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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

30 de agosto de 2010

Toda Nudez Será Castigada



“Toda Nudez Será Castigada”,
de Arnaldo Jabor
(1973)


Eixo temático

As sociedades de modernização hipertardia no século XX tendem a ser precoces em sua explicitação de formas degradadas de sócio-reprodutibilidade do capital. São sociedades burguesas que não conseguiram romper com o lastro do tempo passado, com tradições e valores pré-capitalistas (é como se os mortos governassem os vivos, como diria Auguste Comte, pai da sociologia e ideólogos genial da modernidade burguesa). Nas sociedades capitalistas hipertardias, tal dimensão de regressividade é atávica, permeando, inclusive, a própria modernização inconclusa. Na verdade, o tempo passado constitui o tempo presente e o tempo futuro. Estamos diante de uma construção do tempo social que imprime sua marca nas experiências de subjetividades complexas, determinando valores, expectativas sociais e escolhas ético-morais. A reprodução social ocorre através da construção da percepção da temporalidade - tempo passado, tempo presente e tempo futuro. Tais modos de temporalidades são condicionados pelas formas de objetivação sócio-histórico das relações sociais capitalistas. É através delas que ocorre o processo de subjetivação social. No caso de sociedades capitalistas hipertardias, as contradições do capital em suas formas exacerbadas, se transfiguram em tragédias quase-heróicas.

Temas-chaves: capitalismo hipertardio e tempo social; família, reprodução social e crise do capital; mulher e sociedade; valores e estranhamento social.

Filmes relacionados: “O Casamento”, de Arnaldo Jabor; : “Beleza América”, de Sam Mendes; “Festa em Família”, de Thomas Vintenberg; “Tempestade de Gelo”, de Ang Lee.

Análise do Filme

Baseada na peça homônima de Nelson Rodrigues, o filme Toda Nudez Será Castigada, dirigido (e com roteiro adaptado) por Arnaldo Jabor, é um drama de família. É uma crítica mordaz da subcultura da família de “classe média” no Brasil. O humor é meramente um recurso estilístico para expor as degradações e taras de uma sociabilidade barroca e hipócrita, típica de um capitalismo hipertardio de extração colonial-prussiana. Esse tipo de objetivação do capitalismo no Brasil criou uma sociabilidade perversa (e pervertida) em suas várias instâncias sócio-reprodutivas. O realismo desbragado de Nelson Rodrigues é sintoma dessa sociedade capitalista inconclusa em sua modernização tardia. É uma incompletude que atinge não apenas as estruturas de produção do capital, mas suas instâncias de reprodução social. Atinge não apenas as instituições políticas do Estado e da sociedade civil, com uma democracia representativa gelatinosa; mas a subjetividade corroída, invertida e problemática de homens e mulheres da “classe média”.

Na verdade, é através do drama de “classe média” que Rodrigues quer pensar o Brasil. A “classe média” sempre oscilou entre uma burguesia decrépita e um proletariado amorfo à sombra de um Estado populista. E é através das comédias de costume dessa classe média que Rodrigues tenta refletir a tragédia brasileira. O drama de humor caustico de Nelson Rodrigues reflete a subjetividade de uma modernização inconclusa, onde a instância sócio-reprodutiva da família pequeno-burguesa já se constitui em crise estrutural, totalmente incapaz de representar uma sociedade clivada de contradições atávicas pela inconclusão da questão democrática e da questão nacional.

Em “Toda Nudez Será Castigada”, a família é apenas uma referência esgarçada, e seus valores morais são mero adereços superficiais. Não existe uma família nuclear típica de uma sociedade burguesa com seus valores-fetiches. É da “classe média” que provém o imaginário da família burguesa. Mas o que Nelson Rodrigues procura devassar é a incapacidade da “classe média” brasileira em prover tal ideal de família e torna-los valores-fetiches de uma sociabilidade moderna plena. Sua narrativa expressa a total incapacidade da “classe média” em ser o lócus valorativo de uma instância sócio-reprodutiva fundamental: a família. É o descrédito absoluto na capacidade da reprodução social da modernidade capitalista no País.

