu não estou falando de mim, eu estou falando de você" - só que eu não disse nada, rindo por dentro, na minha ironia.
Ele não era uma fera doce, pelo contrário. No amor, para mim, tem que existir alegria. Não tenho a menor vocação para o sofrimento.

- Cláudia Pastore:
"Não se pode viver sem desejar". É um verso de Marly de Oliveira. O que dizer sobre isso?

- Olga Savary:
É verdade, acho que quando você está vivo, você deseja sempre. Eu, felizmente, cada vez desejo menos. Por exemplo; eu desejo coisas violentamente difíceis e complicadas, como trabalho, eu quero fazer cada vez mais e da melhor maneira possível. Não quero ser melhor do que ninguém, só quero sempre amanhã ser melhor do que eu fui hoje.
Não sei se ela está dizendo desejar no sentido de desejo erótico. Penso que é o desejar desejar, seja o que for. O fato de se desejar, por exemplo, se aprimorar, (e essa é a minha grande preocupação), eu quero é ter mais compaixão pelo meu semelhante amanhã... Não estou querendo ser tolereante demais, porém é uma questão de evolução.
Para mim, a coisa mais importante na vida é a bondade, mais do que a inteligência, porque uma pessoa inteligente, que seja perversa, para mim é zero. Duas coisas são fundamentais no ser humano: caráter e bondade. Por exemplo, isso eu encontrei em Bruno Savary. Tive o privilégio de ser filha de um homem que foi a melhor pessoa que eu vi na minha vida. Ele me ensinou muita coisa boa, moldou-me para o bem.
Outra pessoa que foi um pouco meu guru foi Benedito Nunes, meu professor de Filosofia e Francisco Paulo Mendes, meu melhor professor de Português.
Bashô, que eu não conheci, porque viveu há trezentos e tantos anos atrás, o monge japonês, o pai do haikai. Esses são os meus amados máximos!
Dostoievski, porque é meu escritor primeiro, primeiro, primeiro. É o meu amado primeiro, descoberto nos meus dez anos de idade. E eu acho que Dostoievski me encantava pela compaixão. De uma inteligência fulgurante e escreveu os melhores romances de todos os tempos. Ele ia tão fundo que é uma coisa impressionante, algo que temos aqui com Clarice Lispector. Que também entrou fundo na alma humana. Coisa de russo, pois ambos eram tão próximos do sentir brasileiro.
Nós temos grandes escritores brasileiros, mas ainda tem que acontecer o grande "boom" do Brasil. Nós temos escritores extraordinários, que ainda não foram descobertos. Não na medida que eles merecem. Saramago merece, porém acho que ele mesmo declarou que o primeiro Prêmio Nobel para língua portuguesa devia ter ido para o poeta Carlos Drummond de Andrade. Concordo.

- Cláudia Pastore:
Será que a poeta, possui, implicitamente, em sua produção erótica um "grito literário", ou seja, ela tenta - nem que inconscientemente - reafirmar sua posição social enquanto ser que sente, que quer o prazer, que este lhe caiba naturalmente? Você vê diferenças entre a voz poética feminina e a voz poética masculina na temática erótica?

- Olga Savary:
Eu acredito que a mulher tenha mais coragem de se julgar. Por exemplo: Drummond quando estava vivo, tinha poesias eróticas que ele me disse terem sido escritas em 1940 e que ele só foi ter coragem de jogar em livro, publicar, quando ele estava perto de morrer, porque ele disse que envolviam outras pessoas, ia machucar pessoas, porque evidentemente ele não tinha escrito aqueles poemas eróticos para a pessoa com quem ele convivia. Isso até tem que ser dito de uma maneira muito delicada...
A mulher, a poeta, grita literariamente porque ela ficou amordaçada muitos anos. Não deram voz e vez à mulher, então era preciso às vezes o grito, talvez uma poesia mais violenta, (violenta no sentido reivindicatório).
Mulher tem essa necessidade tão grande de colocar para fora isso, que durante anos ela não pode colocar, porque teve de permanecer calada. Há poesia feminina forte, até viril, assim como poesia masculina delicada. depende de tônus poético e não de sexo.

- Cláudia Pastore:
Você acha que ela se expressa de uma maneira um pouco pesada?

- Olga Savary:
Pesada não, um pouco exacerbada, de uma maneira às vezes um pouco violenta. Considero que meu texto, às vezes, é muito violento. Ele não é ingênuo.

- Cláudia Pastore:
Ele não tem a preocupação de ser sutil.

