Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

25 de setembro de 2010

A MULHER MADURA Affonso Romano de Sant'Anna

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.



O texto acima foi extraído do livro "A Mulher Madura", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986, pág. 09.

24 de setembro de 2010

ANTES QUE ELAS CRESÇAM Affonso Romano de Sant'anna

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

É que as crianças crescem. Independentes de nós, como árvores, tagarelas e pássaros estabanados, elas crescem sem pedir licença. Crescem como a inflação, independente do governo e da vontade popular. Entre os estupros dos preços, os disparos dos discursos e o assalto das estações, elas crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.

Mas não crescem todos os dias, de igual maneira; crescem, de repente.

Um dia se assentam perto de você no terraço e dizem uma frase de tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura.

Onde e como andou crescendo aquela danadinha que você não percebeu? Cadê aquele cheirinho de leite sobre a pele? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços, amiguinhos e o primeiro uniforme do maternal?

Ela está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça. Ali estão muitos pais, ao volante, esperando que saiam esfuziantes sobre patins, cabelos soltos sobre as ancas. Essas são as nossas filhas, em pleno cio, lindas potrancas.

Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas, lá estão elas, com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros ou, então com a suéter amarrada na cintura. Está quente, a gente diz que vão estragar a suéter, mas não tem jeito, é o emblema da geração.

Pois ali estamos, depois do primeiro e do segundo casamento, com essa barba de jovem executivo ou intelectual em ascensão, as mães, às vezes, já com a primeira plástica e o casamento recomposto. Essas são as filhas que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das notícias e da ditadura das horas. E elas crescem meio amestradas, vendo como redigimos nossas teses e nos doutoramos nos nossos erros.

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos próprios filhos.

Longe já vai o momento em que o primeiro mênstruo foi recebido como um impacto de rosas vermelhas. Não mais as colheremos nas portas das discotecas e festas, quando surgiam entre gírias e canções. Passou o tempo do balé, da cultura francesa e inglesa. Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas. Só nos resta dizer “bonne route, bonne route”, como naquela canção francesa narrando a emoção do pai quando a filha oferece o primeiro jantar no apartamento dela.

Deveríamos ter ido mais vezes à cama delas ao anoitecer para ouvir sua alma respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os adolescentes cobertores daquele quarto cheio de colagens, posteres e agendas coloridas de pilô. Não, não as levamos suficientemente ao maldito “drive-in”, ao Tablado para ver “Pluft”, não lhes demos suficientes hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas merecidas.

Elas cresceram sem que esgotássemos nelas todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos, comidas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscinas e amiguinhas. Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de sorvetes e sanduíches infantis. Depois chegou a idade em que subir para a casa de campo com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma aqui na praia e os primeiros namorados. Esse exílio dos pais, esse divórcio dos filhos, vai durar sete anos bíblicos. Agora é hora de os pais na montanha terem a solidão que queriam, mas, de repente, exalarem contagiosa saudade daquelas pestes.

O jeito é esperar. Qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso, os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável afeição. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto.

Por isso, é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que elas cresçam.

23 de setembro de 2010

ESTELA AMOROSA Affonso Romano de Sant'anna




Posso fingir que nada aconteceu
após esse telefonema?

Olho pela janela, a montanha, os prédios.
Posso sair, comprar roupa nova,
ir ao cinema, ao bar, concerto,
respirar fundo, dizer, tinha que acontecer,
dizer, amei-a muito, pensar
que o passado já começou.

O telefonema em mim ressoa.
Sobre um sentimento assim não se põe uma pedra
e se segue em frente
Mesmo que eu siga, sem olhar pra trás
a pedra
florescerá
secretamente

22 de setembro de 2010

SEPARAÇÃO Affonso Romano de Sant'anna






Desmontar a casa
e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

SILÊNCIO AMOROSO 2 Affonso Romano de Sant'anna


Preciso do teu silêncio
cúmplice
sobre minhas falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor vogal
pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir. É um modo
denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes,
é fina forma de amar.

21 de setembro de 2010

SILÊNCIO AMOROSO Affonso Romano de Sant'anna

Deixa que eu te ame em silêncio.

Não pergunte, não se explique, deixe

que nossas línguas se toquem, e as bocas

e a pele

falem seus líquidos desejos.
Deixa que eu te ame sem palavras

a não ser aquelas que na lembrança ficarão

pulsando para sempre

como se amor e vida

fossem um discurso

de impronunciáveis emoções.

ARTE-FINAL Affonso Romano de Sant'anna



Não basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor dos artistas, não se enganem,
não é mais belo
que o amor da gente.

O grande amante é aquele que silente
se aplica a escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.

Uma coisa é a letra,
e outra o ato,

– quem toma uma por outra
confunde e mente.

INTERVALO AMOROSO Affonso Romano de Sant'anna

aquarela de Jaqueline Campos


O que fazer entre um orgasmo e outro,
quando se abre um intervalo
sem teu corpo?

Onde estou, quando não estou
no teu gozo incluído?
Sou todo exílio?

Que imperfeita forma de ser é essa
quando de ti sou apartado?

Que neutra forma toco
quando não toco teus seios, coxas
e não recolho o sopro da vida de tua boca?

O que fazer entre um poema e outro
olhando a cama, a folha fria?

20 de setembro de 2010

POESIA

aquarela de Jaqueline Campos


Limites do Amor
Affonso Romano de Sant'anna

Condenado estou a te amar
nos meus limites
até que exausta e mais querendo
um amor total, livre das cercas,
te despeça de mim, sofrida,
na direção de outro amor
que pensas ser total e total será
nos seus limites da vida.

O amor não se mede
pela liberdade de se expor nas praças
e bares, em empecilho.
É claro que isto é bom e, às vezes,
sublime.
Mas se ama também de outra forma, incerta,
e este o mistério:

- ilimitado o amor às vezes se limita,
proibido é que o amor às vezes se liberta.

