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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

10 de agosto de 2010

REPERTÓRIO SELVAGEM Uma belíssima obra que reúne 12 livros de poesia de Olga Savary.


POESIA SEMPRE - Magna (1977-1982)por Antônio Houaiss

Olga Savary conquistou, com garbo de fundas e discretas emoções, seu espaço poético em nossa língua. É senhora também de outro espaço relevante para a construção do Homem – a tradição.

Mas, mesmo que se admita no poeta o fingidor de fingimentos de fictos e fictícios mitos em que ele (e nós) acaba crendo, é difícil ver neste poeta a criadora de uma mitologia do amor.

O que se tem aqui é um hinário do amor – e do amor mais antigo e mais futuro, o amor, da fêmea pelo macho, mas fêmea com o uso da palavra – essa criação humana que faz presente, in abstracto, o concreto ausente.

Ao poetar estes poemas, o poeta reviveu e previve com palavras o amor fruído e o amor fruendo, o amor amado e o amor amando – mas amor que é delírio, que é embate, que é roçagar, que é atrito, que é rijeza, que é unidade (águas e águas e águas, nestes poemas), que anseia e que é repouso não desejado: essa é a luta que se quisera eterna.

Estes poemas eróticos são de beleza e alteza sem-par. E o são em face de quaisquer grandes eróticos de nossa língua – desde os que fazem, deste amor de carne e emoção, matéria que tangencia ou invade o pornográfico e pornofônico, até os que fazem, deste amor de carne e emoção, recanto de lúbricas e concupiscentes insinuações interditas ou inconfessáveis como se inefadas ou inefáveis.

Nestes poemas há algo de antigo e de futuro, como é o amor de carne e emoção: há aqui toda a alegria da revelação dessa voracidade recíproca a dois que cada parelha crê que nunca houve antes como tal e nunca haverá depois como tal: e há mais – sem porco-chauvinismo nem porco-feminismo –, há a descoberta das palavras que salvam esse amor da degradação, mas não o elevam a platonismos insanos. Não: estes são atos de amor, atos de amar, atos de cantar o amor praticado, ato de cantar o amor estranhado, situando-o, neste nosso dia-a-dia de asperezas e mágoas e sofrimentos e baixezas e mercancias, como o bem que nos justifica e justifica viver.

Há, aqui, assim, sexo, conjunção, esperma, uróboro – a serpente que devora a própria cauda –
e o que mulher (ou homem) que ama homem (ou mulher) se empenha em criar e fazer para as alegrias do amor.

As palavras – nas condições de moral classificatória que põe em certa má classe os que usam de certas palavras – foram, coitadinhas, não raro prostituídas, sobretudo para a poesia do amor, deste amor. O poeta, este aqui, perspicacíssimo, as evita para fugir ao equívoco infame. Mas compensatoriamente reinventa polissemias maravilhosas, graças às quais – poeta que é –, trabalhando as palavras, lhes dá velhos e novos sentidos, concomitantes, para viver e reviver e anteviver antigos e novos e eternos amares e amores. Sua total objetividade se 22 à total verbalidade, para criar simbolicidade que é a prática verbal do amor revigorante do amor, enquanto palavras preparatórias (de novo e sempre) do amor.

– louvado seja o amor – é o que nos mostra Olga.


Rio de Janeiro, 27 julho 1981


O HAI-KAI BRASILEIRO DE OLGA SAVARY Hai-kais (1977-1986)
por Geraldo Mello Mourão



O hai-kai está para a poesia japonesa como o soneto está para a poesia ocidental: – é um cânon melódico para a expressão poética. Mais do que o soneto, com suas duas quadras e dois tercetos, o hai-kai busca uma quintessência da expressão poética no terceto único, no rigor de dezessete sílabas, com o primeiro verso de cinco, o segundo de sete e o terceiro novamente de cinco.

A composição perfeita tem seduzido também os poetas do Ocidente. No Brasil, o primeiro exemplo é, desde logo, o do poeta Oldegar Vieira, que já nos anos 30 dava seu admirável Folhas de Chá, com uma preciosa antologia de hai-kais ortodoxamente construídos sobre o metro de cinco-sete-cinco.

Nem sempre será ortodoxo, no escandir do metro, o hai-kai que agora nos oferece Olga Savary. Mas o soneto, em todas as nossas literaturas, tem sido trabalhado também, fora dos rigores canônicos que nos vêm dos italianos, sobretudo Petrarca, sem que com isso se tolde a lírica beleza de sua forma. É o que ocorre com os hai-kais dessa admirável poeta Olga Savary.