Nelson Rodrigues é o grande arauto do fracasso da nossa modernização capitalista hipertardia. Ao adaptar para o cinema a peça teatral de Nelson Rodrigues, em 1973 (o ano-marco da “crise do milagre brasileiro”), Jabor prenuncia a tragédia brasileira que se desenvolveria nos trinta anos seguintes. Em “Toda Nudez Será Castigada”, a morte da esposa de Herculano e mãe dominadora do jovem Serginho cria um colapso existencial no seio de uma família de “classe média”. A mãe não aparece no filme, mas é citada como memória presente (o filho Serginho nutre uma obsessão exagerada pela mãe morta, exigindo do pai que ele não mantenha nenhuma relação sexual até a morte).

É a alegoria da presença aterradora do passado morto que pesa sobre os vivos que Nelson Rodrigues procura salientar nesse drama do rico viúvo Herculano. O passado é um fardo miserável para ele. Mesmo Geni, a prostituta pela qual ele irá se apaixonar, quando se suicida, deixa uma fita gravada, dizendo: "Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei". Novamente, Herculano está imerso entre mortos que lhe dominam. O que Rodrigues sugere é uma alegoria da tragédia das sociedades burguesas hipertardias, onde o arcaico convive com o novo. Deste modo, a memória da falecida mãe oprime tanto o pai, quanto o filho.

O filme começa com uma situação-limite: Herculano, um viúvo que pauta sua vida por rígidos códigos familiares e religiosos, não suporta mais o vazio existencial de um núcleo familiar esgarçado pela morte da mulher. Totalmente imerso em sua profunda depressão, continua decidido a manter-se fiel à mulher falecida. As tias, temendo que ele cometa suicídio, suplicam ao outro sobrinho, irmão de Herculano, Patrício (representado por Paulo César Pereio), que procure alguém para preencher o vazio existencial na vida de Herculano. Patricio, desempregado, dependente de Herculano, decide apresentar a ele uma prostituta, Geni (Darlene Glória). Para Patricio, o sexo é a solução para seu irmão, semi-virgem. É Patrício, o malandro, que introduz os elementos diruptivos da estrutura narrativa do filme (Primeiro, Geni, e depois, de modo indireto, o ladrão boliviano – o interessante é que os dois personagens são de origem popular).

O irmão de Herculano é a típica figura do malandro carioca, que vive às custas do irmão. Ao procurar uma amante para Herculano ele age por interesse próprio, pois se Herculano cometer suicídio ele perde seu sustento. Na peça teatral de Nelson Rodrigues, Patrício tem uma maior presença como um personagem mediador de elementos diruptivos da trama narrativa (o que não ocorre no roteiro adaptado de Arnaldo Jabor). Por exemplo, na peça original, é Patrício que cria duas situações decisivas para o destino do personagem Serginho (é ele que leva o filho de Herculano para ver o pai com Geni) e para o destino da personagem Geni (é Patrício que diz a Geni que viu Serginho fugindo num avião com o ladrão boliviano). A ultima situação não aparece no filme. É o surgimento de Geni que irá transtornar o viúvo Herculano e faze-lo romper, mesmo com dilaceramentos internos, com a memória angustiada do passado.

Na verdade, o personagem Herculano é cindido por dilemas antitéticos que Nelson Rodrigues nos apresenta de modo exagerado e que Jabor conseguiu traduzir no cinema através do desempenho magistral de Darlene Glória e Paulo Porto. Herculano é um personagem esquizóide, que oscila entre uma fidelidade doentia à sua mulher falecida, considerada por ele uma santa, que ele não xingaria nem em pensamento, e uma paixão sexual por Geni (durante a relação sexual com ela, totalmente inebriado, Herculano grita que a falecida era uma chata).

