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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

22 de abril de 2010

Ângela Rô Rô - A DIVA CONTINUA MALDITA



ENTREVISTA
Por Rodrigo de Araujo



"Desde que comecei a carreira pensei em ser o que sou desde pequena: uma pessoa franca. E uma pessoa franca deveria ser tratada como semideus"

Ângela Ro Ro celebra esse ano 58 verões intensamente vividos e oito anos afastada das bebidas e das drogas que, para alguns, foi responsável por uma carreira cheia de, digamos, irregularidades. Para outros, entretanto, sua postura irreverente e polêmica sempre foi seu grande charme, rendendo-lhe lugar de honra no hall das divas "malditas" da MPB. A fama surgiu logo no início de sua carreira, em 1979, quando chamou atenção pelo vozeirão grave, letras e postura assumidamente gays, e foi consolidada com folclóricos escândalos divulgados pela mídia, incluindo declarações íntimas sobre relacionamentos com outras celebridades femininas da nossa música.

A virada do milênio, entretanto, mudou Ângela. Após ficar sete anos sem gravar nos anos 90, ressurgiu em 2000 com o álbum Acertei no Milênio e com quase 40 kg a menos (pesava 105 kg). E continuou perdendo peso. Hoje, esbelta, recalchutada e em plena atividade, parece estar esbanjando saúde e vivacidade.

Flertando com o rock e o blues ao longo de sua carreira e criando discípulos importantes como Cazuza e Cássia Eller, ela passou o ano de 2007 divulgando seu CD Compasso, que lhe garantiu o prêmio de melhor show do ano passado pelos críticos da revista Bravo. E também seu primeiro DVD, uma coletânea das músicas mais dramáticas e conhecidas do repertório como Escândalo, Ne Me Quitte Pás, Fogueira, Amor Meu Grande Amor, Simples Carinho e Só Nos Resta Viver. O DVD inclui também duos "que deram muito certo", como diz, como com Frejat em
A Mim E A Mais Ninguém, seu primeiro rock, com Alcione em Joana Francesa, de Chico Buarque, e com Luis Melodia em Tola Foi Você.

Na nossa conversa com Ângela, ela demonstra que mudou sim, está cheia de vida e planos para o futuro, mas que nem de longe virou uma mulher "boazinha"...

Na música O Meu Mal é a Birita você disse que só pararia de beber a partir do momento que começasse a se amar mais. Foi isso que aconteceu?

Hahaha, que gracinha..... Será que Jaguar não se ama? Será que grande parte do mundo não se ama? Ou por que se ama demais? Ou se ama errado? Ou será que bebe porque gosta de beber? Ou apanhou da polícia e para esquecer se afogou nas drogas ou álcool? Ou por que tem vergonha de pertencer à raça humana? Ou para apenas abrir o apetite antes do jantar? Não sei... Não tenho a menor idéia.... E outra: não se baseie em letras de rock!

Você vê os anos 2000 como nova fase de sua vida, uma etapa mais "saudável"?

Não tem isso de nova fase, não. Eu sou a mesma pessoa. Continuo indigesta para quem é indigesto. Para quem não é digerível, também não sou! Mas para quem é legal, fácil, eu fluo como uma pena macia e leve. Sempre fui assim: indigesta para situações indigestas e sem perdão para as pessoas que não prestam, agressivas, autoridades ilegítimas e arbitrárias.

Como quem?

Como a segurança pública. Com eles vou ser indigesta como carniça. Já levei surra e fui espancada diversas vezes e nunca cometi um crime, um delito. E mesmo que houvesse algum crime e que eu tivesse sido presa, não justificaria ter sido espancada do jeito que fui.

Quem exatamente a agrediu?