Ela guarda, com mestria maior, aquilo que os haikaístas definem como a virtualidade poética típica do hai-kai: – o conhecimento lírico que nos situa como "num fio de navalha, entre o diáfano e o espesso".

Bashô ou Kikaku, os grandes mestres japoneses do hai-kai poderiam deleitar-se com o contraponto do hai-kai brasileiro de Olga Savary, que guarda a "inuberância" – para usar uma palavra rilkeana – do cânon milenar de dezessete pés métricos. Cada um caindo sobre nós, lapidado como um cristal, mas também vivo como uma gota de orvalho, na brevidade de sua expressão. Como uma gota de poesia.





APRESENTAÇÃO E PREFÁCIO AO LIVRO Linha-d'água (1980-1987)
por Antônio Houaiss


Olga Savary é senhora de uma gleba fecunda no território da poesia brasileira viva que ninguém que aí se nutre deve desconhecer.

É que sua vária poesia, sua vária messe, tem uma vertente luminosa e cantante e quase constante – água de chuvarada escorrendo sobre basalto lavado, sol ofuscante com revérberos argênteos e cintilâncias e ecos primevos, água erótica transfigurada, água prima. E os que supúnhamos que esse veio tivesse sido bem explorado por poetas – a lista dos nossos nesta temática é longa –, vemos, gratos, que nela Olga é como que inaugural, ousando tudo, insinuando tudo, reinventando tudo e – quase – ensinando tudo – e quase porque é ímpeto e desidério nela que cada um a descubra, a essa água, como o faz ela mesma.

E Olga é sempre reverente: trata-se de poesia que, por amar o amor e por amor do amor, busca tudo que embeleza, incrementa, alimenta o amor – e por isso há nela um culto cupidíneo, amoroso, erótico também das palavras – esse seres que salvam o amor para a eternidade, como seres de antes e de depois do amor e que o suscitam e o ressuscitam.

É uma beleza este livro de Olga. É uma beleza que não se gasta nem se consome.

É imperativamente necessário, aos que amam o amor, amar este livro – relendo-o aleatoriamente nos vagares de todo o sempre. Pois é livro que fica.

E louvor a Massao Ohno, mestre e remestre editor, que veste com pudor a audácia erótica savaryana e wakabayashiana, essa maneira tão água e tão Olga de cantar o amor.


Rio de Janeiro, 21 de fevereiro 1987


AS FORMAS DA ÁGUA
por Felipe Fortuna

Águas tempestuosas, águas balsâmicas, água doce, água salgada: o que é isso, afinal? Na poesia de Olga Savary, a água mole, assim como a pedra dura do diamante, é multifacetada. É também vital, e quase sempre vinculada aos jogos do amor. Fundamento, origem e gênese, a água é uma totalidade, uma evidência da unidade do mundo. Já há algum tempo, em Espelho Provisório (1970), antes, portanto, de reunir a quase vintena de poemas sob a marca sutil da linha-d'água, Olga Savary havia definido os pólos de sua tensão:


Ah, derramar-me líquida sobre o mar

– ser onda indefinidamente –


Isso porque Olga Savary foi seduzida por aquilo a que os gramáticos dedicam a mais depurada repulsa: a confusão entre gênero e sexo. Pois, como eles preferem, a divisão entre masculino e feminino prende-se a uma classificação que atinge também as coisas inanimadas, e não à existência do macho e da fêmea. Assim pensa Cassirer, ao deduzir que a influência do sexo "representa apenas uma corrente particular na lingüística e não um princípio universal". As línguas românticas, contudo, sempre estiveram afeitas a essa contaminação, suscitando as mais diversas análises, dos primeiros freudianos até Leo Spitzer – ao estudar a "feminização do neutro" como resultado, ao mesmo tempo, da mulher enquanto força criadora e objeto de posse. Como é óbvio, o imaginário da língua suplantou com vigor a gramática, fazendo do gênero um símbolo do sexo. Um tradutor brasileiro de Mallarmé, ao deparar uma imagem de conúbio amoroso em que la mer era o elemento-mulher, verteu-a sabiamente por as águas – mantendo a metáfora sexual. Essa é a mesma fronteira delineada por Olga Savary – salvo o detalhe, essencial, de que o mar é de outro sexo, como escreveu em Magma (1982):

Mar é o nome do meu macho

pois, agitada pelo movimentos, e tornando ainda mais complexas as imagens, a água é a substância e o substantivo, enquanto o mar age como se possuísse a força de um verbo, infinito e infinito. Mulher e homem: as águas invadem sob a forma de mar. Mar é invasão, e de tal modo profunda invasão que é capaz de transformar, como em Altaonda (1979), sua enraizada e telúrica natureza:

Entro na água e logo

a terra torna-se uma memória antiga.