Contemporâneo Affonso Romano de Sant'anna

Contemporâneo, Affonso Romano de Sant'anna é um dos mais legítimos representantes da literatura brasileira do nosso tempo, integrado em problemas e perplexidades atuais, Affonso Romano é poeta, ensaísta, cronista e professor. Nasceu em Belo Horizonte, 27 de março de 1937. É casado com a escritora Marina Colasanti.
Affonso Romano participou dos grupos de vanguardas dos anos 50 e 60 que transformaram a poesia brasileira e exerceu forte influência na opinião pública do país. Como jornalista trabalhou em importantes jornais e revistas: Jornal do Brasil, O Globo, Isto é, Veja. Atualmente escreve no Estado de Minas Gerais e no Correio Braziliense.
Muitos trabalhos seus viraram peças teatrais além de serem objetos de teses de mestrados e doutorado no Brasil e no exterior. Affonso é crítico de algumas produções contemporâneas, tendo escrito vários livros sobre o assunto. Segundo Affonso Romano,

"Há um tipo de artista contemporâneo que é cínico. Ele não faz arte e se beneficia da arte. Ele fala mal do sistema e fatura o sistema o tempo todo".

http://bethccruz.blogspot.com/2009/05/contemporaneo-affonso-romano-de.html

CASAPOEMA www.casapoema.com.br

14 de setembro de 2010

Recordando...

Portifólio do jornalista e editor André Cardoso. Comercial de 30" filmado em 35 mm para o Jornal do Brasil. Atuam: Márcia Peltier e Hildegard Angel.




COLUNA JB HILDEGARD ANGEL
http://hildegardangel.wordpress.com/category/coluna-hilde/


Réquiem para uma coluna pelos seus leitores
Publicado em 31 Agosto 2010 por Hildegard Angel


Prometi hoje, em minha última coluna no último Jornal do Brasil impresso, que publicaria manifestações de leitores sobre a coluna às vésperas do fim do JB-papel. Como houve uma orientação dada pelo atual editor de não se mencionar nada a respeito do fim do jornal, disciplinadamente guardei o material, que já estava há vários dias formatado, para postar hoje aqui neste blog – e só para vocês, queridos.

Estas são algumas das mensagens. Houve muitas outras, às quais já me havia referido na coluna do jornal, e chegaram outras tantas muitas, que depois “postarei” aqui com os devidos agradecimentos.