Fui espancada cinco vezes, uma vez pela Polícia Civil do Rio de Janeiro e as outras quatro pela Militar. Espancada como se fosse um fantoche em dia de Judas. Fui uma vítima de algo que só agora algumas famílias estão compreendendo, porque acontece com qualquer um, qualquer filho, qualquer criancinha de colo. Porque a polícia é nojenta, não serve para nada. É uma polícia corrompida e altamente corruptora. Mas há uns vinte anos a sociedade era hipócrita e virava as costas para a Ângela Ro Ro espancada.

Mas ninguém falava por que a estavam espancando?

Só posso recorrer como justificativa para tamanhos crimes contra o meu corpo e minha moral, e que estragaram a minha vida, uma discriminação feroz contra minha lesbianidade e minha sexualidade. Porque essa gente é psicopata. Antes de se dar arma ou algum poder a qualquer policial ou detetive, deviam passá-los por exames psicotécnicos muito profundos e aguçados.

Você continua umas das poucas artistas a se assumir para o grande público. Por que é tão difícil para os outros?

Ninguém é obrigado a assumir sua homossexualidade. A minha veio assumida num pacote, quando lancei meu primeiro disco, em 1979. Desde que comecei a carreira, pensei em ser o que sou desde pequena: uma pessoa franca. E franqueza não tem preço. Uma pessoa franca deveria ser tratada como semideus, porque é uma ligação da realidade com a realidade. E as pessoas que vivem hipocritamente não fazem o percurso do real com o real, elas se perdem num patamar de divisão dimensional da mentira, da falsidade, da farsa. Eu me considero uma pessoa direta, franca, verdadeira e sincera. Então, resolvi iniciar minha carreira assumindo minha posição sócio, antropológico, política, artística e sexual. Veio num pacote só, entendeu?

Então, você acredita que muitos artistas vivem uma farsa para seu público...

Não, não estou dizendo que os artistas vivem numa farsa. A sociedade fabrica farsas a serem seguidas e muitos artistas, muitos profissionais liberais, seguem essa cartilha para serem respeitados, para não perderem seus empregos e não serem espancados. Eu não estou indo contra os artistas, mas sim contra a sociedade e as regrinhas nojentas que ela faz.

Você sempre foi muito explícita nas suas paixões, inclusive nas letras de suas músicas. Você está amando hoje?

As minhas músicas nem sempre são biográficas, muitas vezes são. Cabe ao público desvendar. Viver é sempre um ato de amor. Mesmo que seja um ato de amor solitário, é um ato de amor. Pelo menos eu amo muito a minha vida, a vida alheia, a vida de estranhos, a vida do planeta, da natureza, dos cosmos. Mesmo que eu esteja isolada e solitária, eu estarei amando sempre. Agora, nada é mais gostoso que um amor a dois e do amor de bons amigos e colegas. Isso é uma beleza, né? O amor para mim é a mola que me impulsiona para tudo. Não existo sem amor.

Mudando de assunto, como foi conhecer sua ídola Janis Joplin?

Tivemos um encontro muito fugaz, pequenininho, mas foi genial. Um amigo meu estava recebendo a Janis Joplin aqui. Mas antes de ficar hospedada na casa dele, ela ficou no Copacabana Palace. Eles me chamaram para um café da manhã. Quando cheguei, ela estava boiando na piscina. Quando a vi, pensei: "Meu deus! Ela não é bonita como esperava, tem uma pele feia e toda despojada com um biquíni de cada cor (risos). Uma coisa toda bagunçada, sabe? Quando saiu da piscina, olhou bem para mim, segurou o meu queixo e falou: 'Prety baby Face!'. Fiquei tão apavorada! Saí correndo!! E pensei: Meu Deus do céu, será esse o meu destino? (risos)".