O filme é uma dança de extremos ético-morais: Castidade absoluta ou devassidão sexual. Não existe meio-termo na narrativa de Rodrigues. O exagero é um recurso estilístico de Nelson Rodrigues para apreender o drama trágico de uma sociabilidade capitalista inconclusa em seus valores modernos. Mas pode representar também a incapacidade que a “classe média” decadentista encontra para efetuar um tertium datur entre uma burguesia colonial incapaz de realizar a modernização plena e obrigada a conviver com o latifúndio e o proletariado gelatinoso, incapaz de consciência de classe e dependente do Estado populista.

Deste modo, Herculano oscila entre os valores barrocos de um catolicismo arcaico e a devassidão sensualista, absolutamente lúbrica, sem limites, representado por Geni e pelo bordel. Para resolver o impasse, Patrício, irmão de Herculano, sugere que Geni aproveite a paixão delirante de Herculano para exigir casamento. Só casando Herculano poderia possuir Geni (o casamento aparece como um valor inestimável do imaginário burguês: casando-se, Geni perderia, inclusive, o estigma de “puta”. Como afirmou uma das tias de Herculano ao ver Geni no altar com Herculano, “ela é virgem”). Mas para se casar, Herculano precisa fazer o filho Serginho aceitar o casamento.

Herculano, empresário bem-sucedido, para quem dinheiro não é problema, consegue romper com a memória da falecida e encontra em Geni, uma prostituta, a realização da sua felicidade sexual. Por outro lado, Geni encontra nele a realização de uma segurança material que nunca teve (a bela Geni tem sua obsessão – como todos os personagens de Rodrigues: a certeza de que sua morte viria de um câncer nos seios. Nem imagina que seu verdadeiro câncer é o pathos da “classe média”, representado por Herculano e Serginho). Serginho, o filho que vive da memória da mãe morta, não aceita que o pai tenha outras mulheres. Ao ver o pai com Geni, Serginho, totalmente transtornado, se dirige a um barzinho, bebe todas e provoca uma briga (a figura do “povo” aparecem no bar como totalmente hostil à elite branca dominante). Serginho é recolhido ao xadrex, o “depósito de presos”, como diz o delegado, e lá é estuprado por um ladrão boliviano (o segundo personagem diruptivo da narrativa).

Um detalhe: o personagem do delegado, representado por Hugo Carvana, aparece também num ato de infidelidade conjugal, conversando com a amante ao telefone na delegacia, totalmente obcecado por sexo. Na trama narrativa de Rodrigues, todos são infiéis e incestuosos até provem o contrário. O ato de estupro de Serginho pelo ladrão boliviano provoca uma nova inflexão na estrutura de um personagem central. O transtornado é Serginho que agora passa a aceitar o casamento do pai com Geni. Mas seus motivos são perversos: sem o pai saber, Serginho seduz Geni e passa a envolve-la e ser amante dela. É a forma que Serginho utiliza para “vingar” a infidelidade do pai: tornar-se amante da madrasta, da sua nova mãe (a sugestão incestuosa é explicita). O incesto como vingança. Mais tarde, Geni, apaixonada por Serginho, se transtorna e comete suicídio quando assiste Serginho fugindo de avião com o ladrão boliviano.

O que observamos é que a estrutura narrativa é marcada por inflexões drásticas nos personagens de “classe média”, onde o agente diruptivo são personagens do “povo” (Herculano conhece Geni e instaura-se uma nova situação; Serginho é estuprado pelo ladrão boliviano e surge uma outra situação nova). A inflexão repõe infidelidades fictícias ou reais (a infidelidade de Herculano, que é meramente fictícia; e a de Geni, que é real), além de sugerir um complexo de relações incestuosas (a relação de Serginho e Geni sugere uma relação do filho com a mãe). O final (o suicídio da prostituta) poderia ser considerado moralista. Mas é o sintoma de uma tragédia, de uma situação de absurdo inaceitável. Talvez a paixão diruptiva de Geni por Serginho e a sua traição com o ladrão boliviano é que tenha sido o motivo de seu suicido (Geni é fascinada pela jovialidade de Serginho: representação de um amor pelo filho?). É mais a dor de uma perda do que o absurdo da situação moral (a relação de Serginho com um ladrão pederasta). Mas a dor moral se confunde com a dor passional. Herculano talvez não tenha tanta dignidade existencial para cometer suicídio. Mas a meretriz, mulher do povo, a prostituta, é levada a tal gesto trágico. É ela, a representação do “povo”, que se sacrifica diante do altar de uma sociabilidade degradada.