E AÍ VÃO vários dos muitos carinhos e elogios que a colunista recebeu, ultimamente, que eu estendo na íntegra à equipe que me cercou na coluna, boa, competente e, sobretudo, amiga. À Mary Carvalho, precisa e firme, comigo há mais de 20 anos (se somarmos as fases várias), à brava repórter Andréa Cardoso, super espirituosa, ao meu “agente externo” José Ronaldo, fofíssimo e antenado, à Andréa Dutra, minha sub aos Domingos, um toque de cultura e contracultura, com sua inteligência moderna e ao superfotógrafo Sebastião Marinho, o mais bem vestido dos repórteres fotográficos do país e detentor do segredo da luz que mais favorece e embeleza os fotografados…
COM A PALAVRA, meus leitores amados, salve, salve… DE BELITA TAMOYO: “Hilde, você não pode parar. Você é móveis e utensílios do Rio”… A CANTORA Ithamara Koorax diz: “Lamento o final da versão impressa do JB. Mas tenho certeza de que você e outros queridos amigos que tenho aí no JB continuarão brilhando de uma forma ou de outra”… O PRESIDENTE da Academia Brasileira de Letras, Marcos Vilaça, envia a gravação da sessão dos imortais do último dia 15, na ABL: “Foi um dos mais vivos testemunhos de apreço, de toda admiração, ao belo jornalismo feito ao longo de décadas pelo JB. Falaram muitos acadêmicos”… A ACADÊMICA Nélida Piñon observa em seu e-mail à colunista: “A perda do JB nos empobrece para sempre”…
O LÍDER comunitário Joel Nonato, presidente da Amorabse, escreve: “O fim do Jornal do Brasil impresso é uma perda para a inteligência carioca. Somos leitores de sua coluna rica em informações”… DE TANIT GALDEANO: “Tenho acompanhado a preocupação dos amigos, tipo “como vamos ficar sem ler a Hilde?”. Conhecendo vc, sua experiência, sua inteligência, nem por um momento imagino que vc nao tenha um projeto, um plano B. Então, querida, estou aguardando ordens, ou seja, onde vou ler sua coluna. Tenha certa minha admiração pela pessoa que vc é e pela profissional imbatível”…
O CARINHO da linda modelo Georgia Wortmann e do oftalmologista Almir Ghiaroni: “Há muitos anos, você faz parte da nossa vida. Foi com tristeza que recebemos a notícia da interrupção da edição impressa do JB”… SERGIO FELIPE Coutinho: “Demorei a me manifestar porque não acreditei que seria possível (o fim do Jornal do Brasil impresso) e lendo sua coluna diariamente com as cartas dos amigos e conhecidos, aí sim “caiu a ficha””…
A CERIMONIALISTA Amarilis Vianna se manifesta: “No mesmo dia em que você começou no JB, meu marido Manoel de Barros passou a assinar o jornal. Estamos tristes!”… DA ESCRITORA May Mac Dowell “O Jornal do Brasil sempre à espera da família, todo dia, dobrado à mesa do café da manhã ou na hora da volta à casa depois de um dia estafante de trabalho. E um dia chegou você com sua coluna social. O mundo de elegância e sofisticação, dias de festas, dias de lágrimas, apelos por generosidade, crítica, paixão, defesa, denúncia. O Jornal do Brasil jamais morrerá!”…
ZAIDA E Tonico Araujo fazem poesia: “Como dizia o poeta, para onde você for, seguiremos teus passos”… DE TERESA Mascarenhas, produtora cultural: “Continuarei lendo o JB enquanto ele existir (…). E você sempre!”… SUZANA GALDEANO: “Estou muito triste com o fim do JB. Não consigo imaginar meu dia sem ler sua coluna nem meu domingo sem a Revista de Domingo. É uma tradição desde pequena”… JANE ROSE Klarnet escreve bonito… NININHA MAGALHÃES Lins expressa seu afeto com uma carta daquelas pra se guardar e flores… LAJA, DA Sarah Joias, diz que sentirá saudades… MARIA GEYER dá aquele efusivo abraço…
SANDRA E Dudu Garcia: “Grande veículo e motivo de orgulho para nós, cariocas, fica um vazio ao pensar em não recebê-lo mais em casa todas as manhãs”… DO CLÃ Araujo — Helenita, Gilson, Dara e Gilsinho — “Acostumados, há muitos anos, a folhear o respeitado JB, com maravilhosos articulistas e colunistas, temos certeza que a sua querida coluna terá seu lugar de destaque na mídia, como sempre, respeitadíssima”… DOS ARQUITETOS e decoradores Nando Grabowsky e Pedro Guimarães: “A Revista de Domingo e, em especial, o Caderno B vão fazer muita falta, e sua coluna então nem se fala. Estaremos com você onde quer que esteja, com seu jornalismo inteligente e suas opiniões sobre tudo e todos!”…
O ATOR Marco Nanini, o advogado tributarista João Maurício de Araújo Pinho, a viúva de Adolpho Bloch, Anna Bentes Bloch, o jornalista mineiro José Eduardo Gonçalves, o promoter da noite e do dia Sydney Pereira e as Magalhães, mãe e filha, ambas Ruth… BEM COMO Conceição Bueno Brandão, a família Caravello – Ermê, Vicente, Bruno, Flávia, todos dizem que sentirão saudades do JB impresso…
O MESMO FAZEM, em seus cartões, Mario Ribenboim, Priscila Szafir e Benjamin Katz — “O Rio de Janeiro e nós, cidadãos cariocas, perdemos muito com isso!… POR EMAIL, Vera Tostes, juntamente com a equipe do Museu Histórico Nacional, que ela dirige, diz: “No momento em que o Jornal do Brasil não circulará mais nas bancas da cidade, não poderíamos deixar de agradecer a você e a toda a sua equipe pelo enorme apoio que sempre nos deram! Graças à sua coluna, as novidades e os destaques do Museu Histórico Nacional foram amplamente divulgados ao longo desses últimos anos”…
DE NOVA York, Ana Lucia Opitz diz que reza na St. Patrick por novos desafios em minha carreira… SYLVINHA BRACONNOT, assessora de imprensa, sugere que a colunista lance uma revista… O AMÁVEL email de Nestor Rolim Lacerda, secretário-geral da Associação Comercial do Rio de Janeiro: “Nunca passou pela minha mente que o querido Jornal do Brasil um dia deixasse de existir. Pensei ser notícia plantada pela concorrência. Lamento especialmente pela sua eclética coluna com sabor de Brasil, dando voz a todos, famosos ou não.”…
DO JORNALISTA Vicente Limongi Netto: “Querida, o JB é eterno. Sou do tempo em que a condessa Pereira Carneiro era viva e atuante. Portanto, tenho muito tempo de janela. Vida nova, sem esmorecer”… REGINA FERRAZ, a viúva do armador Paulinho Ferraz: “Lamentável o encerramento do JB. Consequentemente da sua brilhante coluna que deixará para todos imensa lacuna”…
A LEITORA Marilda T. Monnerat Witte: “Também vou sentir muita falta do nosso tradicional JB — sou assinante há mais de 30 anos — bem como da obrigatória leitura diária de sua coluna, com notícias esclarecedoras ou divertidas. Espero poder continuar acompanhando suas corajosas opiniões!”… DE ANTÔNIO Azeredo e a escultora Mazeredo: “A mídia impressa fica desfalcada, mas certamente você continuará informando seu público com a mesma competência de grande jornalista”…
MARIA ALICE Halfin lembra que a primeira coisa que seu falecido marido, José Halfin, o criador do Prêmio Molière, fazia ao acordar “era ler sua coluna e me chamar para comentar. Minhas manhãs não serão mais as mesmas, pois ficará um grande vazio”… EDUARDO KAISER diz: “Já estou com angústia em saber que meu café da manhã vai ficar incompleto. Todos os dias quando me sento à mesa, lá estão os jornais; e não preciso te dizer que a primeira coisa que faço é abrir o JB e ir direto para a sua coluna. Continuarei sempre te seguindo pois acho seu jornalismo honesto, inteligente e, como você mesma diz, “de opinião” com a qual, devo dizer sempre me identifico”…
O JORNALISTA de São Paulo Renato Fernandes sugere que eu faça um curso sobre colunismo social: “Venho correndo”. E mais: “Talvez seja a hora, de um livro: sua biografia, ou a realidade da sociedade carioca pela colunista que mais a conhece”… DOS ADVOGADOS Lilian e Sergio Reynaldo Allevato: “Foi com pesar que soubemos que o meu, o seu, o nosso JB encerraria suas atividades na publicação do jornal”…
DE JORGE Renato Thomaz, dono do Garden Restaurante: “Sua coluna marca a graça carioca como ninguém mais o faz. Espero que nosso JB, um dia, volte a ser o topo do topo da elite pensante do Rio”… DO EMBAIXADOR Stelio Marcos Amarante, coordenador de Relações Internacionais da Prefeitura do Rio de Janeiro: “Estamos desolados com a perspectiva de encerramento de atividades do Jornal do Brasil. (…) Se pensarmos que, no passado, quando a cidade tinha pouco mais de um milhão de habitantes, circulavam, simultaneamente ao Jornal do Brasil, o Correio da Manhã, O Globo, o Diário de Notícias, o Jornal do Commercio, O Jornal, O Dia, Ultima Hora, Tribuna da Imprensa e talvez outros mais (…)”…
ALAYDE ROCHA Neves e Olívia Barradas: “Desejamos que você continue a brilhar com as bênçãos de Deus”… THEREZINHA AMORIM envia pelo seu BlackBerry: “com muita pena soubemos do fechamento do nosso Jornal do Brasil. Creia, estaremos sempre juntos a você com as suas informacoes e seu jornalismo verdadeiro”… OS LEITORES Ricardo e Helena Curado de Miranda: “Assinantes há 30 anos e leitores assíduos da sua grande coluna, estamos muito tristes com o fechamento do JB!”…
ANTONIO CARLOS Poerner, professor da Fundação Getúlio Vargas, nos cursos de pós-graduação de 1968 a 1990, reporta-se à carta do Vice-Presidente da República, José Alencar, sobre o fim do JB, publicada neste jornal no último dia 24: “Foi um “chamado” feito com a simplicidade que a todos nos toca. Disse-nos, o querido José Alencar, com um repto, que o fim da edição impressa do JB “representa esvaziamento significativo para a mídia carioca”. No final de sua bela carta de solidariedade, publicada como um artigo, lançou-nos um segundo repto: “Alguma coisa deveria ser feita para que o Jornal do Brasil continuasse existindo”, numa convocação geral a quem puder contribuir efetivamente para tirar o JB dessa situação difícil”…
A FAMÍLIA SAUER, da joalheria Amsterdam Sauer, se manifesta em peso (Jules, Zilda, Debora, Marina, Alexia, Stephanie, Silvio): “É realmente uma pena que o JB irá deixar de circular com sua coluna ímpar! Somos fãs da coluna da Hilde de carteirinha! Conhecendo o seu jeito, temos certeza de que buscará outra mídia, à sua altura, para dar continuidade ao seu jornalismo de que tanto gostamos. Só não pode parar!”… OUTRA QUE nos escreve é a jornalista Maria Cláudia Bomfim: “Quero lhe agradecer pelos momentos de alegria, de satisfação cívica, de conhecimento que você me proporcionou com sua coluna no JB, que infelizmente termina. Desejo que em novos caminhos continue a jornalista vivaz, íntegra, interessada e generosa que sempre foi”…
O ARQUITETO Gilmar Peres: “Tenho certeza de que nós leitores não ficaremos orfãos por muito tempo”… O CASAL Anna Thereza e Paulinho Vianna se manifesta junto: “Acompanhamos diariamente sua coluna! A coragem de uma jornalista, suas batalhas e verdades, opinião sobre política, cultura, as fotos que divertem, o comentário que gera curiosidade, a sutileza da nota, a descrição de uma festa, jantar e lugar – sem igual!!! Sentiremos saudades do manuseio diário da sua coluna”…
PATRÍCIA MAYER, da Casa Cor, fala: “Ainda me perguntando como vou fazer após dia 1º de setembro no meu hábito diário de abrir o jornal na sua página assim que chego na mesa do café. Vc vai para a Internet? Seus leitores querem saber. Bem, onde vc estiver, estarei lá, fiel leitora”… O IMORTAL Arnaldo Niskier: “A sua bonita carreira permitiu que você vivesse, gloriosamente, os tempos de Bloch a Blog…”… EDGARD Octavio deixa sua manifestação de tristeza. Christiana Medeiros lamenta muito o término do JB e da coluna. Helena Pedrosa, voltando de dois meses fora, diz que ficou estarrecida com a notícia do término do JB e da coluna…
PAULO BARRAGAT é enfático: “Eu a seguirei sim, no seu Twitter e no Blog! Gosto da “coluna de opinião” mesmo quando não é a minha — é inteligente, coerente, sincera e generosa”… DO COLUNISTA goiano Jota Mape: “Curto demais suas crônicas, a maneira correta e completa como vc escreve, seu estilo de vida, seu comportamento. Vc é uma Deusa do colunismo. Portanto não nos abandone com o impresso — nada como o “papel”, que é documento. Tenho aqui crônicas lindas suas arquivadas da primeira e segunda fase do “O Globo”, da “Última Hora”, do “caderno H”, da revista “Domingo” etc. Portanto nossa eterna Musa não nos abandone”…