Ela tinha vindo ao Brasil para tentar se livrar das drogas…

Janis Joplin foi tão brasileira num país tão mesquinho! Uma artista do tamanho dela que vendia um milhão de cópias de discos, tinha uma coleção de Porshes na garagem, tentando deixar as drogas num país tropical, porque ela achava que encontrando a natureza e pessoas simpáticas, podia se livrar das drogas. Mas, infelizmente, o que ela encontrou foi a polícia carioca e a hipocrisia e cretinice brasileira, que a fez ficar muito deprimida. A ditadura militar, para variar, resolveu embargar um show que ela queria dar de graça na Praça General Osório. Ou seja, cortaram a onda e a proibiram de cantar no Brasil. Ela ficou revoltada porque estava tentando deixar as drogas e o álcool e, depois de uma repreensão policial como essa, é claro que a pessoa perde o ânimo. Foi, infelizmente, a visita ao Brasil que a fez cair nas drogas de novo. Quando ela voltou aos Estados Unidos, declarou: "Eu conheci um país tão lindo nas mãos de pessoas tão feias...".

No palco, percebe-se seu timing para comédia. Considera um dom?

O que acontece é que me descobri como ótima diretora de cena e uma cômica em potencial no meu primeiro show no Rio, em 1979, no Teatro Ipanema. Era apenas eu cantando e tocando piano e o teatro lotado, uma loucura. Estava muito nervosa e ansiosa. Meus joelhos tremiam nos pedais do piano. Então comecei a falar sobre a história da minha vida e das músicas, aí as pessoas começaram a rir. Eu pensei: Jesus, eu estou contando aqui as histórias da minha vida amorosa e as pessoas se urinando de tanto rir! Aí, passou o nervoso, porque com aquele riso coletivo eu tinha ganhado a platéia. Desde então decidi me auto-dirigir, descobrindo que definitivamente eu era uma palhaça no bom sentido da palavra.

Você era muito próxima a Glauber Rocha. Nunca pensou em virar atriz durante o Cinema Novo?

Eu tive a aventura de ser grande amiga de Glauber Rocha. Conheci Glauber na Bahia, no início da década de 70, éramos um bando de hippies cariocas e estávamos acampando em Itaparica. Carregamos o Glauber de mascote. E depois me tornei mascote do Cinema Novo através do Glauber. Eu o acompanhei até Roma. Ele era uma pessoa maravilhosa, polêmica apenas para quem não entende o que é vida, pois era uma pessoa inteligentíssima, com uma riqueza de idéias e de produções. Glauber Rocha era uma idéia viva e continua sendo. Eu tenho muita honra de ter sido discípula dele. Mas nunca fiz nenhuma participação em seus filmes, apesar dele ter insistido em mim como atriz. Só que eu insisti em mim como errante. Eu preferi ficar a década de 70 na Europa errando, ou seja, errando de emprego. Fui garçonete, lavadora de latrina, faxineira de hospital. Até atinar que eu era artista e que eu valia alguma coisa como isso, fiz muito trabalho braçal.


Você ia a muitas festas?

Festas? Eu sempre trabalhei e muito!

Mas você conviveu muito com Cazuza, não eram de sair juntos para uma boa ferveção?

Aiii, Cazuza! Quem não é amigo de Cazuza? Na verdade, esse negócio de sair junto é uma coisa meio careta, né? A gente se encontrava pelas ruas, bares, shows. Tanto ele como os meninos do Barão (Vermelho) eram meus fãs. Frejat me contou que a reunião do Barão se deu especialmente pelos gostos musicais em comum. E uma das coisas em comum entre Frejat e Cazuza, sou eu! Genial, não? Vivi muitas coisas com Cazuza. Ele, por exemplo, não podia ver a Arlete Salles. Toda vez que ele a encontrava, se jogava no chão, lambia os pés dela, a calçada que ela pisava. Eu também adoro a Arlete, só não me jogo no chão e lambo os pés dela cada vez que a vejo. Acho um pouco constrangedor (risos). Mas não tinha uma vez que o Cazuza visse a Arlete que não fizesse tudo isso. Às vezes, eu o segurava pela cintura do jeans e falava: "Ai, Cazuza, deixa Arlete quieta. Ela tá vindo da peça dela, da Globo, tá cansada, deixa a mulher em paz!" Mas ele corria desabalado, desnorteado em direção aos pés dela.