A representação do “povo” em “Toda Nudez Será Castigada” é de uma massa amorfa, indiferente ao drama da “classe media” transtornada pelas suas taras barrocas. O “povo” está no bordel, em busca de satisfação sexual. e inclusive poética, com velhos solitários buscando as putas; e na via pública com seus rostos anônimos e espectadores da euforia de Geni (é numa esquina de grande movimentação de pedestres que Geni pede Herculano em casamento); ou no boteco, onde Serginho, transtornado por ter visto Herculano com Geni, agride uma figura popular (que expressava seu desprezo pela elite branca do país); no “depósito de presos” ou cela de uma delegacia, onde Serginho é estuprado por um ladrão boliviano sendo assistido pelos demais presos brasileiros, que cantam “Bandeira Branca” (o fato de Serginho ter sido estuprado por um boliviano talvez seja a representação da incapacidade do povo “estuprar” sua própria “classe média” – a passividade do povo é expresse até nisso).


Um outro drama familiar de “classe média”, produzido nos EUA, em 1999, Beleza Americana possui, como seu mote promocional, a expressão “look closer” (olhe bem de perto). “Toda Nudez Será Castigada” como drama de uma sociabilidade estranhada e pervertida, possui também seu mote narrativo quando Geni grita com Herculano, o pater famílias estranhado: “Você pensa que sabe tudo, mas não sabe nada Herculano”, brada Geni. Novamente é a personagem feminina acusando o macho dominador, decadente, pela sua cegueira visceral (é curioso que, de certo modo, é o que diz Nicole Kidman como Alice, para Tom Cruise como William Harford, em De Olhos bem Fechados, de Stanley Kubrick). Herculano é cego para seus gestos de infidelidade de Geni com o Serginho e cego para com a perversão sexual de Serginho com o ladrão boliviano. Enfim, é cego para a dissolução da família como núcleo orgânico (uma dissolução pressuposta, mas ainda não realizada).

Mesmo casando-se e constituindo o núcleo orgânico estável (a família e o casamento como elemento conservador), a instabilidade interna, de traições, infidelidades e perversões, estava latente. É a crise orgânica latente que implode o universo de “classe média”, incapaz de se recompor diante de uma sociabilidade devassada. O sacrifico de Geni e a loucura de Herculano transmitem a tragédia brasileira. Realça o ambiente barroco, decadente onde transitam os personagens. Figuras greco-romanas se amontoam sob poeira na mansão de Herculano. São ambientes mal-cuidados, retratando que o drama de “classe média” é uma drama decadentista, como parece prenunciar o Brasil em 1973.

O filme anuncia o decadentismo brasileiro e por isso “Toda Nudez Será Castigada” é mais atual do que nunca. A musica de Astor Piazolla dá um tom de tango portenho a um drama brasileiro. Mais tarde, em 1975, Jabor iria filmar “O Casamento”, outra peça de Nélson Rodrigues, onde transmite a verdade que se esconde sob a aparente felicidade burguesa: injustiças, perversões sexuais, adultério, crimes e até incesto. Aqui o fetiche é diluído por si e em si. Tudo é contado de uma maneira tempestuosa, por vezes chocante, misturando lágrimas e gargalhadas, ópera com comédia, paixão com loucura. Em “Toda Nudez Será Castigada”, pelo contrário, não existe o fetiche e quando ele existe é diluído em sórdida ironia. Na verdade, existe a exposição crua e direta de uma sociabilidade familiar decrépita.

Giovanni Alves (2003)

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