13 de setembro de 2010

Sobre sua mãe - ZUZU ANGEL



Zuleika Angel Jones, conhecida como Zuzu Angel, (Curvelo, 5 de junho de 1923 — Rio de Janeiro, 14 de abril de 1976) foi uma estilista brasileira, mãe do militante político Stuart Angel Jones e da jornalista Hildegard Angel.

Biografia

Mudou-se quando criança para Belo Horizonte, tendo em seguida morado na Bahia. A cultura e cores desse estado influenciaram significativamente o estilo das suas criações. Pioneira na moda brasileira, fez sucesso com seu estilo em todo o mundo, principalmente nos Estados Unidos.

Em 1947 foi morar no Rio de Janeiro e nos anos 50 iniciou seu trabalho como costureira, quando fazia roupas principalmente para alguns familiares próximos. No princípio dos anos 70 abriu uma loja em Ipanema, quando começou a realizar desfiles de moda nos EUA. Nestes desfiles sempre abordou a alegria e riqueza de cores da cultura brasileira, fazendo sucesso no universo da moda daquela época.

Nos anos 70, seu filho Stuart, ativista comunista, foi preso e morto nas dependências do DOI-CODI. O corpo de Stuart nunca foi encontrado.

A partir daí, Zuzu entraria em uma guerra contra o regime pela recuperação do corpo de seu filho, envolvendo até os Estados Unidos, país de seu ex-marido e pai de Stuart. Essa luta só terminou com sua morte, ocorrida na madrugada de 14 de abril de 1976, num "acidente" de carro na Estrada da Gávea, à saída do Túnel Dois Irmãos (RJ), em circunstâncias então mal esclarecidas.

O caso de Zuzu foi tratado pela Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, no processo de número 237/96, o governo brasileiro assumindo, em 1998, a participação do Estado em sua morte.[1]

Em homenagem à estilista, o cantor e compositor Chico Buarque compôs, sobre melodia de Miltinho (MPB4), a música Angélica.


Carta de Stuart para sua Mãe

"Mãe você me pergunta se eu acredito em Deus.

Eu te pergunto que Deus? Tem sido minha missão te mostrar Deus no Homem, pois, somente no homem ele pode existir. Não há homem pobre ou insignificante que pareça ser, que não tenha uma missão.

Todo homem por si só influencia a natureza do seu futuro. Através de nossas vidas nós criamos ações que resultam na multiplicação de reações. Esse poder que todos nós possuímos, esse poder de mudar o curso da história, é o poder de Deus. Confrontado com essa responsabilidade divina, eu me curvo diante do Deus dentro de mim." Stuart Edgard Angel Jones



Zuzu Angel, o filme retrata a vida da estilista. Dirigido por Sérgio Rezende e protagonizado por Patrícia Pillar, dele também participam Daniel de Oliveira, Luana Piovani, Paulo Betti, Juca de Oliveira, entre outros.

Zuzu Angel é um filme brasileiro de 2006, do gênero drama biográfico, dirigido por Sérgio Rezende.

A produção é de Joaquim Vaz de Carvalho, a produção executiva de Heloísa Rezende, a trilha sonora de Cristóvão Bastos, a direção de fotografia de Pedro Farkas, a direção de produção de Laís Chamma e Mílton Pimenta, a direção de arte de Marcos Flaksman, o figurino de Kika Lopes e a edição de Marcelo Moraes.