Cássia Eller também era sua fã assumida. Como foi o contato entre vocês?

Com a Cássia eu só tive um encontro, quando fui lançar o CD Acertei no Milênio, já em 2001, no teatro Rival, e ela estava na platéia. Ela subiu no palco e cantamos juntas Malandragem. Eu mal sabia a letra. (A música Malandragem foi composta por Cazuza e Frejat para Ângela Ro Ro, que se recusou a gravá-la por achar, segundo a própria , uma "merda"). Eu até tenho foto desse encontro. Depois nem conversamos, nem saímos, foi uma pena, porque, infelizmente, no final daquele ano ela veio a falecer. Hoje, em homenagem a ela, eu incluo, em alguns shows, Malandragem no repertório.

Projetos para o futuro?

Eu quero trabalhar muito em 2008. Ainda vou divulgar meu CD Compasso e meu DVD ao vivo, que para mim é ainda muito recente. O DVD foi uma chance de arquivar e de mostrar como estou em forma no palco, com um público muito vivo em pleno Circo Voador e uma ótima banda me acompanhando. Eu tenho também diversos convites para cargos e funções que nunca ocupei antes, tais como produzir, dirigir em cena, produzir CDs, DVDs de outros artistas. Já produzi três discos meus. Quero produzir outras pessoas porque deve ser muito mais fácil do que me produzir, porque eu sou muito rígida comigo mesma. E tô afim de escrever. Tenho um blog dentro do meu site (www.angelaroro.com.br). Mas eu não quero trabalhar por trabalhar, não!
Eu quero ganhar dinheiro. Quero ter uma terceira idade sadia e útil.

Nunca pensou em registrar a sua vida em um livro?

Eu penso em escrever, sim. E vários, vários livros. Quando eu começar ninguém me pára mais.

ESCÂNDALO !



Terceiro álbum da cantora e compositora carioca Angela Ro Ro.
Escândalo! (Polydor, 1981) é uma alusão à exposição da cantora na mídia pela acusação de agressão a então sua namorada, a cantora Zizi Possi. Neste trabalho Angela Ro Ro, no auge, interpreta músicas como "Perdoai-Os Pai", "Came e Case", "Escândalo" - composição de Caetano Veloso, a excelente "Tão Besta Tão À Toa", o blues "Na Cama" e se dá ao luxo e quebra tudo no samba "Fraca e Abusada". Com a participação de ótimos músicos como Antonio Adolfo, Oberdan Magalhães, Dino 7 Cordas e Rick Ferreira, vale a audição deste disco de um grande talento, que ficou muito tempo perdido pelo abuso do álcool, prejudicando sua carreira, mas que foi retomada há alguns anos



Escândalo
Angela Rô Rô
Composição: Caetano Veloso


Mas, doce irmã, o que você quer mais
Eu já arranhei minha garganta toda atrás de alguma paz
Agora nada de machado e sândalo
Eu já estou sã da loucura que havia em sermos nós
Também sou fã da lua sobre o mar
Todas as coisas lindas dessa vida eu sempre soube amar
Não quero quebrar os bares como um vândalo
Você que traz o escândalo irmã luz
Eu marquei demais, tô sabendo
Aprontei de mais, só vendo
Mas agora faz um frio aqui
Me responda, tô sofrendo
Rompe a manhã da luz em fúria arder
Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria, pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu aqui só
Mamãe, eu já marquei demais, tô sabendo
Aprontei de mais, só vendo
Mas agora faz um frio aqui
Me responda, tô sofrendo
Rompe a manhã da luz em fúria arder
Dou gargalhada, dou dentada na maçã da luxúria, pra quê?
Se ninguém tem dó, ninguém entende nada
O grande escândalo sou eu
Aqui só

quem visita Persephone

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