Filha de Persephone

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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

13 de agosto de 2010

Sobre a poesia de Olga Savary- por Alexandre Bonafim

Intensa, febril, pulsante, a palavra de Olga Savary alucina-nos, atira-nos em direção ao desejo despido de medos e, por isso, docemente selvagem, perturbador; desejo que arrebata todas as fibras do ser e nos consome em alegre agonia, em acalanto de suspiros e ternuras. Telúrica, ligada às matrizes da vida, a poesia de Olga é expressão da mais cega vontade da carne; é explosão da natureza desnuda. Eis a grandeza da poeta: dar forma, pela palavra, às pulsões vivas do corpo, aos deuses primitivos que queimam nosso âmago, que nos deixam em transe febril.


Por outro lado, a sabedoria da poeta reside, antes de tudo, no pleno domínio dos recursos líricos. Se a palavra arde em suas mãos, ganha corpo, sangue, é porque a poeta sabe dar a justa medida formal aos conteúdos. É o que podemos ver, por exemplo, em “Signo”, obra prima de seu famoso livro Magma:

A respiração de novembro e de sua véspera
(outubro) arde-me não no cérebro
nem no ombro
mas – anel de fogo – nas ancas
e nas entranhas.
Em ti eu amo os amores todos.
Eu não podia aceitar isto
mas aceito agora. A vida
não cessa, é eterno continuar.
Por mais que se queira
o ávido sangue não será saciado.
A tarde é quem está bebendo este desejo
conivente com a violência
da patada da fera amada.
E numa noite de novembro
é que fiquei pronta para a vida
ao ver o mar refletido no teu corpo
e ao meu rosto assomar todo o desastre.

O cosmo é conclamado à festa da vontade: o mar espelha-se no amado e, vice-versa, porque o desejo é total volúpia do inteiro universo. A bela metáfora “anel de fogo” desvela a pulsão dessa ardência superlativa, desse amor hiperbólico a conter todos os amores.
“Magma” pertence à categoria daqueles livros raros, em que quase não conseguimos encontrar um poema de vôo menor. Nesse aspecto, é obra importante, tanto tematicamente (por ser libérrimo no trato do desejo) quanto formalmente (impecável quanto ao manejo de nossa língua).

Em “Carne viva” os signos “cavalo” e “mar” formam um elo metafórico de grande expressividade. Cavalgar e nadar, pelas ondas do mar, desvelam a expressividade da ação corporal dos amantes, a volúpia do transe sexual. Mas a fúria desse movimento carnal vai além. O eu lírico não apenas está sob o cavalo, como também é escoiceado pelo animal, em bela hipérbole da delicada agressividade do amor físico:

Que é de mim sobre este cavalo em maio?
Lanceando-me o abrasado flanco
com o fogo de seu coice como
o fervor de um jato d’água
– arquiteturas ambas em fúria –
este cavalo em maio é a guerra sazonada
em meu corpo-recesso-de-fruta
tal que tramasse nesse rio nascente
a fermentação da forma absoluta,
A(h) mar!

Em um dos poemas mais felizes do livro, intitulado “Venha a nós o vosso reino”, Olga define, com exímia precisão, a paixão, o estertor amoroso, em metáforas e imagens de grande beleza:

Cheios de imagens os olhos
e de silêncio os ouvidos.
Palavras: quase nada.

A cor do barro primitivo em tua pele,
terra-mãe, vinho de frutos, fogo, água,
em ti se nasce e em ti se morre.

Vais me recolhendo e recompondo
no labirinto-búzio-alto-das-coxas,
presságio de submerso jardim,

um ideal jardim em que me apresso
e tardo retardar a troca das marés
quando para ti me evado.

O que é amor senão a fome rara,
o susto no coração exposto
que com a chama ou a água devora,

é devorada, que desdenha a mente
por uma outra fome, vago pasto
água igual a fogo, fogo como lava?

Amor foi uma volta inteira de relógio mais 7 horas.
Amor: chega de gastar teu nome:
agora arde.

O imperativo do último verso faz toda ação do texto transcorrer para a vida. Em viva carne, em aberto pulso, o amor, em belo carpe diem, é conclamado à ação. E que a palavra, vigorosa, intensa, dessa grande poeta, leve seus leitores ao orgasmo não só do verbo, mas da vida em febre e desvario.

SAVARY, Olga. Repertório Selvagem. Rio de Janeiro: Multimais, 1998.

http://arquipelagodosilencio.blogspot.com/2008/09/viva-carne-da-poesia-de-olga-savary.html

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