Elenco
Patrícia Pillar .... Zuzu Angel
Daniel de Oliveira .... Stuart Angel
Luana Piovani .... Elke Maravilha
Leandra Leal .... Sônia
Alexandre Borges .... Fraga
Ângela Vieira .... Lúcia
Ângela Leal .... Elaine
Flávio Bauraqui .... Mota
Paulo Betti .... Carlos Lamarca
Nélson Dantas .... sapateiro
Regiane Alves .... Hildegard Angel
Fernanda de Freitas .... Ana Angel
Caio Junqueira .... Alberto
Aramis Trindade .... tenente
Antônio Pitanga .... policial
Elke Maravilha .... cantora do cabaré
Ivan Cândido .... capelão
Othon Bastos .... brigadeiro

Hildegard Angel - DE OLHO NO RIO

12 de setembro de 2010

Uma passeata, para ser eficiente, tem que ser legítima




Coluna Hildegard Angel – JB – Quarta-feira, 25/08/2010
Publicado em 25 Agosto 2010 por Hildegard Angel


EM BOA hora, os humoristas saíram em passeata na Praia de Copacabana para protestar contra a impossibilidade de se fazer piadas políticas em época de eleição. A política, como sabemos, é o filé mignon do humor de qualidade… MAS ESSE protesto oportuno se descaracteriza e fica comprometido quando dá a entender que a censura se deve ao governo. Não é verdade… A LEI das Eleições, 9.504, data de 1997 e, na minirreforma, ganhou penduricalhos que a “turbinaram”, com substitutivos e emendas no que diz respeito ao humor, cujos autores têm nome: são os deputados, do PCdoB, Flavio Dino, candidato a governador do Maranhão, e Manuela D’Ávila… PARA ESSA minirreforma ser aprovada no Plenário da Câmara, os deputados votaram. O TSE apenas cumpre o que está escrito… ENTÃO, NÃO É Lula, não é Dilma, não é o ministro Lewandowski nem é o Franklin Martins (conforme menção leviana de um dos humoristas desfilantes). São os nossos congressistas!… E ISSO os humoristas da passeata não disseram, não dizem, muito pelo contrário, querem deixar no ar a ideia de que o governo brasileiro cerceia a atividade do humor… ESSA ATITUDE dúbia, manipuladora, só tira a legitimidade de uma causa que é boa, reduzindo-a a mero instrumento de campanha da oposição… SE NO Brasil de hoje houvesse censura ao humor, nós não teríamos visto, como vimos, no CQC da última segunda-feira, um humorista dizer que o Eike Batista “faturou” a dona Marisa Lula da Silva, nem o humorista ao lado acrescentar que “dona Marisa vai fazer uma coleira com o nome Eike escrito”… ELES SE referiam à atitude descontraída, perfeitamente natural, de ambos, durante um leilão beneficente que o programa acabara de exibir… FOSSE UMA ditadura com censura, como a que já tivemos, na mesma hora os estúdios da Band seriam invadidos por um batalhão militar, Marcelo Tas e seus humoristas seriam presos, colocados no pau de arara, teriam a pele esfolada, a unha arrancada, o olho furado e, se dessem sorte, seriam devolvidos depois pra casa com uma coleira de pregos no pescoço… MAS O mais provável é que virassem “comida pra peixe”, como se fazia na época. E eu não estou fantasiando. Vi e vivi este filme nos anos 70 no Brasil… POR ISSO, senhores humoristas, façam seus protestos, sim, mas com legitimidade, pra não serem rotulados de humoristas “festivos”, como se usava dizer naquela época negra… OUTRA COISA que está muito na moda dizer, na linha dessa “campanha do medo”, é que há censura em nossa imprensa… NUNCA ANTES neste país se espinafrou tanto (pra não usar outra palavra) um presidente, sua família, seus ministros e aliados como nesta era Lula. E com total liberdade… JAMAIS OUVI, por exemplo, em época anterior, num programa de TV, um comentário tão constrangedor como esse do CQC em relação a uma primeira-dama. E não me venham aqui criticá-la, porque ela se dá ao respeito, sim!… NOS ANOS FHC, jamais a imprensa tocou no assunto do filho criança do presidente com uma jornalista, morando ambos num conveniente endereço bem longe, em Barcelona, na Espanha… ESSE SILÊNCIO da imprensa não era apenas uma delicadeza com a primeira-dama. Era também o receio de possíveis retaliações comerciais, judiciais, Lei dos Danos Morais etc e tal. Medo que, curiosamente, este atual governo não inspira a jornalista algum. Agora, me digam: onde está a tão proclamada “censura”?…

A jornalista Hildegard Angel fala por que está com Dilma

ah ... o amor ! POESIAS - Cecília Meireles


Interlúdio

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.


Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.


Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.


Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.


Fico ao teu lado.




Canção

Nunca eu tivera querido
dizer palavra tão louca:
bateu-me o vento na boca,
e depois no teu ouvido.

Levou somente a palavra,
deixou ficar o sentido.

O sentido está guardado
no rosto com que te miro,
neste perdido suspiro
que te segue alucinado,
no meu sorriso suspenso
como um beijo malogrado.

Nunca ninguém viu ninguém
que o amor pusesse tão triste.
Essa tristeza não viste,
e eu sei que ela se vê bem...
Só se aquele mesmo vento
Fechou teus olhos, também...

De um lado cantava o sol



De um lado cantava o sol,
do outro, suspirava a lua.
No meio, brilhava a tua
face de ouro, girassol!


í“ montanha da saudade
a que por acaso vim:
outrora, foste um jardim,
e és, agora, eternidade!
De longe, recordo a cor
da grande manhã perdida.
Morrem nos mares da vida
todos os rios do amor?


Ai! celebro-te em meu peito,
em meu coração de sal,
í“ flor sobrenatural,
grande girassol perfeito!


Acabou-se-me o jardim!
Só me resta, do passado,
este relógio dourado
que ainda esperava por mim .


11 de setembro de 2010

Tarde de Sábado - Cecília Meireles

A tardezinha de sábado, um pouco cinzenta, um pouco fria, parece não possuir nada de muito particular para ninguém. Os automóveis deslizam; as pessoas entram e saem dos cinemas; os namorados conversam por aqui e por ali; os bares funcionam ativamente, numa fabulosa produção de sanduíches e cachorros-quentes. Apesar da fresquidão, as mocinhas trazem nos pés sandálias douradas, enquanto agasalham a cabeça em echarpes de muitas voltas.