- Olga Savary:
Ele é sutil porque não cai no pornográfico e não cai no explícito. Nesse ponto ele é sutil mas, por outro lado, ele é muito violento. Violento no bom sentido, que não tem medo de dizer, e diz tudo. Tem certos textos meus que alguns homens não gostam. Mas tem outros que dizem: "muito obrigado por você homenagear o homem."
Uma coisa curiosa: em junho de 1989, eu estava na Casa Mário de Andrade, Museu de Literatura, Oficina da Palavra, na Barra Funda, e foi uma emoção inteira, porque eu não conheci Mário de Andrade, quando ele morreu eu não tinha dez anos. A Casa Mário de Andrade prestou uma homenagem a mim, com declamações de poemas, depoimentos gravados, "sumi-ê", pintados por uma artista carioca e palestras, durante quinze dias. A Profa. Marleine Paula participou também. Nessa ocasião, participei do Programa de Jô Soares. Um homem, ao lado de sua mulher, agradeceu-me por homenagear a figura do homem em meu texto. Apesar de ser violenta às vezes, eu também homenageio o homem. Quero dizer, eu mordo e assopro. Violenta no sentido de nomear pele, dizendo couro, por exemplo. Todo erotismo toca a coisa mística, como a serpente que morde a própria cauda - a uroboro. Misticismo e erotismo são, no fim, faces da mesma moeda, coisas que se tocam e que formam um círculo. E também aquilo sempre digo em depoimentos, entrevistas, etc, que erotismo é o sublime, o divino no ser humano, porque faz um triângulo: mulher - homem - Deus.

- Cláudia Pastore:
Como se processa, em sua poética, esta forte relação com a natureza, com a Terra, com o Brasil, juntamente com a temática erótica? Como a natureza interage com o elemento erótico?

- Olga Savary:
Isso começou desde cedo. Eu sou de uma região exuberantíssima pela qual eu sou loucamente apaixonada - a Região Amazônica - eu sou de Belém do Pará, onde nasci em 1933, em maio. Sou uma geminiana muito inquieta, muito apaixonada... Dizem que o geminiano é muito mental.
A natureza, para mim, é uma fonte inesgotável e, se nós não olharmos em torno, vamos olhar para onde? Então eu acho que o fato de eu ter nascido neste local, nessa região tão exuberante onde a natureza parece que invade tudo - o clima quente, o sangue quente...
No mais, eu herdei essa coisa índia, indígena, tupi de Belém do Pará. E é fantástico porque isso é a origem da minha alegria.Acho que tenho essa observação da natureza por ser desta região. Eu sou uma mulher tropical, sou uma mulher de sangue quente, uma amazônida.

- Cláudia Pastore:
Você diferencia isso, vamos supor, de uma mulher européia?

- Olga Savary:
Com certeza, eu tenho muito mais paixão para mostrar num texto, do que, por exemplo, uma mulher européia, digamos, uma finlandesa, uma norueguesa...

- Cláudia Pastore:
Notamos claramente, a partir de outras entrevistas, que você diferencia o Oriente do Ocidente, suas raízes, seus valores, expressos, em sua poesia; ora pelo tupi, pelo indígena, ora pelos haicais, pelo amarelo. Portanto, como você vê a relação do homem com Deus entre esses dois mundos?

- Olga Savary:
Eu sempre tive muita paixão pelo Oriente, porque o irmão mais velho da minha mãe era um apaixonado pela cultura japonesa, e foi na biblioteca dele, com nove para dez anos de idade, que eu comecei a tomar informação sobre o "haikai" e comecei a escrever "haikais", que é forma mais curta de poesia que existe. Eu sempre me senti muito atraída pelo Oriente, por causa, provavelmente, do tio Lourival de Almeida, que era jornalista e que eu aprendi na biblioteca dele.
A respeito do tupi, quando eu estive no meio dos índios em 1977, eu ouvi a linguagem dos tapirapés e dos carajás, eles falavam a língua deles e você tinha a impressão que eles falavam o japonês.
Então Oriente sempre foi para mim algo muito presente na minha vida.
Tudo o que eu falo na minha poesia, em tupi, é por que minha bisavó era índia.

- Cláudia Pastore:
Se, para você, erotismo é vida; então, o que é a morte?