Existe uma intenção cosmopolita na poesia de Olga Savary, e a água exprime esse desejo. Do fundo de sua serenidade, de sua meditação concentrada em poemas de poucos versos, emerge um projeto assombroso: dizer tudo. Com Tales de Mileto, essa mesma necessidade de sondar a natureza da matéria fez surgir o primeiro veio da filosofia. Segundo o pré-socrático, a água é o princípio da natureza úmida, presente no alimento e na terra que detona a semente. Começou com ele, conforme anotou Hegel, não apenas a idéia de que a água era o absoluto, mas de que, enfim, o um é a essência. Ao abandonar a alegoria tão comum ao pensamento anterior (por exemplo, o dos órficos), declarando "tudo é um, tudo é água", ele reduziu a natureza humana à sua vastidão.

Esse princípio de vida é o mesmo na poesia de Olga Savary, que o recupera como se procurasse escutar toda a memória do mar na arquitetura de um búzio. A sua intenção, pois, é resgatar: na dimensão da água, o fundamento de uma unidade cósmica, na intitulação de vários de seus poemas, em que prefere corresponder-se com o Tupi, a língua original da Ilha de Vera Cruz, da Terra de Santa Cruz, do Brasil. A língua indígena é o reduto dessa memória, e, enfim, quanto à água, a grande porção que constitui, ao mesmo tempo, duas terças partes do corpo humano e três quartas partes do planeta Terra.

Dificilmente outra poesia poderia ser, pelo menos quanto ao seu tema, tão universal, tão abrangente e, até, solidária. Pois de que valeriam essas águas se nelas não rolassem as espumas que, da forma verbal grega, originaram o nome de Afrodite? Ou se elas também não fossem esperma, a correr em rios, ou se tudo não estivesse traduzido no amor – núcleo abstrato do contato físico com a água? Nesse Linha-d'água, Olga Savary redescobre a sua fonte primordial, e escreve sobre as transparências, sobre um corpo impresso no outro corpo, como quem insinua os traços dos amantes nos lençóis desarrumados: sinais de mutações que quase não deixam sinais, apenas vagas indicações. Armada de "dual sensualidade", a água é uma evidência com a qual ela se defronta (água que ataca, embebe, cauteriza). Mergulhada na água, Olga Savary faz parte de um mistério que reside na imensidão, jamais nos detalhes secretos: para ela, o mistério só existe quando já atingiu a dimensão infinita. Num desses poemas, o verso "me entrego, desaguada, sem medir margens"
alude ao encontro e ao conforto simultaneamente, ela é água e à água se confunde – com desmedida, com exagero torrencial. A água que a encaminha para o infinito; para a perdição; para a vastidão indomável:
água, bicho sem pêlo
onde poder agarrar


Olga Savary também escreve de águas passadas, ou seja, de tudo o que não se dissolveu. A associação do mar com o macho é de novo traduzida num magnífico verso, de angustiada certeza, todo monossilábico:


Que és o mar, meu mar, eu sei


Na sua entrega, em que perde e ganha identidade, ela envelhece a terra; e, exilando-se, emigra para a sua outra natureza erótica:


Que eu toda me torne desterro


Acostumada à concisão, sua poesia exercita, com formas breves, com metros curtos, a permanência – qualidade, aliás, que lhe permitiu dominar a estrutura do hai-kai, talvez avessa às peculiaridades do idioma. Ao estrear numa década violenta da história política do País, Olga Savary atravessou-a com a delicadeza da linha-d'água no papel, sem se permitir a poesia engajada: ela é, de fato, poeta dos elementos, das formas naturais, das pequenas elegias. Que sua poesia, passada a tormenta, ainda seja apreciada, é sinal de que algo (ou muito) escapou à sua absurda serenidade. Ela não possui, é certo, a vocação histórica, quase visceral, do Ferreira Gullar de Poema Sujo (1975); ou mesmo os exercícios políticos de Affonso Romano de Sant'Anna e de Armando Freitas Filho. E muito menos o fracasso poético da poesia marginal. Olga Savary, nesse sentido, tenta evitar a definição de sua época: quando escreveu sua poesia, ninguém sabe. Ao contrário de Drummond, cuja dicção tantas vezes ecoa em seus versos, ela se interessa pelo "tempo presente". Aquela suposta permanência, por isso estranhamente conquistada por sua indefinição. Mas é poesia definida porque, no grande mar a que se entrega, suas palavras se encontram naquele pequeno ponto em que reina, solitária, a ardência da água-viva.

Rio de Janeiro, fevereiro 1987

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