Tudo isso é rotina. Há um certo ar de monotonia por toda parte. O bondinho do Pão de Açúcar lá vai cumprindo o seu destino turístico, e moços bem falantes explicam, de lápis na mão, em seus escritórios coloridos e envidraçados, apartamentos que vão ser construídos em poucos meses, com tantos andares, vista para todos os lados, vestíbulos de mármore, tanto de entrada, mais tantas prestações, sem reajustamento — o melhor emprego de capital jamais oferecido!

Em alguma ruazinha simpática, com árvores e sossego, ainda há crianças deslumbradas a comerem aquele algodão de açúcar que de repente coloca na paisagem carioca uma pincelada oriental. E há os avós de olhos filosóficos, a conduzirem pela mão a netinha que ensaia os primeiros passeios, como uma bailarina principiante a equilibrar-se nas pontas dos sapatinhos brancos.

Andam barquinhos pela baía, com um raio de sol a brilhar nas velas; há uns pescadores carregados de linhas, samburás, caniços, muito compenetrados da sua perícia; há famílias inteiras que não se sabe de onde vêm nem se pode imaginar para onde vão, e que ocupam muito lugar na calçada, com a boca cheia de coisas que devem ser balas, caramelos, pipocas, que passam de uma bochecha para a outra e lhes devem causar uma delícia infinita.

Depois aparecem muitas pessoas bem vestidas, cavalheiros com sapatos reluzentes, senhoras com roupas de renda e chapéus imensos que a brisa da tarde procura docemente arrebatar. Há risos, pulseiras que brilham, anéis que faíscam, muita alegria: pois não há mesmo nada mais divertido que uma pessoa toda coberta de sedas, plumas e flores, a lutar com o vento maroto, irreverente e pagão.

E depois são as belas igrejas acesas, todas ornamentadas, atapetadas, como jardins brancos de grandes ramos floridos

Por uma rua transversal, está chegando um carro. E dentro dele vem a noiva, que não se pode ver, pois está coberta de cascatas de véus, como se viajasse dentro da Via-láctea. Todos param e olham, inutilmente. Ela é a misteriosa dona dessa tardezinha de sábado, que parecia simples, apenas um pouco cinzenta, um pouco fria. E a moça que vem, com a alma cheia de interrogações, para transformar seus dias de menina e adolescente, despreocupados e livres, em dias compactos de deveres e responsabilidades. É uma transição de tempos, de mundos. Mas os convidados a esperam felizes, e ela não terá que pensar nisso. Ela mal se lembra que é sábado, que é o dia de seu casamento, que há padrinhos e convidados. E quando a cerimônia chegar ao apogeu, talvez nem se lembre de quem é: separada dos acontecimentos da terra, subitamente incorporada ao giro do Universo.


Texto extraído do livro "Escolha o seu sonho", Editora Record – Rio de Janeiro, 2002, pág. 100.

10 de setembro de 2010

Dois Cânticos e uma Canção - Cecília Meireles


Cântico II

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens...
não queiras ser o de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabes que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade.
És tu


aquarela de Jaqueline Campos

Canção Mínima

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta



Cântico VI

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acaba todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


Os cânticos e a canção acima foram extraídos da "Antologia Poética", Editora Record -



Rio de Janeiro, 1963, págs.25, 32 e 45.

9 de setembro de 2010

PRIMAVERA - Cecília Meireles

aquarela de Jaqueline Campos
"íntimo e pessoal"/2008


A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.


Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

8 de setembro de 2010

O VERBO ORIGINAL DE CECÍLIA MEIRELES/ MODERNISMO NO BRASIL-POESIA



Cecília Meireles: em livro de sua juventude,
a poetisa se valeu de imagens e versículos bíblicos

6/9/2010


Em "Cecília Meireles: Lirismo e Religiosidade",
a crítica literária Graça Roriz Fonteles investiga as referências bíblicas
em obra da primeira fase da escritora carioca

Onde hoje está o mistério da palavra, que poetas ora descrevem, ora problematizam, havia outro mistério: o sagrado. A poesia parece mesmo ter nascido imbricada com a religião. Não faltam livros sagrados escritos em versos. O francês Arthur Rimbaud (1854 - 1891), referência para os laicos modernistas, já identificava o poeta ao profeta.

É na intersecção do poético e do sagrado que se concentra a cearense Graça Roriz Fonteles, poetisa e crítica literária, mestre em Teologia e doutora em Letras (ambas as formações pela Universidade Presbiteriana Mackenzie - SP). Nesse território vivo, e estranhamente ignorado, ela encontra Cecília Meireles (1901 - 1964), uma das grandes poetas brasileiros do século XX, famosa por seu lirismo, pela justeza das palavras em contextos por vezes abstratos e de uma reconfiguração do simbolismo. Para registrar a passagem de Cecília por esse território, Fonteles escreveu "Cecília Meireles - Lirismo e Religiosidade".

A dimensão mística da poesia de Cecília Meireles é estudada a partir dos versos de "Poema dos poemas", lançado quando a poetisa contava apenas 21 anos (em volume que abrigava outra coleção de poemas: "Nunca mais..."). Obra ainda pouco comentada, o livro chegou a ser excluído pela própria autora quando da organização de suas obras completas (e reinserido nas edições posteriores à sua morte). Nele, se encontra uma escritora ainda em formação, marcada por referências do simbolismo, mas já deixando entrever temas e tratamentos de sua obra madura.

(Re)encontros

"Cecília Meireles - lirismo e religiosidade" é dividido em três partes. Na primeira, Graça Roriz Fonteles faz um estudo minucioso do "Poema da dúvida", identificado como uma espécie de síntese do projeto poético do livro em questão. Nele, a autora identifica as referências bíblicas que atravessam todo o "Poema dos poemas", esclarecendo a respeito das formas com que Cecília Meireles se apropria do texto bíblico - da citação direta e literal a recriações de imagens encontradas em versículos. Citações não faltam, a começar pelo título dado à coleção de poemas, que evoca do "Cântico dos Cânticos" de Salomão.