- Olga Savary:
Eu reparei que eu nunca falava muito em morte, no início da minha produção, não que eu negasse, mas eu sou muito ligada à vida. Eu tenho muitos poemas com o título "vida", eu sou uma apaixonada pela vida, embora eu ache que a vida é muito madrasta, muito terrível, mas também dá muito prazer - a gente tem que saber tirar...
Agora, curiosamente eu falo muito em morte nos poemas eróticos porque os franceses usavam aquela expressão para o orgasmo; "pequena morte" - eu tenho até um livro que eu vou lançar com três novelas com esse título: "Pequenas Mortes". Então eu acho que erotismo é vida e morte, é um pouco morrer quando você tem um ...
Embora eu seja católica, eu não sigo religião nenhuma porque eu vejo claramente o que está por trás de tudo, ou seja, poder / dinheiro, poder / dominação.
Enfim, eu acho que morte, para mim, seria como um grande orgasmo. Eu não tenho medo, acho que é inevitável.

- Cláudia Pastore:
Você acha que o exercício da tradução repercutiu em seu fazer poético?

- Olga Savary:
Eu sempre fui movida a desafios, sempre achei que desafio, para mim, é fundamental. Eu quero me superar e quero estar sempre aceitando os desafios que eu mesma me imponho. Então eu acho que traduzir, para mim, é fundamental no sentido de exercer uma humildade e também porque eu venço desafios que me são apresentados.
Eu traduzi muito do espanhol, mais de 40 livros, desses principais hispano-americanos; Cortázar, Borges, Lorca. Só de Pablo Neruda eu traduzi 10 livros, (poesia, teatro, memórias). Enfim, as indicações estão todas no meu currículo. Até um livro de memórias do Che Guevara eu traduzi.
Enfim, a tradução para mim, não me influenciou poeticamente mas me deu muito, digamos, traquejo com relação ao texto do outro escritor.

- Cláudia Pastore:
Com relação à criação, como se dá o fazer poético e o fazer em prosa, ou seja, existe diferença entre escrever um conto e escrever um poema?

- Olga Savary:
Eu sempre disse que nunca escreveria um romance mas eu escrevi uma novela que está para sair.
Eu acho que a prosa está mais ligada com o dia-a-dia, você está mais perto do chão, e o fazer poético é como se você estivesse num disco voador, e vendo tudo numa amplitude maior, por causa da imagem. O texto poético, eu acho, que ele transcende mais.
O conto seria eu andando na rua e poema seria se eu estivesse num disco voador.

- Cláudia Pastore:
Sabemos que você nutre grande admiração pelo filósofo Benedito Nunes, que foi seu professor. Você possui outros mentores intelectuais que gostaria de nos falar?

- Olga Savary:
Benedito Nunes foi meu professor de Filosofia no Colégio Moderno, no Pará e ele foi muito importante para mim, pois ele foi considerado um dos nossos maiores críticos literários e é uma pessoa muito incentivadora. O primeiro prêmio literário que eu ganhei na vida foi dado pelo Benedito Nunes e pelo meu professor de Português, Francisco Paulo Mendes, que também foi uma pessoa muito importante na minha vida.O poeta Rui Barata, do curso Clássico, de antigamente. Então, esses foram os meus grandes mentores. Depois o Drummond, que ficou meu amigo e que nós descobrimos, mais tarde, que éramos primos.

- Cláudia Pastore:
Com relação a futuros projetos ou em andamento, o que tem a nos dizer?

- Olga Savary:
Eu tenho muita coisa em andamento; muitos livros de poesia para serem publicados, outro livro de contos, o terceiro, a novela, que eu já falei, que ironicamente é chamada "Paraíso", embora de paraíso, no final não tenha nada e quatro livros de ensaio e crítica - esses são os livros pessoais. Agora, eu estou organizando várias antologias; uma sobre a Terra do Brasil, a outra; "Mar do Brasil", a outra de Haicais Brasileiros, a outra é "Contos da Pará" e muitos outros projetos e reeditar o "Carne Viva", que é aquela 1a. Antologia de Contos Eróticos. E um livro sobre Drummond, seria um ensaio poético, um projeto de um livro (poesia) em Portugal e também o "Eugeniana", que é uma homenagem ao poeta português Eugênio de Andrade, que em 2003 vai fazer 80 anos.

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Claudia Pastore é doutoranda da Universidade de São Paulo e prepara tese sobre O EROTISMO NA PRODUÇÃO POÉTICA DE PAULA TAVARES E OLGA SAVARY no departamento de Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Faculdade de Letras.
Além de pesquisadora é professora universitária e também escritora, tendo lançado e organizado a antologia poética QUEM SENTE SOMOS NÓS, pela Scortecci, editora de São Paulo.

8 de agosto de 2010

Alguns poemas de Olga Savary



Tranqüilidade na tarde
A Liene T. Eiten


Ah, derramar-me líquida sobre o mar
– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.



Quero apenas


Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.


Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

Água água

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta


Pedido
A Manuel Bandeira


Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.



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