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"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...sei lá de quê!" (Florbela Espanca, Carta no. 147)

Sobre ALICE RUIZ

"Que importa o sentido se tudo vibra"

ALICE RUIZ

tradutor

3 de setembro de 2010

Os Canibais Estão na Sala de Jantar – Arnaldo Jabor

A crise é sempre culpa do outro. Ninguém quer partilhar a crise. A crise provoca ciúmes. A crise é um latifúndio improdutivo que ninguém quer dividir. A crise pode ser uma atração turística, uma marca nacional. Uns países têm o urso cinzento, como os Estados Unidos, outros, a nouvelle cuisine, outros as estações de esqui, nós temos o erro permanente, o destino-pastelão. A crise demanda mais crise, como a heroína. A crise preenche nossas vidas. A crise é uma minissérie da Globo. Já há um certo carinho moderno pela crise. O dia em que a crise for embora, o que faremos? O que será de nós, sem assunto, sem tremor, relegados a tarefas menores como, digamos… trabalhar? Teremos então um intenso tédio conjugal pela Pátria.


"Os artigos reunidos nesse livro foram anteriormente publicados no jornal Folha de S. Paulo e são testemunhos de ceticismo, ironia e dor. Dor de ser perseguido pelo Brasil, por uma idéia remota de Brasil, pelo sentimento pungente de ser brasileiro. Jabor descreve os “jovens louros e lindos que já não têm a ingenuidade alienada dos anos 60”, um “encontro” surreal com o Oswald de Andrade em plena Semana de Arte Moderna, fala dos travestis no Rio de Janeiro que não querem ser mulheres, da angustia do João Cabral e da visão errônea que antes o Brasil era melhor.

Se numa parte ele descreve (cena a cena) a morte de três assaltantes na cidade de Matupá que foram baleados e queimados vivos pelos próprios moradores, noutra ele fala sobre Glauber e o seu Cinema Novo. E ainda discorre sobre Nelson Rodrigues, sobre o problema da literatura brasileira, sobre Rimbaud, sobre crise, sobre riqueza e pobreza, sobre a descoberta de muitos países dentro do Brasil, sobre filmes pornôs (massa!!!), sobre pênis-afro e pussies-afro (bucetas), sobre seca no Nordeste, sobre o filho da puta do Collor (“nosso presidente mais galã que se cercou de feios”), sobre Medici e Geisel, sobre a morte do PC, sobre sórdidas surubas em Brasília, sobre o Roberto Marinho, sobre impeachment, sobre o governo militar, sobre a desgraça que é a televisão, sobre viados (ele adora falar de viados), sobre o quadro “As meninas” de Velázquez, sobre Fidel, sobre medo da miséria, sobre camisinha em tempo de Aids, sobre os intelectualóides e a governabilidade das esterilizações obrigatórias, sobre a morte dos 111 presos de Carandiru (GOSTEI MUITO DO TEXTO) e sobre políticos que não saem nem f... do poder.

A última crônica é muito interessante: um diálogo com o próprio Nelson Rodrigues. Em suma: “Os canibais...” é um bom livro, mas eu esperava muito mais de um cara que escreveu isso tudo do que aquela marionete com discurso pronto na tela da Globo. (“OS CANIBAIS ESTÃO NA SALA DE JANTAR” de Arnaldo Jabor, crônica, 224 págs. 1993 - Ed. Siciliano)."

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