No segundo capítulo, ela inverte o procedimento. O ponto de partida é o "Salmo", o segmento bíblico mais evocado pela poeta em seus procedimentos intertextuais. A autora mapeia e analisa essas aparições de uma obra na outra. Na terceira parte, analisa a aparição e a conjunção do sagrado e do feminino em "Poema dos poemas".

Nessa parte, identifica-se uma entrega especial da pesquisadora, afinal, é nela que Graça Roriz Fonteles melhor conjuga paixão e interesses acadêmicos - como se a poesia, que também pratica, encontrasse com a curiosidade intelectual a respeito do feminino e do divino, temas de estudos anteriores.

CRÍTICA
"Cecília Meireles - Lirismo e Religiosidade"
Graça Roriz Fonteles
R$ 32,00
208 PÁGINAS
2010
SCORTECCI EDITORA/ REBRA

DELLANO RIOS
REPÓRTER


MODERNISMO NO BRASIL – POESIA

A fase corresponde ao período de amadurecimento e consolidação das conquistas da fase anterior - da geração de 22. Os autores não apresentavam mais o caráter destruidor e irreverente de antes. Devido à grande produção, didaticamente, costuma-se dividir essa fase em produções em prosa e produções em poesia. Hoje falaremos sobre apoesia da segunda geração do Modernismo.
Dentre os principais poetas desse período estão Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Vinícius de Moraes e Murilo Mendes.

É importante deixar claro que os autores da primeira geração (Mário, Oswald e Bandeira) continuaram escrevendo, mas novos autores surgiram. A temática dessa fase é bem variada: Drummond e Murilo Mendes voltaram se mais para os aspectos da sociedade capitalista e para as questões universais do homem. Já Cecília Meireles e Vinícius de Moraes, embora também apresentando aspectos universais, voltaram-se para uma poesia mais espiritualista. Em Cecília e em Murilo Mendes também encontramos fortes marcas religiosas e místicas.

Cecília Meireles tornou-se conhecida no meio literário a partir da sua participação na corrente espiritualista da geração de 22. Aos poucos, afasta-se dessa corrente, mas conserva as características introspectivas e intimistas do grupo.
Seus versos, geralmente curtos e cheios de musicalidade, refletem sobre a brevidade da vida, as razões da existência, a solidão e a morte, imprimindo um caráter intimista em toda sua produção poética.


O que Cecília dizia a respeito de sua obra:




“ Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal
intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno(...). Em toda minha vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade”. Cecília Meireles Esses motivos são responsáveis pelo pessimismo e desencanto que perpassam vários momentos de sua obra.




Motivo



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.



Cecília Meireles

7 de setembro de 2010

Cecília Meireles



Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.



Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


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No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta


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Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.


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Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
Assim calmo, assim triste, assim magro,
Nem estes olhos tão vazios,
Nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
Tão paradas e frias e mortas;
Eu não tinha este coração
Que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
Tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
A minha face?


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Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.


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A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crinças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refelectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

6 de setembro de 2010

"Não sou alegre nem triste: sou poeta" algumas poesias de Cecília Meireles



Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E sei que um dia estarei mudo:
- mais nada

Traze-me
Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.
Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.
Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
-Vê que nem te digo - esperança!
-Vê que nem sequer sonho - amor!

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...
- mas só esse eu não farei.
Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...
- palavra que não direi.
Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,
- que amargamente inventei.
E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
e um dia me acabarei.

Canção
Não te fies do tempo nem da eternidade,
que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
o lábio, limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te escuto!
Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã eu morro e não te digo...

Serenata

" ... Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo ... "



Ou Isto Ou Aquilo

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

3 de setembro de 2010

Os Canibais Estão na Sala de Jantar – Arnaldo Jabor

A crise é sempre culpa do outro. Ninguém quer partilhar a crise. A crise provoca ciúmes. A crise é um latifúndio improdutivo que ninguém quer dividir. A crise pode ser uma atração turística, uma marca nacional. Uns países têm o urso cinzento, como os Estados Unidos, outros, a nouvelle cuisine, outros as estações de esqui, nós temos o erro permanente, o destino-pastelão. A crise demanda mais crise, como a heroína. A crise preenche nossas vidas. A crise é uma minissérie da Globo. Já há um certo carinho moderno pela crise. O dia em que a crise for embora, o que faremos? O que será de nós, sem assunto, sem tremor, relegados a tarefas menores como, digamos… trabalhar? Teremos então um intenso tédio conjugal pela Pátria.


"Os artigos reunidos nesse livro foram anteriormente publicados no jornal Folha de S. Paulo e são testemunhos de ceticismo, ironia e dor. Dor de ser perseguido pelo Brasil, por uma idéia remota de Brasil, pelo sentimento pungente de ser brasileiro. Jabor descreve os “jovens louros e lindos que já não têm a ingenuidade alienada dos anos 60”, um “encontro” surreal com o Oswald de Andrade em plena Semana de Arte Moderna, fala dos travestis no Rio de Janeiro que não querem ser mulheres, da angustia do João Cabral e da visão errônea que antes o Brasil era melhor.

Se numa parte ele descreve (cena a cena) a morte de três assaltantes na cidade de Matupá que foram baleados e queimados vivos pelos próprios moradores, noutra ele fala sobre Glauber e o seu Cinema Novo. E ainda discorre sobre Nelson Rodrigues, sobre o problema da literatura brasileira, sobre Rimbaud, sobre crise, sobre riqueza e pobreza, sobre a descoberta de muitos países dentro do Brasil, sobre filmes pornôs (massa!!!), sobre pênis-afro e pussies-afro (bucetas), sobre seca no Nordeste, sobre o filho da puta do Collor (“nosso presidente mais galã que se cercou de feios”), sobre Medici e Geisel, sobre a morte do PC, sobre sórdidas surubas em Brasília, sobre o Roberto Marinho, sobre impeachment, sobre o governo militar, sobre a desgraça que é a televisão, sobre viados (ele adora falar de viados), sobre o quadro “As meninas” de Velázquez, sobre Fidel, sobre medo da miséria, sobre camisinha em tempo de Aids, sobre os intelectualóides e a governabilidade das esterilizações obrigatórias, sobre a morte dos 111 presos de Carandiru (GOSTEI MUITO DO TEXTO) e sobre políticos que não saem nem f... do poder.

A última crônica é muito interessante: um diálogo com o próprio Nelson Rodrigues. Em suma: “Os canibais...” é um bom livro, mas eu esperava muito mais de um cara que escreveu isso tudo do que aquela marionete com discurso pronto na tela da Globo. (“OS CANIBAIS ESTÃO NA SALA DE JANTAR” de Arnaldo Jabor, crônica, 224 págs. 1993 - Ed. Siciliano)."

ELENILSON's Space

1 de setembro de 2010

As Promoções da época !

VOTE NA DILMA - ARNALDO JABOR
Vote na Dilma e ganhe, inteiramente gratis, um José Sarney de presente agregado ao Michel Temmer.

Mas não é só isso, votando na Dilma você também leva, inteiramente grátis (GRÁTIS???) um Fernando Collor de presente.

Não pense que a promoção termina aqui.

Votando na Dilma você também ganha, inteiramente grátis, um Renan Calheiros e um Jader Barbalho.

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TSE retira comentário do Arnaldo Jabor do Site da CBN


REPASSANDO


Leia o comentário de Dora Kramer, Estadão de Domingo:


'A decisão do TSE que determinou a retirada do comentário de Arnaldo Jabor do site da CBN, a pedido do presidente 'Lula' até pode ter amparo na legislação eleitoral, mas fere o preceito constitucional da liberdade de imprensa.

'Não deixem de ler e reler o texto abaixo e passem adiante'!


A VERDADE ESTÁ NA CARA, MAS NÃO SE IMPÕE.
(ARNALDO JABOR)

O que foi que nos aconteceu?
No Brasil, estamos diante de acontecimentos inexplicáveis, ou melhor,'explicáveis' demais.
Toda a verdade já foi descoberta, todos os crimes provados, todas as mentiras percebidas.
Tudo já aconteceu e nada acontece. Os culpados estão catalogados, fichados, e nada rola.
A verdade está na cara, mas a verdade não se impõe. Isto é uma situação inédita na História brasileira!!!!!!!
Claro que a mentira sempre foi a base do sistema político, infiltrada no labirinto das oligarquias, mas nunca a verdade foi tão límpida à nossa
frente e, no entanto, tão inútil, impotente, desfigurada!!!!!!!!
Os fatos reais: com a eleição de Lula, uma quadrilha se enfiou no governo e desviou bilhões de dinheiro público para tomar o Estado e ficar no poder 20 anos!!!!
Os culpados são todos conhecidos, tudo está decifrado, os cheques assinados, as contas no estrangeiro, os tapes, as provas irrefutáveis, mas o governo psicopata de Lula nega e ignora tudo !!!!!
Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações.
Sempre se acha inocente ou vítima do mundo, do qual tem de se vingar. O outro não existe para ele e não sente nem remorso nem vergonha do que faz !!!!!
Mente compulsivamente, acreditando na própria mentira, para conseguir poder.
Este governo é psicopata!!! Seus membros riem da verdade, viram-lhe as costas, passam-lhe a mão nas nádegas. A verdade se encolhe, humilhada, num canto. E o pior é que o Lula, amparado em sua imagem de 'povo', consegue transformar a Razão em vilã, as provas contra ele em acusações 'falsas', sua condição de cúmplice e Comandante em 'vítima'!!!!!
E a população ignorante engole tudo.. Como é possível isso?
Simples: o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na Fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados
- nos comunica o STF.
Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização Jornalistas e formadores de opinião sentem-se inúteis, pois a indignação ficou supérflua. O que dizemos não se escreve, o que escrevemos não se finca, tudo quebra diante do poder da mentira desse governo.
Sei que este é um artigo óbvio, repetitivo, inútil, mas tem de ser escrito...
Está havendo uma desmoralização do pensamento.
Deprimo-me:
Denunciar para quê, se indignar com quê? Fazer o quê?'
A existência dessa estirpe de mentirosos está dissolvendo a nossa língua.
Este neocinismo está a desmoralizar as palavras, os raciocínios. A língua portuguesa, os textos nos jornais, nos blogs, na TV, rádio, tudo fica
ridículo diante da ditadura do lulo-petismo.
A cada cassado perdoado, a cada negação do óbvio, a cada testemunha, muda, aumenta a sensação de que as idéias não correspondem mais Aos fatos!!!!!
Pior: que os fatos não são nada - só valem as versões, as manipulações.
No último ano, tivemos um único momento de verdade, louca, operística, grotesca, mas maravilhosa, quando o Roberto Jefferson abriu a cortina do país e deixou-nos ver os intestinos de nossa política.
Depois surgiram dois grandes documentos históricos: o relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da república. São verdades cristalinas, com sol a Pino.
E, no entanto, chegam a ter um sabor quase de 'gafe'.
Lulo-Petistas clamam: 'Como é que a Procuradoria Geral, nomeada pelo Lula, tem o desplante de ser tão clara! Como que o Osmar Serraglio pode ser tão explícito, e como o Delcídio Amaral não mentiu em nome do PT ? Como ousaram ser honestos?'
Sempre que a verdade eclode, reagem.
Quando um juiz condena rápido, é chamado de exibicionista'. Quando apareceu aquela grana toda no Maranhão (lembram, filhinhos?), a família Sarney reagiu ofendida com a falta de 'finesse' do governo de FH, que não teve a delicadeza de avisar que a polícia estava chegando....


Mas agora é diferente.
As palavras estão sendo esvaziadas de sentido. Assim como o stalinismo apagava fotos, reescrevia textos para contestar seus crimes, o governo do Lula está criando uma língua nova, uma neo-língua empobrecedora da ciência política, uma língua esquemática, dualista, maniqueísta, nos preparando para o futuro político simplista que está se consolidando no horizonte.
Toda a complexidade rica do país será transformada em uma massa de palavra de ordem , de preconceitos ideológicos movidos a dualismos e oposições, como tendem a fazer o Populismo e o simplismo.
Lula será eleito por uma oposição mecânica entre ricos e pobres, dividindo o país em 'a favor' do povo e 'contra', recauchutando significados que não dão mais conta da circularidade do mundo atual. Teremos o 'sim' e o 'não', teremos a depressão da razão de um lado e a psicopatia política de outro, teremos a volta da oposição Mundo x Brasil, nacional x internacional e um voluntarismo que legitima o governo de um Lula 2 e um Garotinho depois.
Alguns otimistas dizem: 'Não... este maremoto de mentiras nos dará uma fome de Verdades'!

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